Raul Boesel: campeão nas pistas de corrida e de dança

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lll Série 365: Raul Boesel: campeão nas pistas de corrida e de dança – 02ª Temporada: dia 197 de 365

Raul Boesel: campeão nas pistas de corrida e de dança – Fonte: UOL

Na longa história de pilotos brasileiros que se aventuraram nas mais diversas categorias do automobilismo mundial, tivemos vários nomes que se destacaram de alguma forma, geralmente com uma marca positiva. Destes, houve quem teve trajetórias pouco ortodoxas, com rumos bem diferentes, mas deixando sua marca na história.

Talvez dentre estas histórias, a mais exótica é a de Raul de Mesquita Boesel. Nascido na mesma terra do nosso colega de BP, o doutor Carlos Eduardo Valesi, a gloriosa Curitiba, em 4 de dezembro de 1957, o paranaense tornou-se desde os tempos das categorias de base uma forte referência e uma aposta do futuro no automobilismo brasileiro.

Com resultados promissores, Boesel já foi um nome importante no esporte a motor do país e, com apenas 22 anos, já estava participando da primeira temporada da Stock Car, em 1979. Em um grid com nomes consagrados, o curitibano fez bonito e terminou a temporada em quarto.

Após a passagem pela Stock, Raul resolveu partir para voos mais altos. Em 1980, foi vice-campeão da Fórmula Ford inglesa, e no ano seguinte, terminou em terceiro no campeonato da Fórmula 3, também na Inglaterra. Com um desempenho notável na Terra da Rainha, as portas da Fórmula 1 se abriram.

Rápida ascensão até a F1, mas a temporada pela March foi difícil – Fonte: IG

Com o apoio da Indústria Brasileira de Café e da Embratur, Raul trazia o combustível financeiro que as equipes desejavam. O curitibano testou pela McLaren, mas para 1982, Boesel já estava com um lugar assegurado na categoria máxima do automobilismo, a bordo da March.

No entanto, o período na F1 foi deveras complicado. O piloto brasileiro ainda conquistou um nono lugar em Long Beach e um oitavo em Zolder (que até lhe dariam pontos se fosse nos últimos sistemas de pontuação), mas Raul teve um ano cheio de problemas, abandonos e não-classificações.

O momento mais lembrado daquele período (embora ofuscado pela tragédia causada pela morte de Riccardo Paletti no mesmo fim de semana) foi em uma peleja com Chico Serra em Montreal. O piloto da equipe Fittipaldi saiu irritado após ser bloqueado pelo rival em volta rápida. Na discussão, a dupla tupiniquim protagonizou cenas lamentáveis dentro dos boxes do circuito canadense.

Após uma dura temporada, Raul recebeu uma nova oportunidade, ao guiar pela Ligier, uma equipe com mais recursos e com mais expectativas. Porém, o bólido daquele ano, o excêntrico JS21 foi uma jabiraca de grandes proporções, com problemas aerodinâmicos e com um defasado motor Ford Cosworth DFV aspirado, numa era em que os motores turbo já dominavam as ações.

O brasileiro bem que tentou, chegou muito perto dos pontos com o sétimo lugar, novamente em Long Beach, mas nem Boesel, nem o francês Jean-Pierre Jarier conseguiram levar o carro azul aos pontos. Foi o primeiro ano em que a Ligier falhara em pontuar durante uma temporada inteira.

Boesel sofreu na Ligier – Fonte: Rodrigo Mattar

Depois da experiência frustrante na F1, Boesel cruzou o Atlântico e rumou para a Indy a partir de 1985. Foram dois anos pela equipe Dick Simon, onde teve como melhor resultado dois quintos lugares em dois dos ovais mais importantes da categoria: Michigan e Pocono.

