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Contos de verão: quem ganhou e quem perdeu no Festival de Berlim [Parte 2]

Estar entre os primeiros colocados na classificação final não necessariamente significa ter tido uma temporada fácil. Os líderes da tabela também enfrentaram momentos difíceis com quebras, acidentes e punições. 

Quem melhor soube contornar todos os “acidentes de percurso” foi a Techeetah, mas nem ela esteve imune aos problemas. O bicampeão, Jean-Eric Vergne, demorou a deslanchar no campeonato e se não fosse o super-ano de Antonio Félix da Costa, o time comandado por Mark Preston, provavelmente, não teria sido campeão com duas corridas de antecedência. 

A inconstância dos adversários da Techeetah deram à equipe a vantagem de 77 pontos no final. A princípio, a principal ameaça do time dos carros dourados era a BMW, mas os americo-germânicos despencaram na tabela, sendo ultrapassados até pela Virgin. 

Quem cresceu mesmo foram Nissan e Mercedes que abocanharam os outros dois lugares no top 3 e conseguiram vitórias inéditas.

AUDI

René Rast, Audi Sport ABT - Foto: Fórmula E
René Rast, Audi Sport ABT – Foto: Fórmula E

A Audi teve um ano turbulento que se refletiu em Berlim. Lucas di Grassi teve dificuldades durante quase todas as corridas e principalmente durante o Quali. Por estar sempre no grupo 1, Lucas encontrou a pista ainda “crua” e não pode atingir a melhor volta. Na vez que avançou à Super Pole, ainda ficou sem marcar tempo, sem falar do incidente com Jean-Eric Vergne logo na primeira corrida. 

Apesar dos contratempos, di Grassi conseguiu se superar. O pódio na segunda corrida o deixou em segundo lugar no campeonato, na briga direta pelo título de vice-campeão, mas as inconsistências do carro e das condições de prova, levaram o piloto ao 7º lugar geral – pela primeira vez na Fórmula E, o brasileiro ficou fora do top 3 na tabela final.

E di Grassi ainda viu um novo adversário surgir: o novato companheiro de equipe. Rene Rast mostrou mais consistência em ritmo de corrida que Daniel Abt e pode representar uma ameaça interna para Lucas, caso permaneça na Audi.

Rast foi uma grata surpresa para a Audi – talvez nem tão surpresa assim, já que o piloto é bicampeão do DTM e corre pela marca há um tempo. O décimo lugar na primeira corrida pode não ter parecido muito, mas o próprio Allan McNish (team principal da equipe) já havia dito que o piloto teria uma fase de adaptação ao carro. 

Os resultados da adaptação vieram nas duas últimas provas. Duas idas para a Super Pole, a primeira delas como direito ao primeiro tempo na fase de grupos, um terceiro e um quarto lugar. No total, Rast somou 29 pontos. Para se ter uma ideia, Daniel Abt fez apenas 8 enquanto esteve com a Audi esse ano. 

Aparentemente a equipe fez uma boa escolha, mas será que dois bons resultados garantem uma vaga para a próxima temporada?

BMW

Maximilian Günther, BMW I Andretti Motorsports - Foto: Fórmula E
Maximilian Günther, BMW I Andretti Motorsports – Foto: Fórmula E

Se pudéssemos dar um adjetivo para a performance da BMW em Berlim seria “trágico”. A equipe mostrou mais uma vez que é fortíssima no começo da temporada, mas se perde na fase final e não consegue fazer frente às adversárias. 

Ok, Max Günther venceu a terceira corrida e aliviou um pouco o fardo carregado pela equipe, mas o alemão não pontuou em mais nenhuma outra prova em sua terra natal e ainda cometeu erros graves, como o acidente que causou ao atingir a traseira do carro de Oliver Turvey. 

O desempenho de Alexander Sims foi ainda pior, apenas três pontos em seis corridas. O piloto já anunciou que está de casa nova no ano que vem, o destino é a Mahindra, que não teve um bom retrospecto nos últimos anos. Talvez a troca não tenha sido muito vantajosa.

Qualis ruins e punições levaram a BMW de segunda colocada no campeonato ao quinto lugar no final. Mesmo com os vacilos de Berlim, Max Günther impressionou a equipe com o desempenho da primeira parte da temporada e já confirmou que ele tem vaga garantida para o próximo ano. Seu companheiro de equipe ainda não foi anunciado. É bem provável que algum piloto de fábrica vindo das outras categorias que a BMW disputa. 

Será que ele conseguirá fazer a equipe começar no topo e se manter por lá?

VIRGIN

Sam Bird, Envision Virgin Racing, Audi e-tron - Foto: Fórmula E
Sam Bird, Envision Virgin Racing – Foto: Fórmula E

Se ano passado Robin Frijns superou Sam Bird com grande vantagem, este ano as coisas azedaram para o holandês, principalmente na primeira parte da temporada. No entanto, com o anúncio da saída de Sam Bird e da chegada de Nick Cassidy para o ano que vem, Frijns pareceu ter colocado as coisas no lugar em Berlim. 

O holandês andou constantemente na frente de Sam Bird e conseguiu dois terceiros lugares. Terminou em 12º no campeonato, duas posições atrás e cinco pontos a menos que o companheiro de equipe. Uma ótima recuperação na fase final. 

Sam Bird se despediu da equipe com resultados modestos, mas mesmo sem pódios, o inglês mostrou que pode sim ser combativo, não à toa, ele marcou a volta mais rápida da última corrida. A experiência de Bird estará à disposição da Jaguar ano que vem, a nova equipe já sabe o que esperar do “little man” que agora é o único piloto a vencer pelo menos uma prova por temporada.

