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Lella Lombardi: uma lenda feminina na história da Fórmula 1

Conheça a trajetória de Lella Lombardi, a pioneira que desafiou os limites do automobilismo em uma época dominada por homens.

Na história da Fórmula 1, 857 pessoas se inscreveram para participar de alguma prova da categoria em qualquer uma das quase 1.000 corridas realizadas pelo calendário da modalidade até o momento em que escrevo este artigo. Destes indivíduos, apenas 339 conseguiram concluir na zona de pontos pelo menos uma vez na carreira.

Dos 857 indivíduos que entraram em um carro de Fórmula 1 em busca de uma participação em grande prêmio ao longo destes anos todos, apenas cinco representaram o sexo feminino nas pistas. Delas, apenas duas conseguiram se classificar e largar em uma etapa do Campeonato Mundial. Das duas, Maria Tereza de Filipis se esforçou bastante, mas não conseguiu terminar uma prova oficial na zona de pontuação. Já a nossa personagem do dia foi o típico caso de estar no lugar certo e na hora certa.

Lella Lombardi foi a mulher mais bem-sucedida dentro da F1 (ESPN UK)

Maria Grazia Lombardi nasceu na comunidade de Frugarolo, na região do Piemonte italiano em 26 de março de 1941, numa família cujo sustento vinha do pai açougueiro. Desde a tenra infância, a jovem Lella demonstrou ser competitiva e gostava de praticar esportes, mas a entrada do automobilismo veio de forma acidental (ou não).

A história é tratada como uma lenda, mas o que se conta é que a garota se machucou em um jogo de beisebol com os amigos quando tinha apenas quatro anos de idade e precisou ser socorrida. O conto lembra que ela foi levada para o hospital por um cidadão que andava em um Alfa Romeo azul. O motorista pisou fundo pelas ruas da cidadezinha italiana e isso despertou na menina um desejo incontrolável de correr e acelerar.

Desde então, Lella passou a fuçar nas coisas da casa e a desmontar coisas como a máquina de costura da mãe para montar carros. Aos nove anos, ela já dava voltas com o Fiat Topolino do pai e aos 13 já circulava pelas ruas do município piemontês a bordo de algum veículo.

A família, tradicionalista que era, não curtia muito essa ideia e nem a sociedade de Frugarolo, que também tinha uma visão bem crítica da postura da garota. Em outras palavras, eles tinham ainda aquela visão que mulher não poderia guiar um carro, e ainda mais participar de corridas. Até o padre da cidade foi até a família Lombardi e falou para Lella dedicar a passatempos tidos como femininos. A garota até disse que abandonaria o seu hobby, mas na prática, ignorou completamente aquela ordem.

Lella entendeu que não adiantaria muito ficar andando de carro em uma pequena vila no norte da Itália e que precisava de algo mais para seguir carreira no automobilismo. Aos 25 anos, ela começou como navegadora em provas de ralis, mas o piloto que ela assessorava não era lá grande coisa, e então ambos trocaram de lugar. E não é que na primeira corrida em que assumiu a função de pilota, a jovem Lombardi venceu a corrida?

Entre o final dos anos 1960 e começo dos 1970, a italiana competiu em várias categorias pela Europa e pelas Américas, com sucesso em território mexicano, onde acumulou vitórias e títulos, como a Fórmula Ford do país dos Astecas. Então Lella passou a se dedicar mais aos monopostos, participando de provas da Fórmula 5000 nos Estados Unidos, competindo com nomes como Mario Andretti, James Hunt, Al Unser e Johnny Rutherford.

Competindo com feras, a moça chamou a atenção dos olheiros da Europa. Daí veio o convite para participar de uma prova de Fórmula 1. Após um hiato de 16 anos, uma mulher voltava a participar de um evento da categoria, desde a empreitada de Maria Tereza de Filipis.

A estreia no insólito Brabham com número 208 (Continental Circus)

A prova em questão foi o GP da Inglaterra de 1974, em Silverstone. Lella guiaria um Brabham BT42 da equipe Alled Polymer Group patrocinada pela Rádio Luxembourg, uma emissora de rádio popular na em território britânico. Como o canal era sintonizado no 208 FM, a pilota correria com o carro 208, o maior numeral colocado em carro na Fórmula 1. Apesar da grande publicidade e do frisson pela presença feminina no grid, Lombardi não conseguiu a classificação.

Em 1975, enfim, uma chance mais aprazível. Com o apoio dos Cafés Lavazza, Lella Lombardi competiria pela March por boa parte da temporada de 1975. Na primeira corrida, em Kyalami (África do Sul), o carro parou após 23 voltas com problemas na bomba de combustível. No entanto, a corrida seguinte acabou sendo marcante.

O GP da Espanha, realizado em 27 de abril de 1975, no circuito citadino de Montjuic, na região de Barcelona, causava a preocupação de muitos pilotos dadas as condições precárias de segurança da pista. O bicampeão da categoria, Emerson Fittipaldi, se recusou a correr por esta razão. A corrida foi muito acidentada e muitos pilotos foram ficando pelo caminho, mas o acontecimento da volta 25 foi determinante para uma série de ocorrências históricas na F1.

O alemão Rolf Stommelen liderava a prova com o seu Hill-Ford, seguido pela Brabham de José Carlos Pace. De repente, a asa traseira do germânico se soltou e voou em direção às arquibancadas. O bólido desgovernado bateu no guard-rail e no carro do brasileiro. Stommelen teve fraturas nas pernas, costela e punho, porém não foi o único a se machucar.

