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SÉRIE CIRCUITOS DA F1: Jacarepaguá

Sem planejamento, o circuito acabou sendo demolido, enterrando anos de história do automobilismo brasileiro

O Estado do Rio de Janeiro já recebia corridas desde 1909, quando aconteceu a corrida no Circuito de São Gonçalo. Com a popularização dos carros, as corridas começaram a ficar mais frequentes. Em 1925, foi a vez da capital receber uma corrida, durante a 1ª Exposição Automobilística do Rio de Janeiro, que aconteceu no Morro do Castelo. 

Corrida realizada no Rio de Janeiro em 1925, como parte da 1ª Exposição Automobilística. – Foto: reprodução

O Morro da Viúva foi outro local popular para a realização de corridas, que aconteciam nas ruas e sem qualquer tipo de segurança. 

Outra prova importante foi o GP do Rio de Janeiro, no Circuito da Gávea, disputada entre 1933 e 1954, com um breve pausa durante a Segunda Guerra Mundial e que contou com o aval da FIA e a participação de diversas estrelas do automobilismo mundial. A corrida acabou sendo proibida, já que com o crescimento da cidade, a segurança ficou comprometida. O traçado, com suas 93 curvas e muitos trechos perigosos, ficou conhecido como Trampolim do Diabo e dava uma noção do que os pilotos enfrentavam. 

As curvas perigosas do “Trampolim do Diabo” e o crescimento urbano foram demais para os pilotos e a corrida foi proibida. – Foto: reprodução

As corridas continuaram acontecendo em diversos pontos da cidade, mas por conta do perigo, chegava a hora de se ter um circuito permanente. Usando um terreno de uma  empresa falida, nasceu o Autódromo Nova Caledônia, na região da Barra da Tijuca, mas que na época era distante do resto da cidade e pouco habitada. 

O autódromo foi desenhado por Ayrton “Lolô” Cornelsen, que mais tarde desenharia os traçados de Estoril e Luanda e faria parte de um complexo turístico, que incluiria hotéis, cassinos e uma marina. A construção começou em 1965 e  o autódromo foi inaugurado em 1967. 

O autódromo de Nova Caledônia era parte de um luxuoso complexo que seria construído. Apenas a pista saiu do papel e o autódromo logo foi remodelado para receber a F1. – Foto: reprodução

De tudo o que o projeto previa, apenas o autódromo saiu do papel, já que logo após o fim das obras, o governo carioca se apropriou das terras vizinhas para construir o bairro da Barra da Tijuca, deixando o restante do projeto sem espaço para ser construído. 

O circuito continuou funcionando, recebendo corridas domésticas, até que começou a se pensar em receber etapas internacionais, principalmente a F1, que já corria na América do Norte e estava em negociação com a Argentina, o que traria a categoria para a América do Sul. 

Para se manter nos padrões exigidos na época, a cidade precisava de um circuito à altura e em 1970, o autódromo foi fechado para dar lugar às obras da nova pista. A instabilidade política acabou paralisando a construção, o que deu a São Paulo a chance de receber uma corrida não-oficial da F1 em 1972 e a partir daí, receber a categoria de forma definitiva em Interlagos.

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Mesmo perdendo a corrida para a cidade rival, as obras continuaram no Rio e o novo circuito ficou pronto no final de 1977. 

Traçado de Jacarepaguá, que foi usado desde sua inauguração até 1994. – Foto: reprodução

O esforço não foi em vão e no dia 29 de janeiro de 1978, Jacarepaguá recebeu o GP do Brasil pela primeira vez. O argentino Carlos Reutemann venceu a corrida, mas os brasileiros puderam fazer a festa com Emerson Fittipaldi, que chegou em segundo pilotando o carro de sua própria equipe, a Copersucar. Esse também foi o primeiro dos três pódios da equipe brasileira, antes de encerrar as operações em 1982, quando já tinha trocado de nome e se tornado Fittipaldi.

