Dr. F1 | Boletim do Paddock

12 de Setembro – Dr. F1 – Dia 114 dos 365 dias mais importantes da história do automobilismo – Segunda Temporada.

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Michael Schumacher. Rubens Barrichello. Mika Hakkinen. Gerhard Berger. Nelson Piquet. Didier Pironi. Karl Wendlinger. Luciano Burti. Jos Verstappen. Nigel Mansell.

A história da Fórmula 1 é feita por pilotos, mas também por engenheiros, designers, chefes de equipe, donos de autódromo. Nosso personagem de hoje não foi nada disso. Mas esta lista (incompleta) de nomes acima deve suas carreiras, alguns membros e até as próprias vidas ao Dr. Sid Watkins.

Fonte: Autoblog

O eminente neurocirurgião Peter Hamlyn disse certa vez:

“Quando um piloto de F1 se envolve em um grande acidente, ele não sabe se ao acordar ele vai ver Deus ou Sid Watkins. Para nós, médicos, ambos são a mesma pessoa”.

Eric Sidney Watkins nasceu em Liverpool, na Inglaterra, em 06 de setembro de 1928, e nos deixou há exatos seis anos, em 12 de setembro de 2012, com 84 anos de idade. O esporte a motor sempre rondou sua vida: seu pai, que trabalhava em minas de carvão, acabou perdendo o emprego durante a Depressão dos anos 30 e abriu uma oficina de bicicletas. Logo escalou para o conserto de motocicletas e automóveis, e Sid conviveu com graxa sob as unhas até os 25 anos. Mas o sonho do garoto era ser médico, e em 1956 conseguiu a graduação na Universidade de Liverpool. Era hora de servir o exército, e ele foi enviado à África. Foi lá, na Nigéria, onde teve sua primeira e única experiência como piloto, no West African Rally, dirigindo um Ford Zephyr Zodiac. Acabou fora da pista e da corrida ainda na primeira etapa, e percebeu que aquilo não era para ele.

Voltando para a Inglaterra iniciou sua especialização em neurocirurgia, e durante as folgas fazia um extra como médico de sobreaviso nos eventos em Brands Hatcht e às vezes em Silverstone. Mesmo quando morou um período em Nova York, atuando como professor, ele complementava a renda como médico de pista em Watkins Glen – em 1962 ele ficou responsável pelo GP dos Estados Unidos. Em 1972 ele voltou para assumir uma posição de importância no London Hospital.

As coisas mudaram quando, em 1978, ele abriu a porta do consultório e gritou: “Bernard Charles!!”. Quem entrou foi um baixinho narigudo que confessou que havia marcado uma consulta falsa para lhe fazer uma proposta. Bernie Ecclestone então convidou Sid Watkins para ser o médico responsável por todas as 16 etapas do campeonato. “Eu imagino que você queira ser pago por isso”, disse Bernie. “Que tal 35.000 dólares por ano?”.

Dois homens que construíram a F1 que temos hoje. Fonte: Car and Driver

Sid fez as contas (não foi difícil, já que ganhava 400 libras por mês clinicando), e topou na hora. Então Bernie, que era quem vocês conheciam, disse “fechado, mas você tem que pagar suas passagens, a hospedagem, alimentação e quaisquer outras despesas”.

“Quando eu fiz minha declaração no final do ano, meu contador perguntou ‘Por que você está fazendo esse negócio de corridas de carro?’ e eu respondi ‘Oras, porque estão me pagando um monte de dinheiro”’, e então ele disse ‘Não, eles não estão. Na verdade, você teve prejuízo!’”

Ainda assim, a paixão pelo esporte fez com que ele continuasse. E não foi fácil, no início: os donos dos circuitos o viam como um espião da FIA, e faziam o possível para dificultar seu acesso e seu trabalho. A fibra e capacidade de negociação de Ecclestone foram utilizadas várias vezes em favor do responsável pela segurança dos pilotos, mesmo que isso significasse maiores gastos para os organizadores. Naqueles tempos o “centro médico” era frequentemente um motor home, quando não uma barraca de campanha à beira da pista.

“Houve um episódio na Alemanha onde os organizadores entraram na minha sala 30 minutos antes da largada e me mandaram cair fora. Fui até Bernie e disse que o chefe de Hockenheim, Hushke von Hanstein, não me queria no autódromo. Bernie voltou comigo até a sala e disse a ele ‘veja, estou indo agora até a pista e vou ficar parado em frente aos carros olhando para esta janela enquanto vocês resolvem esse problema com o Dr. Watkins. Se ele gostar do acordo, ele vai até a janela e faz um sinal de positivo; se não gostar, de negativo’, ao que Hushke respondeu ‘e o que vamos fazer com 80.000 alemães aguardando para ver a corrida?’. Bernie virou as costas e disse ‘eles que se fodam’. Não houve mais problemas naquele dia.”

Rapidamente os outros organizadores foram aceitando a presença e as demandas do Professor Watkins, ou simplesmente Prof., como passou a ser chamado. Após a tragédia de Ronnie Peterson – uma barreira de comissários impedia o médico de atender o piloto na pista, enquanto um cidadão tentava tirar o capacete dele sem desprender a tira sob seu queixo – todos viram que a morte do sueco poderia ter sido evitada caso ele tivesse recebido atendimento médico correto e imediato. Watkins, após a corrida, pediu a Bernie melhores equipamentos, um anestesista no autódromo, um helicóptero de plantão, um hospital grande próximo em stand by e um carro médico.

