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SÉRIE CIRCUITOS DA F1: Dijon

Sem dinheiro para construir a pista inteira, Dijon teve que improvisar para receber a F1

Ficha técnica

Nome do circuito: Circuito de Dijon-Prenois
Comprimento da pista: 3,887 km
Número de voltas: 79
Distância total: 307,073 km
Recorde da pista: 1:05.257, Patrick Tambay (1984)
Primeira corrida na F1: 1974

A cidade de Dijon e a região de Borgonha, na França, já recebiam corridas desde os anos 1920. Em 1927, o Automobile Club de Bourgogne (ACB) criou a corrida “6 Horas de Borgonha”, que foi realizada em uma pista de 17,9 km, situada na parte norte da cidade. A prova, que aconteceu no dia 27 de maio, foi dividida em três categorias. Dos 15 carros que largaram, a Bugatti Type 35C de Raymond Leroy era a favorita e o piloto completou 24 voltas no circuito, sendo sua volta mais rápida feita em 9m17s.

Traçado de 17,9 km foi o primeiro usado em corridas na região de Dijon. – Foto: reprodução

Para o ano seguinte, o formato foi mudado e a Copa de Borgonha foi dada aos carros de corrida e a Copa do ACB para os carros esportivos. A prova teve quatro horas de duração e ainda teve mais duas horas de uma corrida de motociclismo.

A corrida, também nomeada de 1º Grande Prêmio de Borgonha, foi realizada no dia 16 de maio de 1928, teve a pole de Louis Chiron, mas quem recebeu a bandeirada foi a pilota Janine Jennky, que ainda marcou a volta mais rápida.

A pilota Janine Jennky foi a vencedora da Copa de Borgonha, realizada em 1928. Ela não foi a única mulher a competir, com Lucy Schell chegando em 4º. – Foto: reprodução.

A segunda edição do Grande Prêmio de Borgonha foi disputada no ano seguinte, com 27 competidores entre as duas categorias. Georges Philippe de Rothschild se sagrou vencedor em um domínio da Bugatti.

As competições deram uma pausa até o fim da Segunda Guerra Mundial, quando a terceira edição do Grande Prêmio de Borgonha foi realizada, em 1946, usando um circuito diferente, dessa vez com apenas 2 km de extensão.

Depois da Guerra, um traçado de 2 km, mais compatível com os padrões da época, foi usado para a volta das competições em Dijon. – Foto: reprodução
Largada para a corrida em 1946, vencida por Jean-Pierre Wimille. Apesar do sucesso, as corridas só voltariam a acontecer nos anos 1960. – Foto: reprodução
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A corrida foi um sucesso, mas Dijon só voltaria a receber uma corrida em 1968, novamente usando um circuito de rua, desta vez na estrada BA102. Vendo o sucesso que as corridas estavam fazendo, o ex-jogador de rugby e lutador François Chambelland, teve a ideia de construir um lugar que pudesse colocar Dijon no centro da cena automobilística. Depois da Segunda Guerra Mundial, várias pistas nasceram na França, como os circuitos de Reims e de Rouen, que inclusive já estavam recebendo corridas de F1, mas esses circuitos ainda usavas ruas e estradas públicas e o projeto de Chambelland se destacaria pela construção de um circuito permanente.

O idealizador do circuito de Dijon, François Chambelland (de terno à esquerda), junto com Alain Prost, depois do francês vencer a corrida de 1981. – Foto: reprodução

Em 1967, ele começou a colocar seus planos em ação. Depois de escolher um terreno em Prenois, uma área de floresta que fica no oeste de Dijon, Chambelland pediu ajuda para os pilotos Jean-Pierre Beltoise e François Cevert e também para o jornalista de automobilismo José Rosinski, para fazer o traçado do circuito.

Os pilotos Jean-Pierre Beltoise e François Cevert foram responsáveis por criar o traçado de Dijon. – Foto: reprodução

O maior problema era o dinheiro para construir a pista, mas em 1969, Chambelland começou as obras assim mesmo. Sem ter todo o dinheiro, foi decidido construir uma versão mais curta da pista e quando tivesse fundos necessários, terminar a versão longa do traçado, que teria um pouco mais de 5 km.

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Vista aérea do traçado de Dijon, em outubro de 1971. – Foto: reprodução
Sem ter dinheiro para investir no traçado original, uma versão mais curta de 3,200 km foi construída no lugar. – Foto: reprodução.

Mesmo sem contar com muito apoio financeiro, as obras terminaram em 1972 e no dia 26 de maio, o circuito de Dijon-Prenois foi inaugurado, com Guy Ligier, amigo de Chambelland, tendo a honra de ser o primeiro a correr na nova pista.