Fittipaldi celebra pódio na corrida inaugural de Jacarepaguá ao lado de Carlos Reutemann e Niki Lauda. – Foto: reprodução

A corrida voltou para Interlagos em 1979, mas a mudança foi por pouco tempo. Em 1981, não só a corrida no Rio marcou o início da temporada como o circuito carioca foi palco dos testes de pré-temporada de muitas equipes. Na volta da F1 a Jacarepaguá, Carlos Reutemann foi o destaque, vencendo novamente a corrida. No ano seguinte, a torcida brasileira teve um breve momento de alegria, com a vitória de Nelson Piquet. A alegria foi substituída por frustração quando o piloto foi desclassificado junto com Keke Rosberg, dando a vitória para Alain Prost, a primeira das cinco do francês nesse circuito.

Depois de cruzar a linha de chegada em primeiro, Piquet passou mal e desmaiou no pódio. Desclassificado, a vitória caiu nas mãos de Prost. – Foto: reprodução

Em 1983, Piquet finalmente se sagraria vencedor e ainda venceria a corrida de 1986, fazendo dobradinha com Senna, que estreou na F1 justamente no circuito carioca dois anos antes e até então somava dois abandonos na etapa brasileira. Em 1987, o autódromo foi renomeado para Autódromo Internacional Nelson Piquet, em homenagem ao piloto carioca que acabara de conquistar seu terceiro título. 

Para delírio do público, Piquet e Senna fazem dobradinha na corrida de 1986 e exibem a bandeira brasileira no pódio. – Foto: reprodução

Com a reforma de Interlagos terminada, a F1 voltou à capital paulista em 1990. A última corrida no Rio aconteceu em 1989, com a vitória de Nigel Mansell e com a presença brasileira no pódio, com Maurício Gugelmin conquistando seu primeiro e único pódio na categoria.

Maurício Gugelmin celebra seu primeiro e único pódio na F1, na despedida da categoria em solo carioca. A vitória ficou com Nigel Mansell. – Foto: reprodução

A corrida também ficou marcada por uma polêmica, causada pelo acidente de Philippe Streiffe durante um teste privado antes do início da temporada. Depois de capotar sua AGS, o santantônio ficou destruído e o piloto sofreu lesões no pescoço e fraturas nas vértebras C4 e C5. A pista de cerca de 5 km tinha somente quatro fiscais espalhados pelo autódromo e que não estavam treinados para o resgate de pilotos, retirando o francês do carro sem qualquer imobilização para a coluna ou pescoço. A ambulância levou trinta minutos para chegar ao local do acidente e o helicóptero que levaria o piloto para hospital era de São Paulo e não conhecia os pontos de pouso no Rio de Janeiro, atrasando ainda mais o atendimento ao piloto. Streiffe acabou sendo transferido para a França após a primeira cirurgia, o que foi desaconselhado pelos médicos brasileiros, que afirmam que o piloto ainda não estava paralisado quando deixou o país. O francês acabou ficando tetraplégico e culpa o mal atendimento na pista carioca por sua condição. 

Destroços do carro de Streiffe, depois do acidente sofrido pelo francês durante os treinos, que o deixou tetraplégico. – Foto: reprodução

Sem a F1, Jacarepaguá passou a mirar na crescente categoria da CART Champ Car, que contava com vários brasileiros no grid. O único problema era a pista. A CART tinha um acordo com a FIA de só utilizar pistas ovais fora dos Estados Unidos, coisa que o circuito carioca não tinha. O jeito foi construir uma dentro do próprio circuito. A reta oposta acabou de tornando a reta principal do novo traçado, que ficou com um aspecto mais de trapézio do que de oval.

Para receber a CART, o autódromo teve que se adaptar e construir um circuito oval para receber a categoria. – Foto: reprodução

Por conta das obras, a pista principal teve que sofrer alterações nas curvas Carlos Pace e na que dava acesso à reta oposta.

