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SÉRIE CIRCUITOS DA F1: Aintree

Inspirada em Goodwood, Aintree foi de pista de cavalos para palco de domínio de Stirling Moss. 

Hipódromos transformados em circuitos não são novidade na F1. A ideia de se utilizar as pistas de corridas de cavalos para corridas de automóveis começou nos anos 1950, em Aintree, cidade que fica a cerca de nove quilômetros da cidade de Liverpool, no norte da Inglaterra, e a ideia também foi utilizada mais tarde em Adelaide, na Austrália. 

O hipódromo de Aintree estava com dificuldades para pagar as mensalidades do National Hunt, já que não recebia muitas corridas por ano e a proprietária Mirabel Topham, depois de visitar o circuito de Goodwood, que foi montado numa base militar, teve a ideia de transformar sua pista para cavalos para receber também os carros.

Tendo o circuito de Goodwood como inspiração, Mirabel Topham, na foto com Stirling Moss após a corrida de 1957, transformou sua pista de cavalos em um circuito. – Foto: reprodução

Para isso foi criado o Aintree Circuit Club (ACC), que tinha a presidência de Topham, para tirar a ideia do papel. Só que os representantes de Aintree não queriam começar de baixo, mirando logo em receber o GP da Grã-Bretanha de F1, que na época era disputado em Silverstone. E eles tinham uma importante carta na manga já que o local recebia a maior corrida de cavalos da Inglaterra e estava acostumado a receber multidões, já possuía instalações de dar inveja em muitos circuitos. 

Vista aérea do hipódromo em 1953 onde no ano seguinte seria também construído o circuito de Aintree. – Foto: reprodução

Com uma extensão de 4,828 km, o traçado foi construído em quatro meses utilizando parte da pista de cavalos com outras seções que passavam por dentro da propriedade, sendo inaugurado em 1954. A princípio a pista seguia a direção da pista de cavalos, mas depois da primeira corrida, viu-se que correr no sentido horário era melhor. Uma pista curta de 2,205 km, chamada de Club Circuit, também foi feita.

Diferentes traçados em Aintree. Em verde, a pista principal. Em amarelo, a traçado Club e em cinza, a pista de corrida de cavalos. – Foto: reprodução
Com 4,828 km, o circuito levou quatro meses para ficar pronto e usou a maior parte das instalações do hipódromo. – Foto: reprodução

As 100 mil libras investidas na pista deram resultado, com Aintree recebendo a F1 no dia 16 de julho de 1955.

Largada do GP da Grã-Bretanha em 1955, que teve a pole de Stirling Moss. – Foto: reprodução

E a pista não podia ter uma melhor estreia, com Stirling Moss se tornando o primeiro piloto britânico a vencer em casa com a Mercedes, chegando 0s002 à frente de seu companheiro de equipe Juan Manuel Fangio, que de acordo com Moss, pode ter entregado a vitória como um presente para que o amigo vencesse diante de sua torcida, apesar do britânico ter largado na pole e liderado 80 das 90 voltas da corrida.

Os dois pilotos da Mercedes chegam colados na linha de chegada, com Stirling Moss levando a vitória. – Foto: reprodução.

Karl Kling completou o domínio da Mercedes na corrida, conquistando o último lugar no pódio, com Piero Taruffi, também da flecha prateada, chegando em 4º. 

Se a vitória de Moss em 1955 já tinha feito a alegria do público, dois anos depois, o piloto venceu junto com Tony Brooks, pilotando pela equipe Vanwall, sendo os primeiros britânicos a vencerem num carro também britânico. 

Tony Brooks cedeu o carro para que Stirling Moss terminasse a corrida, dividindo a vitória com o companheiro de equipe em 1957. – Foto: reprodução

A corrida de 1957 era para ter a presença de um grande conhecedor da pista. O marquês Alfonso de Portago correu duas vezes na pista como jóquei e depois de trocar os cavalos pelos carros, andou em Aintree em um carro esportivo. Estava tudo certo para o espanhol correr pela Ferrari naquele ano, mas um acidente durante a Mille Miglia tirou a vida do piloto.

Alfonso de Portago já correu em Aintree com cavalos, quando era jóquei e com carros esportivos, quando virou piloto. O anglo-espanhol, que também disputou as Olimpíadas de Inverno na categoria de Bobsleigh, ia correr em Aintree pela F1 com a Ferrari, mas faleceu em um acidente dois meses antes. – Foto: reprodução

As corridas continuaram acontecendo e eram um sucesso entre o público, já que a pista plana e a posição das arquibancadas davam uma visão geral de tudo o que estava acontecendo. Só que a velocidade dos carros de F1 foi aumentando e Aintree começou a ficar pequeno e perigoso. O circuito não tinha lugar para a construção de áreas de escape em algumas áreas. Com tudo isso, a saída da F1 do circuito foi inevitável e a categoria se mudou para Brands Hatch, depois de realizar apenas cinco corridas nessa pista nos oitos anos em que o GP da Grã-Bretanha se revezou entre o circuito e Silverstone.

Jim Clark foi o vencedor da última corrida de F1 disputada em Aintree, em 1962. – Foto: reprodução

Em 1964, Topham anunciou que estava vendendo Aintree para a construção de casas. Foram dois anos de disputas na justiça, já que quando comprou a propriedade do Conde de Sefton em 1949, havia uma cláusula que apenas permitia o uso da propriedade para agricultura e corrida de cavalos. Em 1966, Topham venceu a causa e pode concluir a venda para o grupo Walton, que tinha William Davies, um executivo do ramo imobiliário, como dono. A compra pode ter sido finalizada, mas Davies nunca conseguiu a licença para construir casas no local. 

