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Entrevista: Max Wilson fala um pouco sobre como é ser piloto da Stock Car e comentarista

ll Por: Débora Santos Almeida

Max Wilson nasceu na Alemanha, mas veio para o Brasil com a sua família quando ainda tinha dois anos. Wilson é atual piloto da Stock Car, a principal categoria de automobilismo do Brasil, na equipe RCM. Como acontece com a maioria dos pilotos, a sua formação teve início no kart e à medida em que o tempo foi passando e ele se especializou, acabou disputando provas na Fórmula Ford, Fórmula Chevrolet e Fórmula 3 Sul-Americana. Sua carreira internacional iniciou em 1996 quando foi para a Europa na Fórmula 3 Alemã e no ano seguinte foi contratado como piloto de testes da equipe Williams de Fórmula 1. Wilson teve uma carreira longa V8 Supercars, campeonato australiano, onde permaneceu por 6 anos. O seu retorno para o Brasil só aconteceu em 2009 quando foi contratado pela Eurofarma RC, para disputar na Stock Car, obtendo a sua primeira vitória na 4ª quarta etapa. No ano seguinte consagrou-se campeão. 

Max falou um pouco como foi ser um piloto de testes na Fórmula 1 e sobre a sua carreira como comentarista no Sportv, nos anos de 2014 à 2018.

ll Pergunta: Como é ser o piloto de testes?

Max Wilson: Bom, o sentimento começa de uma maneira, mas aos poucos vai mudando, principalmente quando se trata de Fórmula 1. Eu fui convidado para ser piloto de testes da equipe Williams, por meio de uma seleção e ficamos eu e Juan Pablo Montoya. No começo você pensava “Eu fui contratado por uma equipe de Fórmula 1” e a gente acaba ficando muito empolgado para pilotar o carro em treinos e testes, mas a melhor parte da carreira de um piloto é competir. Você quer correr e como piloto de testes você não faz isso, a não ser que seja para cobrir o titular em eventualidades, caso o piloto se machuque ou tiver algum problema. Então chega um certo ponto em que acaba a diversão e pra mim foi se tornando um caminho frustrante.

O período na Fórmula 1, foi muito importante em questão de aprendizado e foi a realização de um sonho pilotar um carro da categoria, mas às vezes os caminhos acabam tomando outras formas, então foi uma experiência boa para fazer por um período de tempo, depois eu queria competir, mesmo que fosse em outras categorias, então preferi ser piloto na Indy a ficar como piloto de testes da F1.

ll P: Como você vê os pilotos de teste atualmente?

MW: Hoje em dia é uma situação muito complicada para os pilotos de testes. Na minha época, primeiro de tudo, a gente testava o carro de fato, então as equipes grandes de Fórmula 1 tinham uma equipe de pilotos que também tinham os mesmos carros que os pilotos oficiais, como se fosse uma cópia mesmo, então a gente treinava toda hora. No final dos anos 90, tínhamos mais ou menos 90 dias de testes, parecido com o que os pilotos titulares tinham. Hoje isso mudou muito, o piloto de hoje não testa muito, são meia dúzia de dias na pré-temporada e mais alguns no meio do ano, eles passam mais tempo no simulador do que testando os carros de forma efetiva.

O simulador de hoje não é nada comparado aos de antigamente, mas às vezes a equipe se depara com um piloto machucado e não tem alguém tão preparado para guiar o seu carro porque não estão acostumados com ele. Então chega a cair numa situação que na minha opinião é um absurdo, que é botar um piloto num carro em um final de semana de corrida, sendo que ele nunca andou naquele carro, é uma situação completamente diferente. Graças a Deus eu peguei uma época que eu realmente pude testar.

ll P: Mudando um pouco de assunto, agora para a sua carreira como comentarista, como surgiu o convite para participar da transmissão da Fórmula 1 no Sportv?

