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✍️ ENTREVISTA com Stoffel Vandoorne

Piloto da Mercedes-Benz EQ Formula E Team falou com exclusividade ao Boletim do Paddock sobre como é estar nos dois principais braços esportivos da marca

Stoffel Vandoorne nasceu em Courtrai, na Bélgica. Aos 28 anos de idade, o piloto se encaminha a sua terceira temporada na Fórmula E com a equipe Mercedes. Nesta entrevista exclusiva, ele fala sobre a importância da categoria para a sua carreira e a transição da Fórmula 1 para os carros elétricos.

Apesar de ser piloto oficial da Fórmula E, Stoffel tem conseguido se manter caminhando entre os dois mundos, isso porque ele, desde fevereiro deste ano, ele também ocupa o cargo de piloto reserva da Mercedes na Fórmula 1. Além de todos esses assuntos, Vandoorne também refletiu sobre os dois anos em que esteve na McLaren e sua evolução de lá para cá.

Boletim do Paddock: Quando você entrou na Fórmula E, você vinha de um ano muito ruim na Mclaren e também teve um ano difícil com a HWA, como você manteve a cabeça no lugar para encarar a segunda temporada?

Stoffel Vandoorne: Em primeiro lugar, vir para a Fórmula E depois da Fórmula 1 foi algo que revigorou a minha carreira, algo que gostei muito de ter feito, mesmo que, como você disse, a primeira temporada tenha sido difícil, desafiadora. Mas eu diria que era esperado que fosse difícil, pois a HWA era completamente nova, o time não tinha experiência, nós éramos uma equipe cliente e todo mundo precisava aprender como aquilo funcionava. Então eu diria que era esperado ser difícil.

E para mim também, pois durante toda a minha carreira rumo à Fórmula 1, as coisas eram bem parecidas umas com as outras e na Fórmula E é bem diferente em termos de pilotagem, gerenciamento de energia e mais outras coisas. Por isso, também era algo esperado, mas eu sempre estive muito motivado e procurei empurrar a equipe também. 

E acho que conseguimos bons resultados como a pole em Hong Kong (temporada 5), fizemos pódio em Roma e outras boas conquistas. Diria que no geral foi um primeiro ano bem sucedido e isso me deu muita confiança para a temporada seguinte com a Mercedes porque seria nosso primeiro ano como 100% construtores, com mais pessoas na equipe e mais recursos também, mais desenvolvimento por trás de toda aquela estrutura. 

No primeiro ano nós construímos as fundações para o segundo, e nós fomos muito melhores na performance geral com o conjunto que tínhamos. Conseguimos bons pódios no início, com pole e vitória no final, então foi um ótimo fim de ano.

BP: Como foi a transição da HWA para a Mercedes? Olhando daqui de fora, nós tínhamos a percepção de que você executou um papel de liderança nesse processo, mas como ativamente você participou dele?

SV: Globalmente, tudo é muito parecido com a HWA, engenheiros, mecânicos… Eram basicamente as mesmas pessoas da temporada passada, com quem já tínhamos construído um relacionamento no primeiro ano. Então, nas coisas operacionais, foi bem fácil para mim. Mas tinha um outro lado completamente novo. Em primeiro lugar, marketing e mídia e também um lado mais técnico das pessoas que construíram o trem de força da Mercedes, engenheiros, mecânicos, isso era novo.

E foi assim porque foi nosso primeiro ano desenvolvendo nos próprio equipamento e o software também, então ficamos bem ocupados. Realmente tínhamos muito para fazer e havia muito mais pessoas envolvidas porque era tudo feito por nós, sistemas, peças… ao contrário do primeiro ano em que nós recebíamos o trem de força, enquanto equipe cliente, agora nós estávamos produzindo tudo. O que nos dá muita liberdade e oportunidades para o futuro, mas ao mesmo tempo, deixa a nossa vida bem mais cheia de afazeres.

E eu estou muito feliz por tudo isso, acho que estou em um ótimo lugar, com uma equipe que posso ajudar a crescer desde o começo. Estou feliz por ter contribuído para o sucesso que tivemos até agora e espero que possamos levar esse momentum adiante para lutar por campeonatos. Se tudo der certo, estaremos nessa posição em breve.

BP: Como você avalia o primeiro ano da Mercedes como Mercedes na Fórmula E?

SV: Diria que foi um ótimo ano, provavelmente acima das nossas expectativas. Nós tínhamos uma linha base e nas duas primeiras corridas mostramos bom desempenho. Ainda em Diriyah conseguimos dois pódios consecutivos. Mas a Fórmula E é muito imprevisível, depois tivemos resultados mais complicados, mas sempre estive bem confiante que quando você junta tudo, você faz um bom trabalho. Então você consegue pódio e pode lutar por vitórias.

Acho que o primeiro ano foi ótimo, considerando todo o conjunto. A competição é muito forte e algumas equipes foram melhores que nós em alguns momentos, como a Techeetah por exemplo. Eles fizeram uma temporada dominante e esse é o nosso próximo alvo, chegar nesse nível de consistência. Eles estabeleceram esse referencial para todas as equipes e nós somos bem ambiciosos, então queremos atingir isso e acho que podemos fazer. Quando conseguirmos, será um resultado muito satisfatório, com certeza.