Inauguração do circuito de Dijon, no dia 26 de maio de 1972. – Foto: reprodução

Somente dez dias depois da abertura é que a primeira corrida aconteceu de fato. Uma prova de protótipos foi vencida por Arturo Merzario, com as motos competindo um mês depois. Logo no ano seguinte, a World Sportscars veio para disputar uma prova de 1000 km.

Chegada da prova de 1000 km da World Sportscar, realizada no dia 15 de abril de 1973 e que foi vencida por Henri Pescarolo e Gérard Larrousse com a Matra MS670B-Simca. – Foto: reprodução

E apesar de estar apenas no terceiro ano de existência, Dijon conseguiu a proeza de no dia 7 de julho de 1974, receber a F1 pela primeira vez, tirando a corrida do novo e moderno circuito de Paul Ricard. A corrida foi vencida por Ronnie Peterson, mas o traçado curto do circuito não agradou. Os 3,200 km da pista não davam espaço para que os líderes conseguissem andar muito sem esbarrar em um retardatário. Essa falta de espaço não foi um problema no GP da Suíça, que foi disputado em Dijon e não valia para o campeonato, já que o número de inscritos era menor.

Ronnie Peterson foi o vencedor da primeira corrida de F1 disputada em Dijon, em 1974. – Foto: reprodução

Até que a situação da pista se resolvesse, a F1 voltou para Paul Ricard. Sem querer perder a vez, Chambelland conseguiu dar um jeito de ampliar a pista em 1976. Ainda não era o traçado original que tinha sido planejado em 1967, mas já era o suficiente para a F1 fazer seu retorno.

A linha mais clara mostra a intenção de expansão do circuito. A área chegou a ser desflorestada, mas sem dinheiro para concluir a obra, um projeto menor foi feito no lugar. – Foto: reprodução
Traçado atual usado em Dijon, que passou a ter 3,887 km. A linha em cinza marca o local do traçado anterior, que ganhou alguns centímetros e agora tinha 3,289 km. – Foto: reprodução

No dia 3 de julho de 1977, a categoria estava de volta à Dijon e o público presente pôde ver Mario Andretti tirar a vitória das mãos de John Watson na última volta.

Em 1979, a F1 voltava mais uma vez ao circuito, com uma corrida que fez a alegria da torcida da casa. Ao vencer a prova, Jean-Pierre Jabouille conquistou sua primeira vitória na categoria e se tornou o primeiro piloto francês a vencer em casa e ainda por cima, conseguindo o feito pilotando por uma equipe francesa.

Jean-Pierre Jabouille se tornou o primeiro piloto francês a vencer em casa. Ao lado esquerdo, o sorridente René Arnoux, que subiu pela primeira vez ao pódio na F1, também correndo em casa. – Foto: reprodução.

A Renault tinha motivos de sobra para comemorar. Em seus dois primeiros anos na F1, a montadora tinha conseguido terminar apenas 4 das 18 corridas em que participou. Em 1979, agora tendo dois pilotos do grid, a situação ainda não era animadora. Das seis corridas disputadas antes da etapa francesa, três tiveram abandonos duplos e nas outras três, somente um carro cruzou a linha de chegada. Em Dijon, não só a equipe conseguiu sua primeira vitória na F1 e a primeira com um motor turbocomprimido, como teve seu outro piloto no pódio, depois que René Arnoux travou uma disputa acirrada com Gilles Villeneuve.

Festa da Renault em Dijon, com a equipe francesa conquistando sua primeira vitória na F1 justamente em casa. Essa também foi a primeira vitória de um motor turbo. – Foto: reprodução

Depois de muitas trocas de posição e batida de rodas, o canadense levou a melhor, com Arnoux tendo que se contentar com o 3º lugar. Apesar de ter perdido a batalha, Arnoux tinha motivo para comemorar, já que esse foi o primeiro pódio do piloto francês na F1 e ainda fazendo a volta mais rápida.

Gilles Villeneuve e René Arnoux travaram uma disputa acirrada pelo 2º lugar. Apesar de ter perdido a disputa, Arnoux ainda conquistou seu primeiro pódio na F1. – Foto: reprodução

Na corrida seguinte, que só seria disputada em 1981, mais uma vez a torcida local foi bem servida. Correndo pela Renault, Alain Prost conseguiu em Dijon sua primeira vitória na F1, ainda que de forma polêmica. A chuva fez com que a direção de prova interrompesse a corrida, quando faltava uma volta para completar os 75% de prova que já dariam a pontuação integral ao vencedor, que naquele momento era Nelson Piquet. Durante a interrupção, a Renault mexeu livremente em seus carros e ainda colocou pneus novos cedidos pela Michelin, dando vantagem aos seus pilotos na relargada. Com essa vantagem, Prost conseguiu assumir a liderança e venceu a corrida, com Piquet ainda conseguindo chegar em 3º.

