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SÉRIE CIRCUITOS DA F1: Charade

Primeiro circuito de montanha, a pista de Clermont-Ferrand lutou para não ter o mesmo destino de outros circuitos franceses

Ficha técnica

Nome do circuito: Circuito de Charade

Comprimento da pista: 8,055 km (1972)

Número de voltas: 38

Distância total: 306,090 km

Recorde da pista: 2:53.900, Chris Amon (1972)

Primeira corrida na F1: 1965

Conhecido também como Clermont-Ferrand, a história do circuito de Charade começa no final da Segunda Guerra Mundial. O presidente da Association Sportive de l’Automobile Club d’Auvergne, Jean Auchatraire, tinha planos para fazer uma corrida para comemorar os 50 anos da última edição da Copa Gordon Bennett, que foi disputada na região em 1905. O problema estava na pista, já que os 137 km de traçado usados naquela época não estavam nos padrões utilizados nos anos 1950.

Traçado usado na Copa Gordon Bennett, que tinha 137 km de extensão e não servia para os padrões modernos. – Foto: reprodução

Uma nova pista temporária, que tinha 6,154 km, foi montada próximo ao aeroporto da cidade de Clermont-Ferrand. A corrida comemorativa seria o Rallye des Villes d’eaux e estava tudo certo para acontecer no dia 10 de julho de 1955, até que um mês antes, o desastre de Le Mans, que matou mais de 80 espectadores, acabou com as chances de qualquer corrida ser disputada naquele ano, já que as todas as corridas em território francês foram suspensas até que as condições de segurança nos circuitos fossem atualizadas.

Traçado que seria utilizado em 1955, se a corrida não tivesse sido cancelada. – Foto: IGN

Esse atraso não abalou os organizadores, que buscaram um novo local para a corrida. Clermont-Ferrand tinha duas pistas em uso pelas competições de motociclismo, o circuito de Salins, com 1,915 km e o circuito de Landais, com 1,7 km, mas pelo tamanho dos traçados, não se encaixavam nas regras para o automobilismo.

Localização dos circuitos em Clermont-Ferrand. – Foto: IGN

Passando pela cidade, o piloto Louis Rosier percebeu que as estradas Puy de Gravenoire e Puy de Charade, que circulavam um vulcão inativo, davam uma boa pista de corrida. Com a ideia em mãos, Auchatraire se juntou com Toto Roche, diretor do circuito de Reims, para criar o novo circuito.

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Porém, a localização tinha um problema, era apertada demais para se criar toda a estrutura que um circuito necessita. A ideia inicial era passar por dentro das cidades de Thèdes e Maison, mas Roche logo alertou das dificuldades que o novo projeto teria por conta das regulamentações. A solução foi criar estradas do lado de fora da cidade, cortando caminho até chegar em Charade. Com isso, havia espaço suficiente para montar os boxes e toda a estrutura do paddock.

As obras começaram em 1957, com a adaptação das estradas ao redor de Puy de Gravenoire e Puy de Charade e a construção de todas as instalações, que além dos boxes, ainda incluíam uma torre de controle e uma pequena arquibancada.

Em vermelho, o primeiro traçado utilizado no circuito. Em verde, a parte que integraria o novo traçado, feito em 1989. – Foto: reprodução

No dia 27 de julho de 1958, o circuito foi oficialmente inaugurado pela esposa do prefeito de Puy-de-Dôme, Marie-Paule Pérony.

A esposa do prefeito de Puy-de-Dôme, Marie-Paule Pérony, corta a fita de inauguração do Circuito de Charade Louis Rosier. – Foto: reprodução

Cerca de 60 mil pessoas foram assistir a primeira corrida no Circuito de Charade Louis Rosier, com a disputa de uma corrida de endurance da GT, que durou três horas. A prova foi vencida por Innes Ireland.

Innes Ireland (ao centro), foi o primeiro vencedor do circuito. – Foto: reprodução

Também foi realizada uma corrida de F2, vencida por Maurice Trintignant pilotando uma Cooper.

O francês Maurice Trintignant é cumprimentado após a vitória na prova de F2 disputada na inauguração do circuito. – Foto: reprodução

O traçado inicial tinha 8,055 km e era um verdadeiro desafio para os pilotos. Com 48 curvas, muitos competidores corriam com capacetes abertos para poder vomitar durante as provas. Por também ter sido construído em uma região de floresta, logo o circuito foi chamado de versão francesa do ‘Inferno Verde’, como era conhecido o circuito de Nurburgring Nordschleife, na Alemanha.

Como a pista estava rodeada de árvores e tinha muitas curvas, logo foi comparada com Nurburgring. – Foto: reprodução

E apesar de ter idealizado a pista, Louis Rosier não conseguiu ver seu projeto pronto, falecendo em um acidente em outubro de 1956, com o circuito recebendo seu nome como forma de homenagem. 

Retrato do piloto Louis Rosier é colocado na pista. Idealizador do traçado, Rosier faleceu antes de ver seu projeto sair do papel. – Foto: reprodução

Em 1959, o circuito recebeu uma etapa do GP da França de Motociclismo, prova vencida por John Surtees e uma etapa da F2, vencida por Stirling Moss. Essa corrida foi marcada pelo acidente do piloto Ivor Bueb, que foi jogado para fora de sua Cooper-Borgward ao bater na Gravenoir. Bueb faleceu no hospital seis dias depois do acidente. As motos competiram no circuito até 1974, enquanto a F1 estava alterando suas etapas francesas entre os circuitos de Reims e Rouen. Enquanto isso, o circuito realizava o Trophée d’Auvergne e também recebia corridas da F2 e de GT.

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Foi apenas no dia 27 de junho de 1965 que Charade conseguiu finalmente sediar uma corrida de F1. A corrida foi vencida por Jim Clark, com Graham Hill e Jackie Stewart completando um pódio todo inglês.