Enquanto isso, corridas menores continuaram acontecendo nos anos 1970, utilizando a pista curta, com a maior atração sendo uma corrida de F3, vencida por Gunnar Nilsson em 1975.

Vendo que não ia conseguir transformar o local em um conjunto residencial, Davies terminou de pagar as prestações do financiamento em 1976 e passou a alugar o local para a casa de apostas Ladbrokes em contratos renovados a cada ano. O ACC se beneficiou dos novos donos e continuou usando a pista e ainda por cima, tendo total autonomia para gerenciar o circuito.

Em 1977, Richard Peacock, que era membro do clube, abriu uma escola de pilotagem no local. O Aintree Racing Driver School funcionava às terças-feiras no traçado Club, com aulas durante o dia e testes exclusivos para os membros à noite.

Em 1982, o circuito foi colocado novamente à venda, já que em várias ocasiões, os carros acabaram causando danos na pista de cavalos, inclusive destruindo obstáculos. O ACC concordou  em parar com as corridas no circuito até que a venda fosse feita, já que a Ladbrokes não queria que os novos compradores encontrassem buracos na pista em suas visitas. A escola de pilotagem, no entanto, foi autorizada a continuar operando, assim como as corridas de motos, que ofereciam menos riscos de danos do que os carros.

Em 1984, o ACC trouxe as corridas de volta, com o Rally Single Venue Tarmac sendo a primeira corrida a ser disputada depois do breve hiato. Outras corridas vieram e o circuito começou a ficar movimentado. Só que uma crise econômica nos anos 1990 viu as corridas sendo diminuídas pela metade. E para piorar a situação, o Jockey Club, novos donos da propriedade, abriu um campo de golfe e para compensar os dias que não funciona por conta das corridas, aumentou o valor do aluguel da pista. Esse aumento de custo foi demais para o ACC, que era o único clube que utilizava a pista. Sobrou até para a escola de pilotagem, que fechou as portas.

Boa parte do circuito de Aintree virou um campo de golfe e quando precisava ser fechado para as corridas, o Jockey Club cobrava uma alta taxa para compensar as perdas. – Foto: reprodução

Em 1997, o ACC planejava fazer uma corrida utilizando o traçado inteiro, para celebrar os 40 anos da primeira corrida de F1 no circuito, mas divergências com a gerência da pista impediram a corrida de ir adiante. Enquanto se organizava financeiramente, o circuito ficou sob responsabilidade do Liverpool Motor Club. Em 2004, com as dívidas pagas, o ACC voltou a operar, organizando o Aintree Festival of Motorsport, celebrando o aniversário de 50 anos da pista, reunindo uma coleção invejável de mais de 250 carros históricos. Além do festival, foram feitos dois bailes de gala, que tiveram Sir Stirling Moss, Tony Brooks e Roy Salvadori como anfitriões.


Sir Stirling Moss recebe homenagem durante festival realizado em 2004. -Foto: reprodução

Logo depois disso, o circuito passou por uma reforma, que colocou alguns portões separando parte do traçado integral, que hoje conta com o campo de golfe e com alguns trechos virando ruas públicas. 

Uma pequena faixa de asfalto é o que sobrou do antigo circuito de Aintree, que hoje ainda mantém uma parte da pista para fins comerciais e pequenas corridas. – Foto: reprodução

Apesar das corridas ficarem concentradas nos cavalos, a pista curta ainda é procurada para lançamento de carros, programas de TV e também para eventos do Liverpool Motor Club. 

Apesar das mudanças no circuito, uma parte do traçado ainda é usado pelo Liverpool Motor Club para suas atividades. – Foto: Brian Taylor

As cinco corridas de F1 disputadas no circuito tiveram cinco vencedores diferentes. Stirling Moss venceu duas corridas, em 1955 e em 1957, quando dividiu o degrau mais alto do pódio com Tony Brooks. Foi a última vez que dois pilotos dividiram a mesma posição em uma corrida. Jack Brabham foi o vencedor em 1959, Wolfgang von Trips venceu em 1961 e Jim Clark levou a vitória na derradeira corrida. Em número de pódios, Moss também lidera, com três conquistas em quatro corridas disputadas, seguido de Bruce McLaren, com dois pódios no circuito.  

Entre os pilotos da casa, dos 25 pilotos que largaram na corrida inaugural, em 1955,  onze eram britânicos. Além do vencedor Stirling Moss, apenas Mike Hawthorn, Ken Wharton e Lance Macklin completaram a prova. No total, 35 britânicos correram em Aintree. 

Sir Stirling Moss conseguiu três pódios em quatro corridas e é o britânico mais bem sucedido no circuito de Aintree. – Foto: reprodução

Entre os brasileiros, Fritz D’Orey foi o único a correr nessa pista, em 1959, mas  abandonou a prova depois de sofrer um acidente. 

Entre os brasileiros, Fritz D’Orey foi o único a correr em Aintree, mas não completou a prova – Foto: reprodução

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Denise Vilche

Uma revista antiga sobre carros fez nascer uma paixão: a F1. Uma menina curiosa de oito anos queria saber quem eram aqueles tais de Senna, Piquet, Mansell e cia. que a revista mostrava em gráficos coloridos. E mais de 30 anos depois, essa menina, agora jornalista, continua mais apaixonada pela F1 do que nunca.

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