Correndo em casa, Alain Prost comemora sua primeira vitória na F1. – Foto: reprodução.

A categoria ainda disputaria mais duas corridas no circuito. Em 1982, a corrida aconteceu com o nome de GP da Suíça, já que Paul Ricard, que vinha se revezando com Dijon, ficou com a etapa francesa naquele ano. Em 1984 aconteceu a derradeira corrida, que teve um representante da casa no pódio, com Patrick Tambay chegando em segundo com a Renault, que foi a equipe que teve mais pódios no circuito, com 5. A partir de 1985, o GP da França passou a ser disputado somente em Paul Ricard.

Restou ao circuito algumas categorias como a Formula 3000, que correu entre 1985 e 1989, as etapas Mundial e Europeia de Turismo, que foram disputadas em 1987 e 88, e a World Sportscars, que retornou ao circuito em 1989 e 1990. De 1991 até 1998, o Grande Prêmio Europeu de Truck foi o único evento internacional que o circuito recebeu, até a realização de uma etapa da FIA GT Series.

Desde 2002, o circuito passou das mãos da família Chambelland para um grupo de acionistas, que começou a adequação da pista para se encaixar nos padrões exigidos, como a construção de uma nova torre de controle e outras infraestruturas, como centro médico e torre de cronometragem. Em 2003, o circuito ganhou uma pista de kart e em 2008, começou um processo de reformas e melhorias, que estão sendo realizadas até hoje. Foram feitas mudanças no asfalto, no sistema de drenagem e nas áreas de escape. Em algumas áreas, a grama foi substituída por asfalto para que os pilotos que saíssem da pista tivessem mais controle do carro, voltando para a pista com mais segurança.

Obras feitas em algumas curvas, onde a grama foi substituída por asfalto para dar mais segurança no retorno à pista em caso de uma escapada. – Foto: reprodução

As estruturas antigas, inclusive os boxes, foram demolidas, para dar lugar às instalações mais modernas. Com isso, Dijon esperava receber competições importantes e também atender ao público, já que o circuito também funciona como escola de pilotagem e pista de kart.

Área de boxes em Dijon antes da reforma. – Foto: reprodução
Área de boxes revitalizada, buscando atrair cada vez mais corridas para o circuito. – Foto: reprodução
A pista de kart e a ampliação da área de escape na Parabolique foram as alterações feitas no circuito durante os anos. – Foto: reprodução

O esforço deu certo e em 2009, a DTM fez uma etapa no circuito, contando com um público de 24 mil pessoas. Sem dinheiro, Dijon não conseguiu sustentar a categoria pelos anos seguintes e o circuito agora está voltado apenas para competições nacionais e alguns eventos de campeonatos suíços, já que a região fica muito próxima da fronteira da Suíça.

As seis corridas disputadas no circuito tiveram seis vencedores diferentes. Ronnie Peterson, Mario Andretti, Jean-Pierre Jabouille, Alain Prost, Keke Rosberg e Niki Lauda foram os pilotos que conseguiram subir no degrau mais alto do pódio. Já em número de pódios, Niki Lauda está sozinho na liderança, com 3, seguido de John Watson e Alain Prost com 2.

Entre os pilotos da casa, doze participaram de corridas da F1 em Dijon, com o país conseguindo duas vitórias, com Jabouille e Prost. O tetracampeão ainda conseguiria mais um pódio, com Patrick Tambay e René Arnoux também tendo a honra de celebrar o resultado da corrida com champanhe.

Pódio do GP da França de 1984, que teve a vitória de Niki Lauda (centro) e com Patrick Tambay (à esquerda) representando a França do pódio. Mansell completou os três primeiros. – Foto: reprodução.

Entre os brasileiros, apenas três pilotos correram em Dijon: Emerson Fittipaldi, Nelson Piquet e Ayrton Senna, com Piquet tendo o melhor resultado entre os três, ao chegar em 3º na corrida de 1981. 

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Denise Vilche

Uma revista antiga sobre carros fez nascer uma paixão: a F1. Uma menina curiosa de oito anos queria saber quem eram aqueles tais de Senna, Piquet, Mansell e cia. que a revista mostrava em gráficos coloridos. E mais de 30 anos depois, essa menina, agora jornalista, continua mais apaixonada pela F1 do que nunca.

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