MW: O convite surgiu há muito tempo. Na época eu estava na Fórmula 2, que chamava Fórmula 3000, passava pela minha cabeça ser comentarista, pois é uma profissão que eu admiro muito e eu acredito que o comentarista faz uma grande diferença na transmissão, conforme a maneira que ele se expressa.

O primeiro convite surgiu no final dos anos 90, quando eu ainda era piloto de testes da Williams e foi convidado pela Globo para participar, nesta época eu fiz isso umas duas vezes.

Em 2014, eu estava em casa quando me ligaram, era o Eduardo Melito, que na época eu não o conhecia. Era a primeira vez que o Sportv estaria exibindo o treinos classificatórios da Fórmula 1 ao vivo, já que antes somente os treinos livres eram ao vivo, o resto da transmissão era feita em VT. Ele entrou em contato na quinta-feira a noite e o convite era para dois dias depois, eu hesitei e também tinha outros compromissos. Na sexta-feira de manhã assistindo os treinos livres pela televisão, o Sérgio Maurício e Lito Cavalcanti anunciaram que eu estaria com eles no sábado, depois disso eu não tive mais como recusar o convite.

Acabei embarcando para o Rio na sexta-feira mesmo. No sábado sempre tem um treino livre primeiro e depois a classificação, a principio eu apenas estaria participando da classificação, mas chegando lá para conhecer o estúdio, o Sérgio Maurício já colocou um microfone na minha mão e me introduziu no programa, acabou quebrando um pouco o gelo desta forma.

Max Wilson fala um pouco da forma como ele se sente no programa e da sua participação junto com o Sérgio Maurício, também comentarista da Sportv, e passa um pouco do seu sentimento de como é estar no programa.

MW: Eu sou muito grato à forma como o Sérgio Maurício me introduziu no programa e foi um diferencial, já que eu nunca tinha feito isso e ele era o capitão daquele navio, se assim podemos dizer. Ele me conduziu em um meio, onde já de cara era eu entraria ao vivo, então não podia errar ou falar besteiras.

Eu me senti acolhido pelos coordenadores, produtores, o pessoal dos eventos, todos me acolheram tão bem, então essa foi a forma como isso me ajudou, já que eu estava em ambiente gostoso e isso faz você pegar um carinho pelo negócio. A gente da risada nas transmissões, se diverte e mesmo sendo cansativo e complicado por conta dos horários, a maneira como eu fui recebido me auxiliou muito.

ll P: E depois que você recebeu este convite, você fez algum curso que auxiliasse neste seu novo caminho?

MW: Na verdade não. Aconteceu uma situação um pouco engraçada, passado 6 meses eu ainda era convidado e depois a Spotv me contratou, eu conversei com o pessoal da produção do programa, para saber se eu deveria fazer algum curso e eles acharam melhor não. Eu pensava desta forma pois estava fazendo uma coisa diferente, conversando com uma câmera, mas para falar a verdade foi bom, pois eu não sou um apresentador e também não sou um jornalista, eu sou um piloto que está ali para comentar e eu quero que seja da forma mais natural possível.

ll P: A maioria dos comentaristas foram esportistas e depois de se aposentarem do esporte que praticam, acabam se tornando comentaristas. Você fez o caminho inverso, ainda atua como piloto e faz comentários, como é isso?

MW: É exatamente isso, normalmente os comentaristas, esportistas comentaristas, são ex’s esportistas. Eu ainda estou competindo e vou competir muito tempo, portanto eu acho esta atitude muito legal. E como comentarista eu tomo muito cuidado para não usar as transmissões ao meu favor, de maneira nenhuma, mesmo se ocorrer de vencer uma corrida. O que acontece às vezes é o Sérgio Maurício me dar parabéns, se acontece de ter uma corrida da Stock Car antes ou depois de uma etapa da Fórmula 1, mas eu apenas faço um agradecimento por ele ter lembrado da situação e já volto para os comentários da categoria.

Max Wilson fala um pouco sobre a sua rotina, como comentarista da Fórmula 1 e também sobre as suas outras atividades.

