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Guanyu Zhou realiza sonho e se emociona com resultado na estreia na F1

Zhou se tornou o primeiro piloto chinês a competir na categoria

Abraçado ao seu treinador, Guanyu Zhou não conseguia segurar as lágrimas. E não era para menos. Ao terminar em 10º lugar o Grande Prêmio do Bahrein, disputado no dia 20 de março de 2022, Zhou entrou para a história como o primeiro piloto chinês a disputar uma corrida de F1 e o 66º a pontuar em sua estreia na categoria.

Nascido em Shanghai no dia 30 de maio de 1999, sua paixão pelo automobilismo começou quando ele era criança e ficou ainda maior quando seu pai o levou a uma pista de kart indoor. A primeira impressão, no entanto, não foi boa. Andando em um kart de dois lugares, Zhou passou o tempo todo de olhos fechados por conta do medo. Encorajado por seu pai a dar uma volta sozinho, Zhou venceu o medo e se apaixonou, passando a competir profissionalmente.

Zhou se mudou com a família para a Inglaterra em 2012 e foi campeão do Super 1 National Championship, importante torneio de kart inglês, em 2013, além de ficar entre os três primeiros nos outros campeonatos que disputou naquele ano. 

Logo em seguida, Zhou começou sua carreira em monopostos, sendo vice-campeão na F4 italiana em 2015, como membro da Academia Ferrari de Pilotos. No ano seguinte, Zhou foi para a F3 Europeia e apesar de conquistar dois pódios, terminou o campeonato em 13º. Em 2017 e 2018, Zhou continuou na F3, dessa vez com a equipe Prema, terminando em 8º lugar nos dois anos, mesmo tendo conquistado mais pódios e vitórias do que nos anos anteriores. Nesse meio tempo, ainda disputou a ADAC F4 e a Toyota Series. Em 2019, o piloto entrou para a Academia de Pilotos da Renault, disputando a F2 pela UNI-Virtuosi, terminando em 7º. Nesse mesmo ano, Zhou teve a oportunidade que todo piloto sonha: pilotar um carro de F1. E sua primeira experiência se tornou ainda mais especial, já que Zhou pilotou o carro da Renault nas ruas de sua cidade natal, Shanghai, como parte da comemoração pela milésima corrida da F1, que ia ser disputada na China.

Zhou posa com a bandeira da China no circuito de Shanghai, depois de ter andado com um F1 pela primeira vez no dia anterior, em um evento pelas ruas da cidade chinesa. – Foto: reprodução

Em 2020, novamente na F2, Zhou acabou o campeonato em 6º, enquanto que seu companheiro de equipe, Callum Ilott, brigava com Mick Schumacher pelo título. 

No ano seguinte, Zhou foi companheiro de Felipe Drugovich e tinha um objetivo: brigar pelo título e mostrar que merecia chegar na F1. “Nós vimos no passado, pilotos terminando no Top 3 no campeonato da F2 e indo para a F1 no ano seguinte. É um campeonato de alto nível para mostrar seu potencial e brigar pelo título, e se eu conseguir fazer isso, eu acredito que tenho chance de subir de categoria.”

Só que o domínio de Oscar Piastri não deu chance para Zhou brigar pelo título, ficando com o 3º lugar, depois que uma boa recuperação de Robert Schwartzman na segunda metade do campeonato, deu ao piloto russo o 2º lugar. Zhou também foi campeão da F3 asiática, tentando acumular o máximo de pontos para sua superlicença, que só foi alcançada depois da temporada de 2021 da F2.

Zhou batalhou em 2021 pelo campeonato, mesmo terminando na 3ª posição – Foto: reprodução
YouTube F1: O piloto chinês, quem é Guanyu Zhou?

Visando chegar o mais preparado possível na F1, Zhou fez uma preparação intensa, ajudada pela Alpine, pela qual foi piloto de teste e que deu a ele a chance de participar de um treino livre em 2021, se tornando o segundo piloto chinês a participar de um fim de semana da F1, depois que Ma Qinghua participou de treinos livres entre 2012 e 2013. 

Mas as lágrimas depois da etapa no Bahrein não eram somente pelo feito histórico. Desde o começo de sua carreira, Zhou vem enfrentando xenofobia por ser chinês. E os ataques ficaram ainda mais intensos quando a Alfa Romeo anunciou Zhou como companheiro de Valtteri Bottas na equipe, enquanto que Piastri, que foi campeão da Fórmula Renault, F3 e F2 nos últimos três anos, ficou sem vaga na F1. Comentários de que Zhou era um piloto pagante e não merecedor da vaga na F1 surgiram aos montes nas redes sociais do piloto e da equipe. 

“Uma vez que eu assinei o contrato na temporada passada, por alguma razão as pessoas tiveram alguns pensamentos diferentes sobre eu estar na F1. Mas na minha cabeça, eu acho que eu fiz tudo o que eu podia para ter um assento na F1. Nessa temporada, eu queria chegar no Q2 para calar a boca deles”, declarou o piloto após conseguir avançar para o Q2 em sua primeira classificação. 

Na corrida, Zhou teve um problema com o sistema anti-stall logo na primeira curva e caiu para o fim do grid. Fazendo uma corrida de recuperação, Zhou logo estava atrás de seu companheiro de equipe e mostrou um bom ritmo para se aproveitar dos abandonos à sua frente e chegar em 10º lugar, marcando seu primeiro ponto na F1. Entre a corrida de recuperação e as paradas que foram necessárias para concluir a prova, em quase todas as voltas da prova ele realizou ultrapassagens. Negociou espaço na pista até mesmo com Lewis Hamilton. 

Zhou começou a temporada 2022 muito bem, além disso, a Alfa Romeo tem grandes chances de realizar um campeonato mais forte neste ano – Foto: reprodução Alfa Romeo

“A corrida foi tão intensa, não só fisicamente, mas mais pelo lado mental. Foi uma volta de desaceleração muito emocional. Significa tanto este primeiro ponto no campeonato, e também estar no Q2 ontem, porque quando eu assinei o contrato para correr na F1, tiveram muitos comentários por aí. Eu realmente preciso dizer que eu mereço de verdade estar na F1. Neste fim de semana, eu dei tudo o que eu tinha em mim e eu não podia pedir por uma melhor estreia.” 

Apesar de ter ido bem em sua estreia, Zhou já tem concorrência por seu assento na equipe suíça. A Sauber já está preparando o piloto francês Theo Pourchaire, de 18 anos, para assumir uma vaga na equipe. Com Bottas em um contrato de múltiplos anos, resta a Zhou brigar por sua sobrevivência na categoria. Certamente ele vai se esforçar para tentar garantir esse assento na categoria. 

E se depender do resultado de sua primeira corrida, o primeiro passo já foi dado.

 

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Denise Vilche

Uma revista antiga sobre carros fez nascer uma paixão: a F1. Uma menina curiosa de oito anos queria saber quem eram aqueles tais de Senna, Piquet, Mansell e cia. que a revista mostrava em gráficos coloridos. E mais de 30 anos depois, essa menina, agora jornalista, continua mais apaixonada pela F1 do que nunca.

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