Criação do traçado oval acabou afetando a pista principal, com a mudança na curva Carlos Pace. – Foto: reprodução

O circuito oval foi batizado de Emerson Fittipaldi Speedway e outro membro da família honrou o sobrenome famoso. Christian Fittipaldi é o dono de marca de volta mais rápida no circuito, com o tempo de 38.565 e uma velocidade média de 174 mph, marcada em 1999.

A primeira corrida da CART aconteceu em 1996 e foi vencida pelo brasileiro André Ribeiro. O único problema do “oval” carioca eram as freadas fortes nas curvas, algo que não era comum em circuitos ovais. Quem aprendeu da pior maneira foi Mark Blundell, que com uma falha nos freios, bateu forte e saiu da pista com uma concussão e um pé quebrado.

André Ribeiro comemora vitória na CART, na estreia da categoria em solo carioca.
Durante esse período, a pista principal não ficou abandonada, recebendo a MotoGP entre 1995 e 2004, sendo Valentino Rossi o maior vencedor na pista. – Foto: reprodução

Sem muitas corridas e com os bairros ao redor crescendo, o circuito se viu em perigo. A ameaça se tornou realidade em 2005, quando uma parte do circuito foi demolida para a construção de um complexo esportivo para os jogos Pan-Americanos de 2007, com apenas uma parte do circuito original sendo mantida e a pista sendo reduzida para 2,69 km. 

Para dar espaço para as obras do Pan, parte do circuito foi destruído, deixando apenas metade do traçado original. – Foto: reprodução

Em 2008, foi autorizada a demolição completa do autódromo para a construção das instalações para as Olimpíadas de 2016. Um plano de um traçado parte fixo, parte temporário foi feito por Hermann Tilke, mas não foi para frente, com o projetista usando o mesmo conceito no local dos Jogos de Inverno em Sochi, na Rússia. 

Apesar de semidemolido, a pista ainda continuou a ser usada pela Stock Car, que usou parte do circuito oval e parte do traçado original entre 2006 e 2012, com a pista ficando com 3,336 km de extensão. 

A Stock Car reaproveitou parte dos dois traçados para continuar correndo, enquanto que parte do traçado foi destruído. – Foto: reprodução

A demolição do autódromo já estava praticamente decretada no ano de 2010, quando um pequeno rearranjo foi feito aproveitando uma das curvas do oval

Com as Olimpíadas aprovadas para 2016, o resto do circuito foi demolido para a construção do Parque Olímpico em 2012, acabando assim com a história de 45 anos do circuito.

O Autódromo foi destruído para dar lugar à Vila Olímpica, durante os Jogos Olímpicos de 2016. – : reprodução

As dez corridas realizadas no autódromo tiveram quatro vencedores diferentes. Alain Prost é o maior vencedor, com cinco vitórias. Carlos Reutemann e Nelson Piquet aparecem empatados em segundo, com duas vitórias cada um, com Piquet sendo o único brasileiro a vencer na pista. Nigel Mansell completa o time de vencedores, com apenas uma conquista em terras cariocas. Já em número de pódios, Prost continua na frente, com 6, seguido de Piquet, com 4. Mais três brasileiros aparecem nessa lista, com Ayrton Senna, Maurício Gugelmin e Emerson Fittipaldi conquistando um pódio cada, com Fittipaldi conseguindo seu pódio a bordo da Copersucar, equipe brasileira fundada pelo bicampeão junto com seu irmão Wilson. Outros dois brasileiros também correram em Jacarepaguá. Chico Serra teve um 9º lugar em 1983 como melhor resultado na pista carioca, enquanto que Raul Boesel não conseguiu completar as duas corridas que disputou. 

 

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Denise Vilche

Uma revista antiga sobre carros fez nascer uma paixão: a F1. Uma menina curiosa de oito anos queria saber quem eram aqueles tais de Senna, Piquet, Mansell e cia. que a revista mostrava em gráficos coloridos. E mais de 30 anos depois, essa menina, agora jornalista, continua mais apaixonada pela F1 do que nunca.

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