MW: As únicas vezes que eu não estou na transmissão, é quando uma corrida de Fórmula 1 e Stock Car caem no mesmo final de semana, pois eu tenho que competir na categoria, mas isso raramente acontece, neste ano ocorreu apenas nos Estados Unidos. Ainda tem finais de semana que eu estou competindo na Porsche Cup, mas eu consigo conciliar tudo isso na minha agenda.

ll P: É muito difícil comentar sobre outros pilotos, pois de certa forma eles são seus colegas de profissão…

MW: Não é difícil falar, pois já faço isso a algum tempo. Por ser piloto, mesmo não sabendo o que está passando na cabeça da pessoa que está correndo, eu consigo fazer uma leitura do momento e dá para saber o que eles estavam sentindo em alguma manobra na pista ou quando cometem erros ou acertos.

Eu acabo não tendo muito problema com isso, pois sou cuidadoso com o que eu falo. Também tem outra situação, eu comento sobre os pilotos, mas não estou correndo com eles na pista. Tenho o Felipe Massa como amigo, mas mesmo assim é diferente quando você está comentando uma corrida sobre alguém que competiu com você, então acaba sendo bem tranquilo e a minha função é esta.

ll P: Você tem alguma dica para as pessoas que também querem um dia se tornar comentaristas?

MW: Eu caí neste seguimento meio que de paraquedas, então não tive muito tempo para pensar nesta questão, pois diferente de uma pessoa que está estudando, em uma faculdade e que prepara para isso, eventualmente ela pode se tornar um comentarista, mas eu, até pela falta de tempo, já que tive menos de 24 horas, não sabia muito o que fazer. Uma vez acabei aconselhando um grande amigo, o Juliano Losá, que é bicampeão da Stock Car. Há uns três anos ele foi chamado para comentar uma corrida de Stock Car e eu disse para ele primeiramente se manter calmo, pois quando você começa na televisão a primeira coisa que te vem na cabeça é esta coisa meio William Bonner, falando “Boa Noite” e mais um monte de coisas. Ficar calmo, falar de maneira natural, pois é desta forma que a coisa vai sair melhor e tentar evitar de dar muita volta para explicar.

A maneira que eu falo ali é a mais natural possível, é a que eu uso para falar com os meus amigos, pois se eu treinar para falar tudo muito certinho, no mesmo tom de voz, fica muito fake. Faça como se estivesse falando com um amigo mesmo, batendo um papo e deixe as coisas acontecerem.

Obviamente que você para ser comentarista precisa se aprofundar em um assunto, pois é uma responsabilidade muito grande, dar a sua opinião sobre qualquer coisa, seja onde for você precisa estar bem ciente sobre o que fala, pois não tem cabimento você dar informação sobre algo que você desconhece.

ll P: Max você vivenciou alguma situação engraçada durante as transmissões?

MW: Teve uma vez que durante o treino classificatório, que é onde a gente aparece em um tempo de 15 minutos ao vivo, o alarme de incêndio disparou e tinha muita gente acompanhando a transmissão. Nós que estávamos dentro do estúdio não sabíamos o que fazer, se realmente o prédio estava pegando fogo ou se era apenas uma simulação, o problema era que não tínhamos a possibilidade de deixar o estúdio. Nossa atitude foi fingir que nada estava acontecendo, o alarme parou, mas pouco tempo depois o barulho acabou retornando e a gente seguiu o jogo falando sobre a classificação. No fim era apenas uma simulação de incêndio mesmo e ninguém do estúdio tinha sido avisado sobre o treinamento de evacuação do prédio, depois que tudo acabou eu o Lito e o Sérgio demos muita risada.

Vitória Marino, Débora Almeida, Max Wilson e Pietra Passos – Foto de Rubens GP Netto

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Debora Almeida

Meus olhos brilharam quando eu vi o estilo de pilotagem do Vettel ele despertou o meu interesse pelo esporte e cada vez mais eu queria entender sobre o assunto. Hoje gosto de tirar fotos e escrever textos!

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