Crônicas de Sochi

Ter duas garagens diferentes comemorando no sábado e no domingo é um claro indicativo de uma temporada clássica. Como se a batalha aberta pelo campeonato entre dois multicampeões mundiais já não fosse suficiente, um novo personagem resolveu dar as caras e colocar ainda mais fogo nessa briga. Calando críticas, Valtteri Bottas assumiu a liderança na primeira curva e controlou a prova com autoridade, mantendo a calma durante o duro ataque de Vettel e se colocando em posição para entrar na disputa pelo título mundial.

Fonte: Ferrarimoldova.org

Assim como em Shakir, as surpresas já começaram no sábado. O domínio ferrarista de sexta se confirmou no Qualifying, e os cavalos rampantes fecharam a primeira fila do grid, fato inédito desde o GP da França de 2008. A título de curiosidade, na ultima ocasião em que a primeira fila foi vermelha, Vettel sequer tinha ganhado uma corrida, a Toyota existia, patrocínios de empresas de cigarro eram permitidos, a Red Bull andava no meio do pelotão, a McLaren era uma potência e Max Verstappen tinha 11 anos. Essa quebra de paradigma abriu os olhos dos cabeças de gasolina, especialmente porque o circuito de Sochi era considerado como um terreno dominado pelas flechas de prata. Dito isso, o papel de coadjuvante da equipe alemã era surpreendente e animador não só para os torcedores, como também para a briga no campeonato de pilotos.

Entretanto, todos os cenários e conjunturas foram para o espaço após três curvas de corrida. O lado limpo e o vácuo provaram-se extremamente vantajosos mais uma vez, e Valtteri Bottas conseguiu saltar ambas as Ferraris com facilidade, se estabelecendo na liderança em uma pista que já o proporcionou diversos triunfos nos tempos de Williams. A partir daí, a perseguição começou e a estratégia seria um elemento crucial para o resultado da prova. Ao contrário do Bahrein, Valtteri conseguiu abrir uma vantagem confortável para seus concorrentes, respondendo com segurança qualquer ameaça de aproximação. Enquanto isso, Hamilton brigava com sua Mercedes e o traçado de Sochi, perdendo cada vez mais contato com Kimi Raikkonen. No lado finlandês da garagem, Bottas fazia uma corrida perfeita até fritar os pneus dianteiros com cerca de 20 voltas para o fim, mesmo assim, soube lidar com a Ferrari de Sebastian Vettel crescendo cada vez mais em seus retrovisores e uma vibração terrível no volante para vencer seu primeiro GP da carreira após 82 largadas, tornando-se o 107º piloto a vencer uma prova, só o sétimo vencedor inédito desde que seu compatriota, Heikki Kovalainen foi 100º a conquistar o feito, no GP da Hungria de 2008. Com o resultado, Bottas ficou apenas 23 pontos atrás do líder, Sebastian Vettel, além de meros 10 atrás de seu companheiro de equipe. Evidentemente ainda é cedo para colocá-lo na discussão para a briga pelo título, mas é igualmente cedo demais para tirá-lo dessa batalha.

Fonte: Thisisf1.com

Enquanto o couro comia no pelotão dianteiro, a Red Bull enfrentava um final de semana irreconhecível, sendo sucessivamente superada pela Williams de Felipe Massa nos treinos. Na corrida, Daniel Ricciardo foi forçado a abandonar de forma melancólica após uma falha fatal nos freios com três voltas disputadas. Já Verstappen foi capaz de terminar o GP em uma respeitável 5ª posição, anos-luz atrás dos líderes mas sem ser ameaçado pelo resto do grid. No pelotão intermediário, a Force India saiu do final de semana com um sorriso de orelha a orelha mais uma vez. As duas panteras cor de rosa pontuaram pela 4ª vez em 4 etapas, contando com a sorte para somar 14 pontos em solo russo e quase dobrar sua pontuação nos construtores. Seus 31 pontos proporcionaram uma vantagem confortável ante os 18 da Williams, que poderia ter contado com mais uma pontuação sólida de Massa na 6ª posição, não fosse um furo de pneu que acabou com a prova do brasileiro. Já Stroll não só finalmente terminou um GP, como também bateu na trave da zona de pontuação, um final de semana tranquilo que pode ser determinante para o sucesso do canadense no futuro próximo. Pior para a Haas, que saiu de Sochi zerada e sem fazer muito barulho. Magnussen foi praticamente inofensivo e Grosjean obliterou Jolyon Palmer ainda na curva 1. O acidente foi apenas o golpe de misericórdia para encerrar mais um final de semana terrível do britânico. Palmer ficou pelo caminho no Q1 enquanto seu companheiro de equipe desbravou o Q3 no sábado, não obstante, Nico Hulkenberg garantiu mais 4 pontos para os franceses, provando a capacidade do bólido, seu braço e a ineficiência de seu parceiro de Renault, que se encaminha para uma temporada vergonhosa.

Fonte: F1fanatic.co.uk

No pelotão do Afeganistão, a McLaren segue sua saga tragicômica. Se por um lado Stoffel Vandoorne ao menos terminou a prova, inclusive à frente das discretas Saubers, Fernando Alonso sequer largou, enfrentando problemas ainda na volta de apresentação. O espanhol continua treinando sua paciência enquanto já faz testes com os monopostos da Indy, se preparando para o retiro espiritual em Indianápolis durante o GP de Mônaco.

Sochi já virou história, quebrando tabus e colocando novas caras nas brigas pela vitória no processo. Nossos olhares agora se voltam para Barcelona, trazendo seus inúmeros pacotes de atualização e novas intrigas para animar ainda mais essa temporada sensacional.

Fernando Brandão Campos

Brasiliense, podcaster, Team Pepsi, torcedor do Fluminense e de basicamente todos os times de Boston, além de ser dono de um talento sobrenatural para matar equipes de Fórmula 1 (basta perguntar para a Toyota, Lotus e Aston Martin, que sequer entrou mas provou do veneno). Seu habitat natural é o Twitter mas pode ser encontrado falando besteira em outros lugares também. Joga nas 11 com podcasts no Podcast F1 Brasil, vídeos no Boteco F1 e textos aqui no Boletim do Paddock, com direito a uma passadinha no Formula Legend e no Superlicense de vez nunca.

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