Quando a NASCAR salvou o público do marasmo (e consolidou sua maneira de ser)

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Você, caro leitor, está vendo a estreia de outra coluna voltada para o automobilismo dos Estados Unidos. Infelizmente, acabou não sendo da maneira como planejamos nesta página, pois devido à pandemia do Covid-19, praticamente todos os eventos esportivos e sociais foram suspensos e/ou adiados, como consequência da contaminação crescente pelo mundo afora.

O esporte a motor foi atingido diretamente com essa consequência, tornando-se inviável qualquer tentativa de se realizar qualquer competição para evitar qualquer tipo de aglomeração. Assim, até o começo de maio, no mínimo, não veremos provas da Indy, da NASCAR ou da IMSA nos Estados Unidos, assim como as modalidades que correm em outros rincões. Inclusive para os meios de comunicação, são muitas atrações e atividades que foram afetadas e causaram alterações, adiamentos e cancelamentos. Até para a equipe do Boletim do Paddock, os dias não estão fáceis.

O jeito é torcer para as coisas se resolverem em breve e que todo o problema se resolva o mais breve possível, principalmente em prol da saúde de todo mundo, em especial de você cabeça de gasolina que lê este artigo. Enfim, trago este texto para lhe dar uma distração nestes tempos de clausura.

Uma situação de clausura foi o que passou praticamente metade do território dos Estados Unidos, incluindo desde o Meio Oeste até a Costa Leste do país norte-americano no dia 18 de fevereiro de 1979. Naquele domingo, boa parte dos estadunidenses tiveram que ficar trancados em casa por conta de uma forte nevasca, que fechou as vias das cidades atingidas.

Sem poder sair e com muitos eventos esportivos no país afetados (partidas de basquete e hóquei foram adiadas) o jeito para boa parte das famílias americanas foi assistir a única modalidade de grande porte a ser exibida pela televisão era uma corrida da NASCAFR. Só que aquela não foi uma corrida da NASCAR apenas…

Os eventos daquela tarde de inverno nos Estados Unidos juntaram uma série de fatores determinantes para um fenômeno que mexeu com o esporte no país: a grande nevasca que afetou os States poupou a Flórida, onde fica o Daytona International Speedway. Assim, a edição de Daytona 500 daquele ano poderia acontecer… se não chovesse (já voltamos a falar disso)

A chuva não impediu o espetáculo em Daytona (ABC News)

Outro acontecimento importante daquele dia foi a transmissão da televisão para os Estados Unidos. Aquela foi a primeira prova automobilística a ser exibida ao vivo e na íntegra por uma emissora para todo o país. O canal de TV que teve os direitos para transmitir a prova foi a rede CBS, em uma negociação histórica com a NASCAR.

Para a sua primeira transmissão, a CBS preparou uma grande cobertura para a estrutura na época, com 12 câmeras, incluindo uma em um helicóptero, um próxima à pista, com o cinegrafista usando um capacete e uma câmera on board em um dos carros. Como naquele temo, as filmadoras em trambolhos bem pesados e afetavam o peso e o desempenho, muitos pilotos recusaram, com exceção de Benny Parsons, que levou as imagens de dentro do cokpit para as telas da TV.

Assim, os preparativos para um grande espetáculo exibido para os Estados Unidos. Entretanto, se na Flórida não há neve, a chuva resolveu ameaçar o espetáculo. O sábado que antecedeu a corrida foi muito chuvoso e houve dificuldades para a secagem da pista, já que não havia os caminhões com as turbinas de secagem mais modernas que surgiram bem depois. Por sorte, o tempo no dia da corrida estava seco e era possível realizar a prova se a pista estivesse totalmente seca.

Como a secagem estava demorada, a solução adotada pela NASCAR foi iniciar a prova em bandeira amarela enquanto a pista ficava em condições. Após 15 voltas, enfim, a bandeira verde foi acionada e os carros puderam acelerar sem problemas por mais de três horas, excetuando as outras seis bandeiras amarelas provocadas ao longo das 200 voltas.

A corrida foi bem disputada, com 36 trocas de liderança e muitas reviravoltas. Na parte final, as melhores estratégias foram de Donnie Allison, com um Oldsmobile número 1 na cor vermelha, e Cale Yarborough, com o Oldsmobile azul e branco número 11. Curiosamente, os dois se envolveram em um acidente no começo da prova, junto com o irmão de Donnie, Bobby Allison.

Após o último ciclo de parada nos boxes, Allison e Yarborough ficaram quase meia pista à frente da concorrência e disputou a vitória curva a curva. Allison, que liderou o maior número de voltas (93 das 300) abriu a última volta na ponta, com o seu oponente na cola.

Então veio o momento: Yarborough mergulhou para passar Allisson, mas Donnie tentou fechar a porta. Os dois carros se tocaram duas vezes e perderam o controle até irem de encontro ao muro. Com o abandono dos dois primeiros, havia a tensão de saber quem seria o líder, então surgiu o Rei.

Richard Petty, o maior vencedor da história da NASCAR, assumiu a ponta e segurou os ataques finais de Darrell Waltrip para vencer a sua sexta e última Daytona 500 na carreira. Enquanto o público o saudava e a equipe de Petty celebrava a vitória, montando no icônico carro 43 ao se dirigir para o Victory Lane, outra cena entrou para a história.

Após a chegada, Bobby Allison parou seu carro para levar o irmão de carona para os boxes, mas foi interpelado por um furioso Yarborough, que queria um acerto de contas depois dos acidentes. Cale acertou Bobby, que saiu do carro e revidou iniciando um combate com socos e capacitadas. O auge da confusão foi visto diante de mais de 15 milhões de pessoas em todo território dos Estados Unidos.

E a porrada rolou solta! (Fox News)

Não à toa, o desfecho da prova tornou-se assunto comentado pelas pessoas durante semanas. A primeira transmissão automobilística ao vivo nos States foi um sucesso estrondoso, embora a galera mais puritana tenha ficado chocada com a pancadaria do final e fez um auê danado na época. No entanto, uma marca havia se consolidado.

A NASCAR tinha exposto para o mundo o seu DNA. Obviamente, não são todas as provas da categoria que tem disputas tão acirradas, desfechos surpreendentes ou brigas carambolescas, mas o fato é que esta corrida marcou definitivamente a história do esporte a motor, mostrando ao mundo o seu melhor e o seu pior. No dia em que um país parou, a NASCAR mostrou todo o seu valor para entreter a população.

Fontes: Autoweek, Fox News e Wikipedia

Se quiser um programa para estes dias de marasmo, a NASCAR disponibilizou a transmissão completa da Daytona 500 de 1979 no Youtube. Acompanhe abaixo:

Eduardo Casola

Jornalista formado na Universidade de Sorocaba (Uniso) e apaixonado por esporte a motor desde quando se conhece por gente. Apenas um rapaz que gosta de uma boa corrida e de uma boa história!

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