15 de Novembro – A maior corrida da história da NASCAR – Dia 177 dos 365 dias mais importantes da história do automobilismo – Segunda Temporada.

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A Daytona 500 de 1979 ainda é considerada por muitos como a prova que transformou a NASCAR de um evento regional em um esporte nacional adorado pelos americanos, e realmente aquele evento moveu a categoria para uma nova era.

No dia 15 de novembro de 1992 a NASCAR alcançou um estágio ainda superior, dando o pontapé inicial para o que viria a ser a era moderna atual da categoria. Tudo isso graças a uma prova que teve a despedida de um ídolo e grande vencedor, a estreia daquele que viria a ocupar este lugar, e uma decisão de campeonato entre seis pilotos que foi decidida na estratégia e na matemática. Com um público recorde de 160.000 espectadores no Atlanta Motor Speedway, na Georgia, comemoramos na data de publicação deste texto o 26º aniversário da 1992 Hooters 500.

lll A última cavalgada do Rei

Richard Petty é o piloto mais bem-sucedido da história da NASCAR, com 200 vitórias, mas em 1992 “King” Richard já estava perdendo a majestade. Sua última vitória veio 8 anos antes no 1984 Firecracker 400 em Daytona (com o então presidente Ronald Reagan na plateia) e ele estava lutando para se classificar em todas as provas desde que, em outubro do ano anterior, havia anunciado sua “Fan Appreciation Tour”, correndo todos os 28 eventos daquele ano como despedida. Na corrida final do ano, ele tinha utilizado todos os seus bônus de classificação e teve que fazer a tomada de tempo para conseguir um lugar no grid. Na primeira rodada da quinta-feira, Petty foi o 36º mais rápido e, como só os 20 primeiros confirmavam a participação, precisou ir para a segunda e última tentativa. Arriscando, escolheu ficar com o seu melhor tempo no dia anterior, e quase foi obrigado a ver a corrida do seu motorhome. O heptacampeão ficou com o 39º lugar dos 41 pilotos classificados. Como esse não era um final de semana normal, houve um incidente envolvendo seu chefe de equipe e primo, Dale Inman. Na noite anterior à corrida, Inman foi assaltado a mão armada no estacionamento do aeroporto. O atirador agarrou o pescoço de Inman e puxou o gatilho, mas a pistola não disparou e ele não se feriu. Em uma nota mais alegre, a última das muitas homenagens a Petty aconteceu no sábado à noite, durante um show da banda Alabama no Georgia Dome, quando cantaram “Richard Petty Fans”, música feita em sua homenagem.

Blaze with no Glory.
Fonte: Auto HowStuffWorks

Na corrida, Petty acabou se envolvendo em um acidente na volta 95 de 328, atingindo a traseira do carro de Rich Bickle, que por sua vez foi colhido após uma colisão entre Ken Schrader e Dick Trickle. O carro de Petty teve uma perda de óleo que incendiou-se sobre o motor, e é possível ouvir seu desespero no vídeo onbord que foi ao ar ao vivo pela ESPN, gritando com os comissários para TRAZEREM LOGO A PORRA DO EXTINTOR!!! O carro do veterano ficou boa parte da corrida à beira da pista, com a sua equipe trabalhando para conseguir fazê-lo andar novamente e, faltando apenas duas voltas para final, o carro saiu da garagem. Estava quase sem nenhum metal à sua frente, mas foi o suficiente para que King Richard recebesse pela derradeira vez a bandeirada, no 35º lugar e ainda completar mais uma última volta com os vidros abaixados, saudando os fãs enquanto o country meloso do Alabama tocava nos alto-falantes do autódromo. Em uma entrevista pós-corrida, Petty falou sobre a batida e fogo dizendo: “Eu queria me despedir na “flamas da glória” (in the blaze of glory); eu apenas esqueci a parte da glória.”

