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A linha tênue das tomadas de decisão

Hamilton terminou a corrida na Turquia em P5, mas chegou estar próximo de um pódio, no entanto, a parada prejudicou o seu rendimento

A Fórmula 1 é baseada em tomadas de decisão, seja com o piloto guiando, ou com as escolhas que as equipes têm nos boxes, mas ela também caminha paralelamente com a estratégia. Aquela velha frase clichê, mas que casa perfeitamente – o automobilismo é o esporte individual mais coletivo de todos.

Tanto no GP da Rússia, como no GP da Turquia, tivemos uma prova onde a chuva e o asfalto molhado foram o motivo da discussão entre engenheiros e pilotos. Na Rússia, Lewis Hamilton foi convencido por Peter Bonnington (Bono), a entrar nos boxes, abandonar o uso dos pneus de pista seca e instalar os compostos para chuva.

Trocar ou não os pneus? Qual o momento ideal para fazer a parada? Permanecer com os intermediários que estão desgastados? – Foto: reprodução Mercedes/Daimler

Quando o engenheiro foi claro quanto ao desempenho apresentado por Lando Norris que persistia na pista, Hamilton que achava que a melhor opção também era permanecer, escutou o seu engenheiro e partiu para os boxes.

A decisão de parar Hamilton, foi acompanhada de uma avaliação das circunstâncias, mas também de bons argumentos apresentados pela equipe, capazes de determinar aquela linha tênue – vencer ou perder uma vitória.

Na Turquia não foi diferente, uma decisão tomada pela equipe, atrelado ao poder de convencimento fizeram Hamilton terminar na quinta posição.

O que ocorreu na Turquia

A pista foi declarada molhada antes do início da corrida, portanto, as estratégias zeraram, os pilotos tiveram que largar com os pneus destinados para chuva. Todos instalaram os pneus intermediários (faixa verde), assim, aquela regra de usar dois tipos de compostos na corrida é derrubada, o piloto pode completar a prova com a utilização de apenas um tipo de composto e até mesmo receber a bandeira quadriculada com o pneu que começou a corrida.

O traçado nunca esteve completamente seco ou favorável para a utilização dos pneus slick, mas a pista foi evoluindo à medida que a corrida avançava. Dos boxes, as equipes passaram pela mesma dificuldade que enfrentaram no ano passado na Turquia – trocar ou não os pneus? Qual o momento ideal para fazer a parada? Permanecer com os intermediários que estão desgastados?

Conforme a corrida avançou, alguns pilotos foram os primeiros a experimentar novos pneus intermediários, mostrando que a performance tinha uma queda no início, mas depois era possível retomar o bom desempenho. No entanto, tiveram outros pilotos que permaneceram na pista e se arriscaram para completar mais voltas com os intermediários do início.

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Charles Leclerc e Lewis Hamilton chegaram em um ponto da prova onde poderiam arriscar terminá-la com os pneus que começaram, pois restavam praticamente as últimas dez voltas da corrida. O monegasco, estava arriscando, mas ao perder a liderança da corrida, foi chamado para os boxes na volta 47.

Neste momento a pista também estava bem mais seca, mas não havia a possibilidade de instalar os pneus slick, no entanto, colocar intermediários novos também não era a melhor opção. A temperatura e as condições de pista fariam o composto de faixa verde sofrer muito mais com a degradação, provocando bolhas que acabam deixando o piloto mais desconfortável para guiar ao carro.

Tivemos um momento que Hamilton também acreditou que seria possível fazer as últimas voltas com pneus para pista seca, acredito que nesse ponto faltou a equipe comunicar que de forma alguma este momento chegaria até o encerramento da prova.

