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Por que as equipes de Fórmula 1 não liberam a produção de seus merchans no Brasil? 

Opiniões de uma especialista em marketing que passou recentemente por um processo de licenciamento de marca

Com uma nova temporada começando, as equipes também renovam suas coleções de camisa, bonés, chaveiros e outros itens de merchandising. A desvalorização do real frente ao dólar e a outras moedas joga o preço dos produtos para a estratosfera e nos faz questionar por que as equipes de Fórmula 1 não liberam a produção de seus merchans no Brasil? 

Obviamente, as equipes de Fórmula 1 não possuem fábricas de camisas e bonés, elas terceirizam a produção desses itens para outras empresas e trabalham com duas formas de distribuição: 

  1. As equipes recebem os itens produzidos em suas sedes e são diretamente responsáveis pela venda e pela distribuição
  2. As equipes permitem que outras empresas controlem toda a cadeia de produção, vendas e logística 

Esse segundo exemplo se chama licenciamento de marca. Independente da forma de comercialização, a produção dos merchans está espalhada por diversos países. Seguindo a lógica, as equipes poderiam licenciar suas marcas no Brasil, correto? Correto! Mas então, por que isso não acontece?

O PROCESSO DE LICENCIAMENTO DE MARCA 

Ano passado, trabalhei em uma empresa que passou pelo processo de licenciamento da marca daquele rato famoso. Desde o pedido inicial até a assinatura do contrato, foram mais de 10 meses de uma série de adequações às regras impostas por uma das marcas mais famosas do mundo.

Isso porque eles querem que a empresa parceira tenha o mesmo padrão de excelência oferecido pela marca. Ou seja, se você quer vender a marca do rato, você tem que ser perfeito como eles.

Boné da McLaren com o número de Daniel Ricciardo. USD 41,40. Cotação em 01/03/2021: R$ 231,36.

Para ficar melhor de explicar, vou usar o processo da marca do rato e adaptar a uma equipe de F1 que você vai tentar licenciar, ok? Let it go! 

Quando você envia uma solicitação de licenciamento, a equipe vai te pedir uma série de documentos para provar que você tem capacidade para atender o nível de qualidade que eles estabelecem. E isso envolve simplesmente todos os setores da empresa.

A marca avalia aspectos como finanças, parceiros logísticos, reputação no mercado, estrutura física, cultura organizacional, entre outros. O que estiver em desacordo, vai ter que entrar nos trilhos para que a sua empresa seja como um braço operacional da marca principal. 

Eles querem saber da sua saúde financeira para ter certeza de que você paga fornecedores, funcionários e impostos em dia, se você tem um caixa robusto para manter a parceria pelo tempo estabelecido no contrato e também se você tem reservas para cobrir eventuais emergências.

Ao analisar seus parceiros logísticos, eles investigam se as transportadoras que você utiliza são empresas confiáveis que entregam no prazo e sem avarias, se a cobertura é grande suficiente para atender todo o mercado, se essa transportadora também é bem vista no mercado e que tipo de assistência eles oferecem quando algo dá errado.

Sem falar nos fornecedores da matéria-prima e do produto em si. Eles possuem padrões mínimos da linha utilizada, até o tempo de produção de uma peça. É o ponto de maior atenção, se eles não aprovarem, nada feito. 

A sua reputação no mercado é fundamental. Imagina se uma marca como a Ferrari associaria seu nome a uma empresa acusada de explorar seus funcionários, de sonegação fiscal ou de ter práticas racistas, por exemplo. Sem chance.

Em relação à estrutura física, a marca pode estabelecer critérios que vão desde a estrutura do prédio onde sua empresa está estabelecida até a sinalização das saídas de emergência. Isso passando pelo tamanho do lugar, fiação elétrica, extintores de incêndio e rede de esgoto.

Com essas informações, eles vão verificar se você realmente possui a capacidade de produção que você diz ter, até porque suas condições físicas também afetam o armazenamento tanto de matéria-prima como o de produtos acabados. Marca nenhuma vai correr o risco de deixar seus produtos em locais que apresentem o risco de danificar o que vai ser entregue para o consumidor final.

As marcas podem analisar sua empresa tão profundamente a ponto de entrevistar seus funcionários para saber se você lidera um ambiente de trabalho saudável, que possui práticas modernas de gestão de pessoas incluindo processos bem estruturados de promoção. A escolha é feita de forma aleatória e abrange pessoas de diversos departamentos. O objetivo é descobrir se a sua empresa não está sob o risco de sofrer um processo trabalhista por danos morais, por exemplo. 

Camiseta oficial da Aston Martin 2021. USD 71,00. Cotação em 01/03/2021: R$ 396,77

A MARCA PODE IR ALÉM

Além de analisar o que já existe, a marca também pode exigir que você inicie atividades para ficar totalmente de acordo com o sistema de gestão adotado por ela. Por exemplo, programas de segurança no trabalho, responsabilidade ambiental e inclusão social. Assim, a marca se certifica que sua empresa está culturalmente alinhada com ela.

Você pode até pensar que é “frescura”, mas pense bem: o que aconteceria com a marca se você arrumasse um problema que afetasse a reputação dela?

Imagine que a fábrica de uma terceirizada que produz as camisas da Ferrari pegou fogo por problemas na fiação elétrica e estava com a vistoria dos bombeiros atrasada ou que a fiscalização encontrou pessoas trabalhando 16 horas por dia em um ambiente não ventilado e sem direito à alimentação. Para o grande público, o problema não é da terceirizada, é da Ferrari. E as marcas não querem correr esse risco. 

O OUTRO LADO

E como vocês podem imaginar, todo esse processo de adequação é trabalhoso e pode custar muito caro. Quanto mais distante você está do patamar das marcas, mais dinheiro você vai ter que gastar para chegar nele. O retorno financeiro pode compensar, mas o investimento pode ser tão alto que não vale a pena espera-lo chegar. 

Aí entra o lado das empresas locais. Uma coisa é reestruturar sua empresa para colocar a imagem de princesas nos seus produtos que vão vender como água em qualquer lugar para qualquer público. Outra coisa é investir uma grana alta para atingir um público de nicho que está tão espalhado que os custos de entrega para o consumidor são quase iguais aos do produto, fazendo com que ele desista da compra. E se a empresa não vende, não tem como recuperar o investimento e acaba no prejuízo.

Não é uma decisão fácil. Precisa de muito estudo para avaliar a viabilidade financeira do negócio, para os dois lados. Enquanto isso, o jeito é continuar comprando produtos importados correndo o risco de ser taxado com um imposto absurdo. 

Para amenizar um pouco a situação, vai a dica de ouro da Denise Vilche (Contos da F1 e F1 Templo): sempre compre em dólar. Quando você compra em outra moeda, sua operadora de cartão faz conversão dessa moeda para dólar e depois, do dólar para o real. Duas conversões significam duas taxas e você acaba pagando mais. Fica a dica.

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Cinthia Venâncio

Cearense que acompanha Fórmula 1 desde que se entende por gente. Faz aniversário no mesmo dia do Damon Hill.

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