Lewis Hamilton conquistou sua primeira vitória com a Ferrari no GP da Espanha, encerrando um longo jejum tanto do piloto quanto da equipe italiana. Enquanto o heptacampeão mundial foi o centro das atenções ao subir ao lugar mais alto do pódio, uma figura também chamou atenção na comemoração do pódio, já que representando o time de Maranello vimos Carlo Santi ao lado do competidor.
Após uma temporada de estreia com a Ferrari marcada por problemas e desafios, Hamilton conseguiu a troca do seu engenheiro de corrida, algo que parecia impossível dentro de um time tão conservador. O campeonato de 2025 foi desafiador não apenas pelos problemas com a construção e desenvolvimento do SF-25, mas muitas dessas questões foram elevados com a comunicação e a troca que Hamilton tinha com Riccardo Adami.
Quando Lewis deixou a Mercedes, uma das pessoas que muitos gostariam de ver acompanhando o piloto nesta jornada para Maranello, como membro do seu staff era certamente Peter Bonnington. O engenheiro britânico e Lewis desenvolveram um relacionamento que chamava a atenção pela eficiência do trabalho, confiança e da troca que eles tinham.
A parceria durou 11 anos e fez Bonniton se tornar um dos engenheiros mais famosos do grid d F1, por conta da forma clara e o poder de convencimento que Bono tinha quando trabalhava com Hamilton. No entanto, quando Lewis rompeu com a Mercedes e fez a sua mudança para Ferrari, o time alemão tratou de garantir a permanência do engenheiro, pensando principalmente no trabalho de desenvolvimento que ele poderia realizar com o jovem Andrea Kimi Antonelli – que seria promovido ao posto de titular e substítuto de Hamilton em 2025.
Construir essa simbiose entre engenheiro e piloto está longe de ser uma tarefa simples. Trata-se de uma relação baseada em confiança, comunicação e entendimento mútuo, algo que normalmente leva tempo para ser desenvolvido. Em uma Fórmula 1 cada vez mais dinâmica, onde pilotos frequentemente trocam de equipe ao longo da carreira, nem sempre existe a oportunidade de criar uma parceria duradoura e marcante. Por isso, quando essa conexão acontece, ela pode se transformar em um diferencial importante dentro da garagem e refletir diretamente nos resultados em pista.
Por várias vezes na carreira de Hamilton, Bono fez total diferença, já que o engenheiro de corrida é aquele que tem todos os dados e um grande poder nas tomadas de decisão. É ele que monitora a distância do seu piloto para os outros competidores, é ele que filtra as informações importantes e passa elas no momento que julga ideal, também é ele que junto com toda uma equipe de estratégia escolhe quando ou não chamar o piloto aos boxes.
Essa relação só funciona quando existe confiança mútua. Ao longo dos anos, foram vários os momentos em que Hamilton precisou confiar plenamente nas orientações de Peter Bonnington. Um dos exemplos mais emblemáticos aconteceu no GP da Rússia de 2021. Naquela corrida, a decisão de ouvir seu engenheiro e trocar para pneus intermediários no momento certo foi determinante para a vitória de Lewis. Do outro lado, Lando Norris optou por permanecer na pista com pneus para pista seca e ignorou os alertas da McLaren, em um cenário em que a comunicação e a leitura da situação não foram tão claras. O resultado foi uma vitória crucial para Hamilton e uma oportunidade perdida de vencer pela primeira vez na F1 para Norris, evidenciando como a sintonia entre piloto e engenheiro pode ser decisiva em momentos de pressão.
Porém, pouco tempo depois, no GP da Turquia, Hamilton que tinha confiado em Bono na Rússia, não ficou satisfeito com as escolhas da equipe e terminou a corrida na 5ª colocação.
Tendo conhecimento daquilo que Hamilton desfrutou ao longo de anos com Bono, rapidamente a relação dele com Riccardo Adami ganhou os holofotes. A comunicação entre eles era totalmente caótica, por vezes o engenheiro italiano enchia o competidor com informações desnecessárias ou não fornecia as informações que eram esperadas.
Isso significa que Adami era ruim? Não, mas que ele e Hamilton não conseguiram encontrar essa linha muito tênue que envolve o relacionamento engenheiro/piloto. A comunicação é algo primordial quando estamos falando de uma corrida e de um grid cada vez mais apertado como o da Fórmula 1.

Adami contava com vasta experiência como engenheiro de corrida, tinha trabalhado anteriormente com Sebastian Vettel e Carlos Sainz. Porém, Hamilton e ele não ornaram, o trabalho e a relação deles foi-se atrapalhando corrida após corrida, desta forma, par 2026 a Ferrari realizou a substituição do engenheiro por Carlo Santi.
Como Hamilton revelou no início da temporada, a promoção de Santi ao posto de engenheiro de corrida era vista inicialmente como uma solução temporária. A ideia da Ferrari era realizar uma nova mudança após as primeiras corridas do campeonato, já que a equipe trabalhava na contratação de outro profissional para assumir a função ao lado do heptacampeão.
Na época, o britânico demonstrava certa preocupação com a possibilidade de passar por mais uma alteração em um período tão curto, justamente em um momento em que ainda buscava adaptação ao ambiente da Ferrari e à construção de uma relação de confiança dentro da equipe.