Para 1987, Boesel quase acertou sua ida para a Newmann-Haas, porém teve seu nome vetado por Mario Andretti. Sem espaço em uma equipe de ponta, o brasileiro partiu para uma virada na carreira: Raul se ofereceu para realizar um teste para a Jaguar em Paul Ricard. Com o bom desempenho, o chefe de equipe, Tom Walkinshaw não pensou duas vezes em assinar com o curitibano para pilotar por sua escuderia na temporada do World Sportcar Championship.

Com a Jaguar, o grande momento nas pistas – Fonte: Rodrigo Mattar

Raul teria em mãos o Jaguar XRJ-8, bólido projetado pelo experiente engenheiro Tony Southgate, que já tinha trabalho na F1 em equipes como Lotus e BRM. O objetivo da equipe era acabar com o domínio da Porsche nas corridas de longa duração.

Desde o começo do campeonato, a Jaguar demonstrava que tinha carro para brigar com a Porsche. Raul se aproveitou do momento e conquistou duas vitórias nas quatro primeiras provas da temporada (uma em Jerez e outra em Silverstone). Contudo, a escuderia inglesa não conseguiu superar a Porsche nas 24 horas de Le Mans. Boesel teve problemas mecânicos e não foi além do quinto lugar naquela edição.

No entanto, o restante do campeonato foi de domínio da marca britânica. O brasileiro capitalizou muito bem o momento, e teve um desempenho avassalador nas provas de longa duração. Com três vitórias em sequência em Brands Hatch, Nurburgring e Spa-Francorchamps (somando cinco em 10 corridas na temporada), Raul Boesel tornou-se o terceiro brasileiro da história a sagrar-se campeão mundial de uma categoria chancelada pela FIA, feitos até então obtidos apenas por Emerson Fittipaldi e Nelson Piquet.

Raul no topo do mundo – Fonte: Rodrigo Mattar

Após o título no endurance, Boesel retornou aos Estados Unidos para tentar a sorte na Indy novamente. Durante dois anos correu pela Shierson Racing, onde mostrou um desempenho constante, mesmo não tendo um equipamento tão competitivo.

O melhor resultado ocorreu nas 500 milhas de Indianapolis, em 1989. Apesar de ter dificuldades com o carro, Raul sobreviveu na corrida e subiu de posições com os abandonos dos principais favoritos até alcançar o terceiro lugar, mesmo estando a seis voltas dos líderes. Aquele seria o melhor resultado de Boesel na Brickyard, e que quase se converteu em vitória quando houve o toque entre Emerson Fittipaldi e Al Unser Jr a duas voltas do fim.

No ano seguinte, Boesel competiu pela Truesports, mas sem resultados relevantes. Em 1991, Boesel deixou a Indy de lado e tentou a sorte em outras modalidades. O ponto alto daquele ano foi o retorno à Jaguar pelas 24 horas de Le Mans, aonde conquistou o segundo lugar geral, sendo superado apenas pela Mazda. O resultado é o melhor obtido por um piloto brasileiro na história de La Sarthe (marca igualada por Lucas di Grassi em 2014).

Uma nova chance na Indy, em 1992 – Fonte: Bandeira Verde

Após um período sabático, Raul retornou à Indy em 1992, novamente pela Dick Simon e mais precisamente nas 500 milhas de Indianapolis, para substituir o japonês Hiro Matsusita, que se lesionara em acidente durante os treinos. No seu retorno, Boesel terminou em sétimo, se garantindo na sequência do campeonato. De quebra, conquistou um segundo lugar na etapa seguinte, nas ruas de Detroit.

O ano de 1993 foi o melhor na sua trajetória na Indy. Boesel mostrou-se bastante competitivo ao longo do ano, conquistando três segundos lugares em Phoenix, Milwalkee e Detroit, e terminou o campeonato em quinto, sua melhor posição em uma temporada da CART. Entretanto, a sua atuação mais marcante foi novamente em Indianapolis.

Desde o começo dos treinos, o Lola-Ford do brasileiro sempre figurou entre os mais rápidos. Raul se classificou em terceiro e demonstrava muita confiança naquela corrida. Boesel começou muito forte e na primeira curva estava em primeiro. O paranaense dominou as primeiras voltas, mas a alegria durou pouco.