Para a Virgin, a palavra de ordem é a mesma de quase todo o grid: consistência. Quem quer conquistar campeonatos tem que marcar o máximo de pontos possível, o revezamento de pilotos na zona de pontuação tem que ficar para trás.

MERCEDES

Stoffel Vandoorne, Mercedes Benz EQ, EQ - Foto: Fórmula E
Stoffel Vandoorne, Mercedes Benz EQ, EQ – Foto: Fórmula E

A estreia da Mercedes na Fórmula E gerou grande expectativa na categoria. O domínio da marca na Fórmula 1 encheu a cabeça de todos com muitos questionamentos. Será que teríamos a Mercedes ganhando tudo em outra categoria? A resposta veio ainda durante a temporada: não, obrigada. 

Chegar e dominar a Fórmula E era um objetivo muito ousado, mas a Mercedes é uma marca conhecida pela excelência de seus serviços e, portanto, não seria surpreendente se eles conseguissem se destacar na competição de carros elétricos. 

Mesmo assim, o resultado geral da equipe foi bem positivo. Os alemães começaram e terminaram a temporada no pódio e, apesar dos problemas nas primeiras corridas em Berlim, Stoffel Vandoorne ajudou a equipe a chegar o mais longe que podia. A dobradinha conquistada na última corrida deu o vice-campeonato ao belga e o terceiro lugar dos construtores para o time. Um ótimo encerramento, com certeza.

Nyck de Vries fez o que se espera que um jovem novato faça: marcou pontos preciosos para a equipe e cometeu alguns erros. O desempenho dele em Berlim foi realmente muito bom, deve ter recebido um bom “sacode” durante a paralisação e voltou muito mais focado. Pontuou em três das seis corridas, foi piloto raiz ao empurrar o carro sozinho para uma área segura quando ele apagou durante a corrida dois, liderou treinos livres e não quebrou a garrafa de champanhe na comemoração do pódio (tudo bom, Stoffel?). 

Quando entrevistei Ian James, perguntei sobre a dupla de pilotos para o ano que vem e ele respondeu que só poderia falar sobre este ano. Será que hoje a resposta é outra se eu perguntar de novo?

NISSAN

Sébastien Buemi, Nissan e.Dams - Foto: Fórmula E
Sébastien Buemi, Nissan e.Dams – Foto: Fórmula E

Acho que a Nissan é um dos exemplos mais perfeitos que podemos utilizar para falar sobre a importância da consistência em Berlim. A equipe foi uma das que mais conseguiu marcar pontos com os dois pilotos. E mesmo com Buemi tendo um começo de temporada difícil, sua experiência contou muito nos momentos decisivos. 

O suíço não venceu este ano, mas foi ao pódio duas vezes em Berlim e contribuiu significativamente para o vice-campeonato de construtores com a pontuação conquistada em cinco das seis corridas. A parceria entre ele e a Nissan não deve ser desfeita tão cedo, a equipe parece ter encontrado o equilíbrio certo entre experiência e juventude. 

Isso porque Oliver Rowland também fez um ótimo trabalho em Berlim, o britânico pontuou em quatro provas e conquistou sua primeira vitória largando da pole e fazendo a volta mais rápida. Se mantiver esse desempenho, Rowland deve garantir seu futuro na equipe. Com as principais vagas já preenchidas, não há muitas opções de upgrade para o piloto e a Nissan não deve ter preocupações com a dupla de pilotos por um bom tempo. 

TECHEETAH

Jean-Eric Vergne da DS Techeetah e Antonio Félix da Costa - Foto: Fórmula E
Jean-Eric Vergne da DS Techeetah e Antonio Félix da Costa – Foto: Fórmula E

Campeã incontestável, porém não isenta de problemas. Mesmo os impressionantes resultados obtidos pela Techeetah estão abertos a questionamentos. Principalmente os que foram trazidos por Jean-Eric Vergne. 

A expectativa sobre Vergne era óbvia, como atual bicampeão da categoria, ele era o homem a ser batido. Contudo, difícil começo de temporada colocou o francês em uma posição complicada pela disputa do título. A recuperação tardia o levou à briga pelo título de vice-campeão, mas ele acabou mesmo ficando com o 3º lugar geral, um ponto a menos que o 2º colocado, Stoffel Vandoorne.

É importante dizer que os dois pódios seguidos de JEV em Berlim foram cruciais para a conquista do título de construtores por antecipação e que a maior parte dos problemas enfrentados pelo francês durante o campeonato foram relativos ao carro, não necessariamente à pilotagem. Mas a temporada 2019/20 da Fórmula E servirá com um grande aprendizado para Vergne “aprender a perder”, como ele mesmo assumiu.

Querendo ou não, o brilho de Vergne foi ofuscado pela estrela da garagem ao lado. Antonio Félix da Costa teve uma temporada quase perfeita, foram seis pódios (três vitórias) em 11 corridas e apenas duas delas sem pontuar. Em Berlim, deixou sua superioridade clara logo nas duas primeiras corridas e conquistou o título de campeão com duas provas de antecedência. 

Grande nome da temporada, Da Costa vai aproveitar o bom momento enquanto pode, ele mesmo admitiu que sabe que a boa fase não vai durar para sempre. 

A Techeetah agora se preocupa em repetir o ótimo desempenho e defender seus títulos. O problema para o ano que será: o que fazer quando seus dois leões começaram a lutar de igual para igual?

 

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Cinthia Venâncio

Cearense que acompanha Fórmula 1 desde que se entende por gente. Faz aniversário no mesmo dia do Damon Hill.

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