Várias pessoas foram atingidas pelos destroços do carro de Stommelen. Cinco pessoas, sendo três torcedores, um fiscal de pista e um fotógrafo, morreram em decorrência do desastre, além de outros onze espectadores feridos. A corrida, inacreditavelmente, seguiu por mais três voltas, mesmo com serviço da ambulância e dos bombeiros e com a pista suja. A prova só foi interrompida no giro 29 dos 75 previstos, para não voltar mais. Àquela altura não havia clima para mais nada. Contudo, um feito histórico se concretizou em meio à tragédia.

Lella literalmente sobreviveu ao caos em Montjuic (Globoesporte.com)

Voltando à nossa protagonista, Lella largou na 24ª posição e escapou de todos os percalços ao longo da prova. Com o festival de problemas com os marmanjos à frente, a pilota sobreviveu àquela loucura e estava na sexta posição quando a prova foi interrompida. Conforme prevê o regulamento, como não foram completados três quartos da prova, apenas metade dos pontos foram distribuídos, assim, a pilota faturou meio pontinho.

Pode não parecer muito, mas este 0,5 ponto tem um valor importantíssimo. Afinal era a primeira vez que uma mulher chegou à zona de pontos em uma prova oficial da F1. Do ranking oficial de pontuação, a italiana é a última dos 339 pilotos que pontuaram na categoria. Entretanto, além de ser a única moça a pontuar em um campeonato, Lella Lombardi deixou para trás nada menos que 514 marmanjos que falharam no objetivo de pontuar em uma etapa da F1 (e nessa lista, temos vencedores da Indy, das 24 horas de Le Mans, da NASCAR, da Fórmula E, entre outras categorias). Não há dúvidas que é um feito monumental!

E Lella quase aumentou sua pontuação ainda em 1975. A italiana teve uma grande atuação no perigoso “inferno verde” de Nurburgring Nordscheife, mas acabou em sétimo (até lhe daria mais alguns pontos pelas regras atuais, mas esta não foi a realidade naquele 1975). A pilota realizou 11 provas pela March e mais uma pela Williams e fechou a temporada em 21º naquela temporada.

No ano de 1976, Lombardi ainda correu pela March em Interlagos, mas acabou preterida por Ronnie Peterson, recém-saído da Lotus. Sem vaga cativa no grid, Lella ainda se arranjou na equipe RAM, que usava chassis da Brabham. Ela não conseguiu se classificar em duas corridas e participou de uma terceira, terminando em 12º na Áustria. Após esta corrida, a RAM desistiu de seguir na F1 naquele momento, o que fechou as portas definitivamente para a italiana.

O ciclo na categoria de monopostos havia chegado ao fim, mas ainda havia muito mais coisa pela frente. Ainda em 1976, Lella teve o resultado mais expressivo nas 24 horas de Le Mans, ao chegar em 2ª na classe GTP (O que seria uma espécie de GTE-Pro na época) e 20ª no geral, ao lado da francesa Christine Docremont, com ambas a bordo de um Lancia Stratos com motor Ferrari.

Em 1977, a italiana cruzou o Atlântico para correr uma prova da NASCAR, participando de uma empreitada feminina junto com a americana Janet Guthrie e a belga Christine Becker. A corrida em questão foi a Firecracker 400, a segunda prova anual de Daytona, geralmente realizada na semana da independência dos Estados Unidos. Lella competiu com Chevy da equipe de Charles Dean e foi classificada na 31ª posição.

A carreira no endurance foi bem movimentada e com resultados expressivos (La Stampa)

No mesmo ano, Lella terminou na melhor classificação geral dentro das 24 horas de Le Mans. Em companhia da mesma Christine Becker, foi 11ª na classificação geral e 4ª na classe S +2.0 com um Inaltera-Ford.

Dedicando sua carreira no Endurance, a italiana teve grandes momentos no ano de 1979. Foram duas vitórias em provas do Campeonato Mundial de Endurance, sendo ambas em corridas na Bota: as 6 horas de Pegursa e as 6 horas de Vallelunga.

Nos anos 1980, Lella se dedicou às competições de turismo, tendo resultados regulares em competições europeias, especialmente tendo o apoio da Alfa Romeo (inclusive a italiana participou de duas provas da DTM em 1984, pela montadora de Milão).

A partir de 1985, Lella começou a deixar a carreira de pilota e passou a atuar como dirigente de equipe em competições de turismo na Europa. Contudo, neste mesmo período, ela passou a relatar dores na região da mama. Infelizmente era um tumor e isso abreviou os seus planos.

A pilota passou a se concentrar no tratamento da doença e passou os últimos anos de vida em Milão. No dia 3 de março de 1992, faltando 20 dias para completar 51 anos, Lella Lombardi acabou falecendo em decorrência do câncer.

Depois de sua partida, o legado de Lella passou a ser exaltado com mais firmeza. Em sua cidade natal, Frugarolo, a mesma garota que foi criticada por querer andar de carro recebeu um busto pela persistência e pela luta nas pistas, enfim recebendo um reconhecimento pela obstinação e pela paixão pela velocidade.

Já dentro do universo automobilístico, podemos ver uma participação cada vez mais incisiva das mulheres na pista e fora dela. Ainda há muito trabalho pela frente, mas a participação feminina mais marcante faz parte dos frutos germinados pela semente plantada por aquele meio ponto da Espanha. Pode não parecer muito, mas foi uma prova clara aquilo que as leitoras e leitores do Boletim do Paddock sabem muito bem: lugar de mulher é no esporte a motor!

Fontes: Continental Circus, Bandeira Verde, Grande Prêmio, Globoesporte.com, Stats F1, Motorsport Magazine

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