Quem é o “Bono italiano”?
O novo engenheiro de corrida de Hamilton, rapidamente construiu uma relação de confiança que passou a ser apontada como um dos fatores por trás da evolução recente do piloto.
O próprio Hamilton chegou a apelidar Santi de seu “Bono italiano”, em referência a Peter Bonnington, o histórico engenheiro que o acompanhou durante praticamente toda sua trajetória de sucesso na Mercedes. Embora a comparação chame a atenção, a forma como Hamilton escolheu falar do italiano, não é por ele ser igual Bono, mas a forma como eles conseguiram se encontrar em um curto espaço de tempo. Além disso, eles conseguiram desenvolver um espaço para confiança.
Natural de Verona, Carlo Santi tem 52 anos e construiu praticamente toda sua carreira profissional dentro do universo Ferrari.
Formado em Engenharia Mecânica pelo Politécnico de Milão, iniciou sua trajetória na indústria automotiva trabalhando em projetos no Centro de Pesquisa da FIAT antes de migrar para o automobilismo. Seu sonho sempre foi trabalhar para a Ferrari, objetivo que alcançou após passar por funções ligadas à simulação e dinâmica veicular.
Ao longo de mais de uma década na equipe de Fórmula 1, Santi acumulou experiências em diversas áreas técnicas até chegar à engenharia de corrida e desempenho de veículos.

Seu trabalho ganhou destaque especialmente ao lado de Kimi Räikkönen. Após atuar como engenheiro de desempenho do finlandês em 2016 e 2017, foi promovido a engenheiro de corrida em 2018, ano em que acompanhou de perto a última vitória do campeão mundial de 2007, conquistada no GP dos Estados Unidos.
Posteriormente, assumiu funções estratégicas dentro da chamada “garagem remota” da Ferrari, em Maranello, prestando suporte operacional à equipe durante os finais de semana de corrida.
“Desde jovem, trabalhar para a Scuderia era meu objetivo final. No entanto, o caminho que me trouxe até aqui não foi fácil”, disse ele ao site oficial da Ferrari no ano passado.
A chegada de Hamilton à Ferrari em 2025 foi cercada de expectativas, mas os resultados ficaram muito abaixo do esperado. Ser engenheiro de corrida do heptacampeão mundial, em um momento em que ele também busca resultados ainda maiores de sua carreira, com o maior time da Fórmula 1, não é uma tarefa fácil.
Apesar de sempre destacar o profissionalismo de Adami, Hamilton e Ferrari decidiram realizar mudanças durante a pré-temporada de 2026. Inicialmente, Santi assumiu o posto de forma provisória, mas a parceria rapidamente mostrou resultados, dificultando qualquer mudança posterior que a equipe planejava.
Nos últimos Grandes Prêmios, Hamilton conquistou uma vitória e dois segundos lugares, voltando a figurar entre os protagonistas do campeonato.
Dentro de uma série de mudanças que aconteceram para Hamilton estar neste ponto em 2026, como a contratação de pessoas que o piloto julgava importante, bem como mudanças pontuais no carro, o fato da Ferrari ter escutado ele muito mais para o desenvolvimento do SF-26 – Santi também aparece como uma das peças fundamentais nesta linha de crescimento de Lewis com a equipe italiana.
“Ter essa colaboração entre piloto e engenheiro às vezes dá certo, às vezes não”, disse Hamilton antes do Grande Prêmio de Mônaco. “Comigo e com o Bono, nos demos bem desde o começo. Ele tinha um bom relacionamento de trabalho com o Michael [Schumacher, que foi engenheiro de Bonnington por um breve período antes de Hamilton na Mercedes].”
“Eu sinto que Carlo é como o meu ‘Bono italiano’. Eu disse isso ao Bono outro dia – no sentido de que ele [Santi] é um veterano.”
“Ele é um cara mais velho, com muita experiência. É muito tranquilo. Esse é um detalhe que conseguimos discutir juntos. Nosso entendimento da parte de engenharia, acho que é algo que vale a pena lembrar.”
Na Fórmula 1 moderna, a comunicação entre piloto e engenheiro de corrida é considerada um dos elementos mais importantes para o desempenho de uma equipe.
Cabe ao engenheiro interpretar as sensações transmitidas pelo piloto, transformá-las em ajustes de acerto, estratégia e desenvolvimento do carro. Durante o início de um novo regulamento, essa relação se torna ainda mais primordial, pois marca também a linha de desenvolvimento que a equipe seguirá, visando aperfeiçoar o seu equipamento.
Hamilton destacou que essa sintonia leva tempo para ser construída e acredita que a parceria com Santi já alcançou um nível muito elevado em tão pouco tempo.
“Acho que atender às necessidades de um piloto leva tempo para aprender. Quando você dá feedback a um engenheiro, ele está entendendo o equilíbrio nas curvas. Ele entende todos os elementos que contribuem para as dificuldades que você enfrenta. Quando você tenta descrever o problema, curva por curva, entrada, meio e saída, ou divide em cinco seções, se preferir.”
Se Peter Bonnington foi um dos pilares da era mais vitoriosa da carreira de Hamilton na Mercedes, Carlo Santi começa a construir seu próprio capítulo ao lado do heptacampeão em Maranello — um capítulo que teve em Barcelona seu primeiro grande momento de celebração.
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