Stoffel Vandoorne durante o festival de Berlim – Foto: Mercedes/Daimler

BP: Você agora é um dos pilotos reserva da Mercedes F1 – parabéns por isso. Como é sua rotina? O que você faz?

SV: Bom, claro que não estou correndo agora porque a Fórmula E está de recesso, então estou viajando com a Fórmula 1 e minha rotina tem sido bem cheia. São muitas viagens e tenho testes da Fórmula E também entre as corridas, mesmo não estando na pista, tenho muito trabalho no simulador para as duas equipes.

E como não tem corridas pela Fórmula E, estou aproveitando para treinar e melhorar meu condicionamento  físico. O intervalo é bem grande [até a próxima temporada], é uma oportunidade para treinar e relaxar um pouco.

BP: Isso era exatamente o que eu ia te perguntar, como você gerencia esse trabalho com a Mercedes na Fórmula E? Acho que por enquanto as coisas estão tranquilas porque a temporada da FE acabou…

SV: Estar com a mesma equipe nas duas categorias me ajuda bastante, eles me dão muito suporte para organizar minha rotina. A Marlene [assessora de imprensa da Mercedes que estava conosco durante a entrevista] sabe que nem sempre é fácil conciliar as duas coisas para manter todos felizes, mas ela me ajuda a gerenciar tudo. Às vezes o time da F1 precisa de mim no simulador e o time da FE precisa de mim para coisas de marketing, de relações públicas, minha rotina é bem cheia, sabe?

Tem os testes e as outras coisas, mas temos conseguido gerenciar bem. É muito bom estar envolvido nos dois lados, para ser sincero. De um lado eu posso ver como funciona um time de Fórmula 1 que foi seis vezes campeão, no qual posso me inspirar e levar isso para o outro lado. Posso traduzir isso, o jeito de trabalhar, para o time da FE, quem sabe conseguiremos o mesmo nível de domínio.

Stoffel Vandoorne – Foto Daimler

BP: Você está na Rússia agora, você tem ido para todas as corridas da F1 desde que a temporada começou? Exceto quando você estava em Berlim, claro.

SV: Sim, sim. Estive em todas as corridas desde que a temporada começou, exceto as duas em Silverstone, pois estava disputando a final da Fórmula E em Berlim.

BP: Você foi um piloto oficial na F1 por um time que estava passando por uma fase difícil e agora é piloto reserva de uma equipe tem sido muito melhor que as outras. Como é isso para você? Quais os prós e contras dessa situação?

SV: Na verdade, é bem legal ver as diferenças entre o modo de trabalho da Mercedes e como a McLaren trabalhava na época, embora as circunstâncias sejam completamente diferentes. Quando eu estava na McLaren, acredito que as coisas eram difíceis, o time estava passando por uma crise, não tinha exatamente uma estrutura administrativa e você sabe que o carro não era bom, havia problemas políticos… Eles precisavam de uma reorganização completa para fazer a equipe funcionar bem novamente e acho que eles entenderam isso porque estão conseguindo se recuperar, têm apresentados bons resultados e têm dado bons passos para frente. Parece que eles estão voltando para o caminho certo agora.

E eu estou em uma das equipes mais dominantes da história da Fórmula 1, estou com a Mercedes, e como eu disse agora a pouco, é ótimo ver como eles trabalham, a mentalidade que eles têm. É realmente algo em que eu me inspiro e tento implementar no time da Fórmula E porque é isso o necessário para ser uma equipe forte e dominante. 

Claro que eu sempre quero correr, quero estar no carro, no momento sou piloto reserva, isso faz parte do trabalho.

Stoffel Vandoorne durante o festival de Berlim - Foto: Mercedes/Daimler
Stoffel Vandoorne durante o festival de Berlim – Foto: Mercedes/Daimler

BP: Voltando para a Fórmula E, como falamos antes, seu primeiro ano foi bem desafiador, mas você terminou sua segunda temporada no segundo lugar do campeonato. Podemos esperar você e a Mercedes na luta concreta pelo campeonato ano que vem ou ainda é cedo, por ser a terceira temporada da equipe?

SV: Bom, teremos que esperar e ver. Definitivamente quero estar na luta pelo campeonato. Terminar em segundo no campeonato foi um pouco inesperado, eu diria, porque foi uma temporada muito estranha, do jeito que as coisas aconteceram. Apenas o Antonio sendo consistente e quem estava atrás tinha pontos altos, mas os baixos eram bem baixos. 

E para disputar o campeonato é isso que preciso melhorar e a equipe também, precisamos ter constantemente boas performances no nível mais alto. E então teremos a real oportunidade de lutar pelo campeonato.

Mas temos que esperar, ver como nosso novo carro vai se sair. Obviamente depois de terminar em segundo, você quer lutar pelo primeiro lugar. Realisticamente, para lutar pela primeira posição ou estarmos no top 3, temos que aproveitar os resultados da última temporada que, de novo, foram uma ótima base. Temos que construir coisas a partir deles e tenho certeza que será um sucesso.

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Cinthia Venâncio

Cearense que acompanha Fórmula 1 desde que se entende por gente. Faz aniversário no mesmo dia do Damon Hill.

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