Após a primeira parada, Raul foi punido por uma ultrapassagem em bandeira amarela na saída dos boxes, cumprindo um stop-and-go e perdendo uma volta. Raul se recuperou e chegou a reassumir a ponta na volta 168, mas o brasileiro foi novamente punido por parar nos boxes com os pits fechados em uma bandeira amarela.

O piloto do dia na Indy 500 de 1993 Fonte: Open Wheel Racing Modeling

Boesel tentou a recuperação e terminou a prova em quarto. Porém, a sensação que ficou é que o brasileiro poderia ter ganho a corrida, ainda mais que os três primeiros colocados, Emerson Fittipaldi, Arie Luyendyk e Nigel Mansell, supostamente fizeram uma ultrapassagem em bandeira amarela antes da última relargada e não foram penalizados. Tanto Raul, como o seu chefe de equipe, Dick Simon, acreditam que foram prejudicados pela direção de prova.

Em 1994, Raul não teve o mesmo rendimento, mas teve boas atuações, obtendo um segundo lugar na etapa final em Laguna Seca. Bem verdade, a corrida em que esteve mais perto da vitória foi nas 500 milhas de Michigan, quando liderou boa parte da prova e tinha vantagem segura para os líderes, mas acabou tendo o motor estourado faltando 25 voltas para o fim.

Após uma passagem sem muito brilho pela Rahal-Hogan em 1995, Raul mudou-se para a Green em 1996, no primeiro ano após a cisão entre CART e IRL. A equipe tinha sido campeã com Jacques Villeneuve e contaria com o investimento da Brahma, que confiou em Raul para ser o garoto-propaganda da marca de cerveja nos States. Todavia, a temporada foi muito problemática, com o brasileiro tendo apenas um sétimo lugar como melhor resultado.

Nem o combustível financeiro da Brahma ajudou em 1996 – Fonte: F1 Corradi

No ano seguinte, Raul foi para a Patrick, levando o patrocínio da Brahma. Com uma temporada mais regular, Boesel teve uma grande atuação em Portland, numa corrida chuvosa e cheia de reviravoltas. Com um ritmo muito forte na parte final com os pneus slick, Raul chegou na reta dos boxes disputando a vitória com Gil de Ferran e Mark Blundell, mas o britânico levou a melhor, com o paranaense chegando em terceiro.

Com o fim dos investimentos da Brahma, Boesel deixou a CART e se dedicou à IRL nos anos seguintes. O feito mais notável foi em 2002, quando se classificou em terceiro nas 500 milhas de Indianapolis daquele ano, porém teve problemas e terminou apenas em 21º naquela edição.

Após encerrar seu ciclo nos Estados Unidos, Raul chegou a disputar algumas provas da Stock Car, até largar a carreira de piloto em 2006. O curitibano ainda fora homenageado com o Autódromo de Curitiba levando o seu nome desde 1987, o ano do seu título no mundial de Sportcars.

Além disso, Boesel adquiriu um legado importante fora do esporte a motor. Logo ao largar as pistas de corrida, Raul passou a comandar as pistas de dança, iniciando a carreira de DJ. Logo, tornou-se uma referência nacional no ramo da música eletrônica brasileira. Também participou do programa Aprendiz Celebridades, mas foi eliminado antes da final. Além disso, o curitibano é sócio de uma rede de fast food que vende coxinha nos Estados Unidos.

Em outras pistas, uma carreira bem-sucedida – Fonte: Itapema FM

Portanto, seja dentro ou fora do automobilismo, Raul Boesel construiu uma história bem diferente do rumo da maior parte dos pilotos, mas escreveu um capítulo bem importante no esporte a motor.

Fonte: Motorsport.com, Rodrigo Mattar e Wikipedia

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Eduardo Casola

Sou formado em jornalismo pela Uniso, torcedor do Corinthians e adoro esportes, especialmente automobilismo!