Jim Clark (carro nº 6) dispara na largada e vence a corrida de 1965 com direito a um Grand Chelem. -Foto: reprodução

No ano seguinte, o diretor John Frankenheimer aproveitou para gravar algumas cenas do lendário filme Grand Prix.

Ainda alternando com outros circuitos, Clermont-Ferrand ainda recebeu a F1 em mais três ocasiões. Na corrida de 1969, o circuito fez uma alteração na área do pit lane, que foi separada da pista por uma barreira.

Largada em 1965, quando os boxes ainda não estavam separados da pista. – Foto: reprodução
Carros se preparam para a largada no grid em 1969, que agora é separado da área dos boxes por uma barreira de proteção. – Foto: reprodução

A corrida foi vencida por Jackie Stewart, com a Matra, e entrou para a história. Foi a primeira vitória de uma equipe francesa correndo em casa e ainda fazendo dobradinha com o piloto francês Jean-Pierre Beltoise.

Jackie Stewart comemora a vitória no GP da França de 1969, dando à equipe Matra a primeira vitória de uma equipe francesa em casa. – Foto: reprodução.

Depois disso, a F1 correu em 1970 e em 1972, prova que teria sido vencida por Chris Amon se o piloto não tivesse sofrido com um furo no pneu, algo comum nessa pista, já que as rochas vulcânicas que ficavam na beira da pista frequentemente acabavam sendo levadas pelos pilotos para dentro da pista. Uma dessas pedras foi arremessada pelo carro de Emerson Fittipaldi e acertou a viseira de Helmut Marko. Perdendo o olho esquerdo, sua carreira como piloto acabou e Marko se tornou mais tarde o responsável pelo programa de jovens pilotos da equipe Red Bull.

As pedras que ficavam na beira da pista acabavam sendo arremessadas pelos carros quando eles passavam dos limites da pista. Uma delas acertou a viseira de Helmut Marko, que perdeu o olho esquerdo no acidente e teve que abandonar a carreira de piloto. – Foto: reprodução

A vitória da última corrida de F1 no circuito acabou nas mãos de Jackie Stewart.

 

O circuito bem que tentou se manter como anfitrião da etapa francesa, mas a chegada de circuitos mais modernos como o de Paul Ricard tirou a corrida de Clermont-Ferrand. Sem desistir, a pista continuou recebendo corridas, como o Trophées d’Auvergne, mas as competições internacionais se recusavam a correr na pista, receosas por conta do perigo do circuito. O receio se mostrou certeiro quando, em 1980, em um acidente durante uma etapa da French Cup R5 Elf, dois pilotos colidiram em uma curva e seus carros capotaram, passando por cima da barreira e acertando os fiscais que estavam no local. Marc Rochard e Bernard Costa morreram na hora, enquanto Lionel Roussel faleceu três semanas depois. Sem ter lugar para construir áreas de escape na parte da montanha, o traçado foi fechado para corridas em 1988.

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Diferentemente do que aconteceu com Reims e Rouen, que foram desativados ou demolidos, Clermont-Ferrand foi salvo pelo Conselho Geral de Puy-de-Dôme, que via no circuito uma forma de aquecer a economia local e financiou a construção de um circuito novo onde ficava a parte baixa da pista anterior. Em 1989, o novo circuito de Charade, com 3,975 km de extensão, foi inaugurado com direito a festa com presença de Juan Manuel Fangio, Stirling Moss e Jack Brabham.

Novo traçado de Charade, que reaproveitou a parte inferior do circuito anterior. – Foto: reprodução
Vista aérea do novo traçado de Charade. – Foto: reprodução

Sem muito espaço, as instalações do novo circuito eram modestas para os padrões das novas pistas que estavam surgindo, o que dificultaria receber etapas internacionais, mas a pista fez sucesso dentro da cena automobilística francesa. Em 2000, começaram os trabalhos para transformar o circuito em permanente, fechando as ruas para o público. Com isso, foi possível construir uma nova área de boxes e aumentar o pit lane, com o circuito sendo reaberto em setembro de 2001. Já a parte da montanha continuou como estrada pública e pode ser acessada por todos.

Apesar da reforma, a estrutura do circuito permaneceu modesta para os padrões dos circuitos que hoje recebem a F1. – Foto: reprodução

Das quatro corridas disputadas, Jackie Stewart venceu duas, com Jim Clark e Jochen Rindt vencendo as outras. Já em número de pódios, Jackie Stewart lidera com 3, seguido de Chris Amon, com dois.

Entre os pilotos franceses, não havia nenhum piloto da casa na estreia da F1 no circuito. Em 1969, apenas Jean-Pierre Beltoise representou o país, conseguindo o 2º lugar.

O francês Jean-Pierre Beltoise participou de 3 das 4 corridas disputadas em Charade, chegando em 2º na etapa de 1969. – Foto: reprodução

O piloto teve a companhia de Henri Pescarolo e François Cevert na corrida do ano seguinte. Cevert, Beltoise e Patrick Depailler, que fazia sua estreia na categoria, foram os pilotos franceses presentes na pista na derradeira corrida da F1 em Charade.

O Brasil só teve representantes na corrida de 1972, com os irmãos Emerson e Wilson Fittipaldi e Carlos Pace, com Emerson conseguindo o melhor resultado, ao chegar em 2º.

 

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Denise Vilche

Uma revista antiga sobre carros fez nascer uma paixão: a F1. Uma menina curiosa de oito anos queria saber quem eram aqueles tais de Senna, Piquet, Mansell e cia. que a revista mostrava em gráficos coloridos. E mais de 30 anos depois, essa menina, agora jornalista, continua mais apaixonada pela F1 do que nunca.

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