Instalar novos pneus intermediários em uma pista que estava quase seca, também foi um dilema para a corrida de Hamilton – Foto: reprodução Mercedes/Daimler

Pensando nisso, cada volta a mais que Hamilton permaneceu na pista antes de colocar os intermediários novos, tornaram a janela muito pior para ele. O inglês até informa que gostaria de permanecer na pista para o engenheiro, pois estava na terceira posição e só precisava controlar o carro até o final. No entanto, Bono pediu para Hamilton se encaminhar para os boxes na volta 50, para que ainda tivesse chance de retornar à frente de Gasly.

A manobra até funciona, ele para no giro 50, Hamilton perde a posição para Leclerc e desta forma assume o 5º lugar, mas começa a ser informado de como Gasly estava reduzindo a distância entre eles, enquanto o piloto da Mercedes identificada a queda de eficiência dos pneus novos.

Chegamos neste impasse. Em Sochi o poder de convencimento de Bono fez com que Hamilton ganhasse a corrida, enquanto na Turquia, a confiança de Hamilton no engenheiro fez o inglês perder o pódio, mas principalmente a 4ª posição.

Na pista Hamilton tinha um maior controle sobre aquela situação, ele precisava realmente apenas administrar até o final. Se a equipe tivesse relembrado o episódio de 2020 na Turquia, onde Hamilton venceu a corrida com os pneus intermediários – ainda que não tivesse largado com eles – saberia que o piloto tinha completado domínio do carro para arriscar não fazer uma parada. O inglês fala para Bono pouco depois “Não devíamos ter entrado… Eu disse a você!”

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Hamilton ignorou a sua intuição de permanecer na pista, seguindo o solicitado pela equipe.

É complicado, até porque, na corrida passada, quinze dias atrás, as informações apresentadas por Bono estavam certas e forneceram um resultado diferente. Hamilton ficou ainda mais frustrado quando ficou sabendo que Esteban Ocon que ficou em P10, tinha completado a corrida sem fazer nenhuma parada.

Hoje (11) no Instagram, Hamilton falou sobre o assunto.

“Bom dia, mundo! Vi na imprensa nesta manhã alguns exagerando um pouco sobre o incidente da corrida de ontem sobre o momento de ir para as boxes. Não é certo dizer que estou furioso com a minha equipe. Como uma equipe, trabalhamos duro para construir a melhor estratégia possível, mas a corrida avança e você tem que tomar decisões diversas, porque há vários fatores que mudam constantemente”, iniciou o piloto.

“Ontem, nós arriscamos ficar longe dos boxes com a esperança de que a pista fosse secar, mas isso não aconteceu. Eu queria arriscar e permanecer até o fim, mas foi minha decisão não entrar nos boxes e não funcionou. No fim, nós fizemos a parada, e essa foi a decisão mais segura.”

“Vivemos e aprendemos. Ganhamos e perdemos como um time. Nunca espere que eu seja educado e calmo no rádio durante uma corrida. Nós somos muito apaixonados e, no calor do momento, essa paixão pode extrapolar, como acontece com todos os pilotos. Meu coração e meu espírito estão lá fora, nas pistas, e é esse fogo que me levou tão longe. Toda e qualquer irritação são deixadas de lado rapidamente quando conversamos, sempre olhando para a próxima corrida. Hoje é um novo dia para crescer como time”, completou Hamilton no Instagram.

GP da Turquia é mais uma daquelas provas que nos questionamentos sobre um final alternativo, principalmente se Hamilton tivesse batido o pé e permanecido em pista. O inglês ainda sofreria novos ataques de Pérez?

De qualquer forma, o episódio acaba servindo de aprendizado para a equipe, não é possível vencer e ter o melhor resultado sempre, mas contribui como bagagem dos próximos eventos. Obviamente o relacionamento entre Hamilton e Bono, ou assim como qualquer engenheiro e piloto é uma via de mão dupla, pautada por escolhas. 

Escute o nosso podcast sobre o GP da Turquia

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Debora Almeida

Meus olhos brilharam quando eu vi o estilo de pilotagem do Vettel ele despertou o meu interesse pelo esporte e cada vez mais eu queria entender sobre o assunto. Hoje gosto de tirar fotos e escrever textos!

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