Watkins sabia que a primeira volta, com todos aqueles malucos juntos tentando passar um por cima do outro, era um momento tão crítico quanto uma decolagem de avião, e criou o conceito de seguir os pilotos com o carro médico no primeiro giro do circuito. Hoje isto está estabelecido, mas na primeira vez que ele entrou no carro encontrou um senhor obeso e obviamente nervoso por não saber se conseguiria acompanhar o ritmo. Conseguiu, até a primeira curva, quando saíram da pista, tiraram as quatro rodas do chão e perderam todos de vista. Depois disso pilotos profissionais foram os companheiros do professor Sid nesta voltinha – um deles, o brasileiro Alex Dias Ribeiro, que lembra:

“Uma figura fascinante, muito engraçado e profissional ao mesmo tempo. Era muito divertido trabalhar com ele, embora fosse sempre muito exigente. Com aquela personalidade forte e a força política que tinha por ser muito amigo do Bernie Ecclestone, ele sempre teve muita moral na F-1. Mas não perdia a chance de ser sarcástico, com um típico senso de humor britânico. Foi um tempo muito bom, aprendi muito com ele”

Piadista e bonachão. Fonte: Pinterest

Sid era realmente um bonachão quando não estava focado no trabalho. Os pilotos, os mecânicos, os chefes de equipe, todos iam até ele por qualquer problema médico que tivessem. Watkins se tornou um “médico de família” para aquele pessoal que passava oito meses fora de casa. E ele sempre dava um jeito de resolver, frequentemente recomendando além do tratamento um bom whisky e um belo charuto – recomendação que seguia à risca ele próprio.

Em 1982, dois baques: a perda de Gilles Villeneuve em Zolder, quando não havia o que fazer após o acidente, e a de Riccardo Paletti na largada do GP do Canadá. Watkins chegou ao carro poucos segundos após a batida, e mesmo quando a Osella pegou fogo e todos os comissários se afastaram, Sid continuou tentando tirá-lo do cockpit. Sua roupa à prova de fogo o protegeu, mas quando tirou as luvas para tentar uma intubação no piloto viu que ambas as mãos tinham queimaduras graves, e observou que suas botas haviam derretido.

Frank Williams pediu para que seu tratamento fosse conduzido por Sid após o acidente que o deixou paraplégico. “Ele me atendeu de forma magnífica. Após 11 semanas no hospital eu emergi como uma pessoa que, mesmo sem uma mobilidade plena, continuava com uma vida perfeitamente normal e saudável. Serei para sempre grato a ele”. Em 87, Nelson Piquet bateu durante os treinos em San Marino, e o Dr. Watkins disse que ele não poderia correr. Piquet passou o dia tentando convencer os comissários que estava bem. Quando apareceu no autódromo no domingo dizendo que iria participar da prova, Watkins declarou que se isso acontecesse ele estaria fora. Piquet não correu e, tempos depois, admitiu que quem tinha a razão era o médico. “Ainda bem que ele não foi embora, ele é nosso anjo da guarda”, disse.

A luta de Sid por mais segurança não parava: cintos mais largos, uma estrutura em “u” no cockpit para prevenir o efeito chicote que causa lesão cervical, o HANS, bicos deformáveis para absorver o impacto… tudo o que temos hoje foi pensado e muitas vezes instituído sob a supervisão do neurocirurgião inglês.

Amigos. Fonte: Correio do Povo

Acidentes graves aconteceram, mas os pilotos sobreviviam – Berger no GP de San Marino em 89, Martin Donnelly na corrida da Espanha em 90. Infelizmente ainda haveriam duas fatalidades no caminho. Em 1994, no final de semana do GP da Itália, Roland Ratzenberger e Ayrton Senna perderam a vida em acidentes enquanto pilotavam carros de Fórmula 1. O brasileiro e o médico eram bons amigos, havendo no Dr. Sid um sentimento de paternidade que era bem aceito pelo piloto. A hoje clássica história da tentativa frustrada de dissuasão para que Senna não corresse em Imola naquele primeiro de maio é bem conhecida, e o baque da sua morte foi um fardo para sempre carregado por Watkins.

Incansavelmente ele continuou buscando pelo mais alto grau de segurança possível, tanto como chefe médico da Fórmula 1 quanto ao aceitar cargos de presidência em fundações criadas para discutir a segurança do esporte a motor. Paralelamente continuando seu trabalho como neurocirurgião, criou o Instituto da Coluna e da Medula, para pesquisa e tratamento de vítimas de lesões medulares. A morte de Senna foi a última de um piloto de F1 que o Dr. Watkins foi obrigado a assistir, e até hoje é a última que ocorreu na pista de corrida.

Por tornar este esporte que tanto amamos e que envolve tanto risco uma competição na qual todos provavelmente sobreviverão, a presença do Prof. Sid Watkins era fundamental nas lembranças dos 365 dias que fizeram a história do automobilismo.

lll FORA DAS PISTAS

No dia 12 de setembro nasceram o presidente brasileiro Juscelino Kubitschek, o atleta americano Jesse Owens, o baterista do Rush Neil Peart, o comediante Louis C.K. e a atriz Malu Mader.

E muito mais pessoas no mundo nasceram graças a outro aniversariante do dia, a voz rouca que embalou milhares de momentos tórridos, Barry Eugene Carter, ou Barry White.

Carlos Eduardo Valesi

Velho demais para ter a pretensão de ser levado a sério, Valesi segue a Fórmula 1 desde 1987, mas sabe que isso não significa p* nenhuma pois desde meados da década de 90 vê as corridas acompanhado pelo seu amigo Jack Daniels. Ferrarista fanático, jura (embora não acredite) que isto não influencia na sua opinião de que Schumacher foi o melhor de todos, o que obviamente já o colocou em confusão. Encontrado facilmente no Setor A de Interlagos e na sua conta no Tweeter @cevalesi, mas não vai aceitar sua solicitação nas outras redes sociais porque também não é assim tão fácil. Paga no máximo 40 mangos numa foto do Button cometendo um crime.