United Colors of Jeff Gordon.
Fonte: Pinterest

lll A primeira corrida de um tal de Jeff Gordon

Como é natural, as pessoas tentam manter-se discretas ao fazer algo pela primeira vez, e Jeff Gordon não foi diferente em sua primeira participação. Antes desta corrida, Gordon dirigiu para o proprietário Bill Davis na série Busch (agora nacional) no carro nº 1 da Baby Ruth. Na temporada de 1992, Gordon conquistou 11 poles, 3 corridas e terminou em 4º lugar em pontos. Depois de sua pole e vitória na corrida de primavera em Atlanta, Gordon aceitou um contrato de Rick Hendrick. O fim de semana de corrida de Gordon foi bem silencioso, classificando-se em 21º e terminando em 31º depois de bater no muro. Em um futuro então próximo, Jeff se tornaria uma lenda nas pistas, conquistando os campeonatos de 95, 97, 98 e 2001.

lll Os concorrentes ao título

Em uma final inédita e até então única, seis pilotos chegavam à última prova do ano com chances de título. Três deles (Kyle Petty, Harry Gant e Mark Martin) tinham chances matemáticas, mas as combinações necessárias eram tão improváveis quanto equilibrar uma melancia sobre um bujão de gás na cabeça, enquanto se anda de bicicleta.

Fonte: Reddit

Já os outros três estavam na luta:

Davey Allison

A liderança da tabela era um milagre considerando as circunstâncias da temporada. Davey começou o ano vencendo o Daytona 500 e terminando entre os 5 primeiros nas próximas 4 corridas. Mais tarde, ele ganhou North Wilkesboro e Talladega. O primeiro grande obstáculo veio durante o Winston, um evento que não contava pontos em Chralotte. Na última volta, lutando pela vitória, Davey foi atingido por Kyle Petty na linha de chegada, cruzando primeiro e acertando a parede com força. No momento da batida ele alegou ter uma experiência fora do corpo, vendo o carro abaixo e uma luz brilhante acima. Quando Allison acordou no hospital, suas primeiras palavras foram “Nós vencemos?” e Larry McReynolds respondeu “Sim, Davey”. Allison voltou a correr na Coca-Cola 600 no final de semana seguinte, terminando em 5º apesar de seus ferimentos.

As próximas corridas foram bem discretas, conquistando outra vitória em Michigan, antes de outro incidente, desta vez em Pocono. Allison liderou 115 das primeiras 149 voltas da corrida antes de um longo pit-stop o deixar no meio da zona do agrião. Costurando entre os pilotos mais lentos, seu carro entrou em contato com Darrell Waltrip e capotou violentamente, antes de pousar em um guard rail interno. Allison sofreu uma grave concussão e teve clavícula, pulso e braço quebrados. Nos eventos seguintes, ele começava a corrida e deixava outros pilotos assumirem o carro e terminarem a prova

Ele estava pronto para competir novamente em uma corrida completa quando mais uma tragédia aconteceu em Michigan. Nos treinos para a corrida da série Busch, o irmão de Davey, Clifford, sofreu forte colisão nas curvas 3 e 4, perdendo a vida. Atormentado, Allison conseguiu pilotar e chegou em 5º lugar naquele dia.

A próxima parte da temporada foi relativamente tranquila com Allison atrás de Bill Elliott, trocando bons e maus resultados com o rival, enquanto Alan Kulwicki se aproximava. Allison deixou Elliot em segundo na última corrida da temporada, marcando outra vitória em Phoenix. Chegando em Atlanta 30 pontos à frente do segundo colocado, ele só precisava terminar em 6º para ser declarado o campeão.

Bill Elliot

O atual campeão era o homem a ser batido. Vencedor da Winston Million e um dos pilotos mais populares, era o favorito para vencer tudo na última corrida. A temporada de Elliot começou frenética, com vitórias na segunda, terceira e quarta corridas do ano, além de uma impressionante consistência de primeiras posições até a metade do ano. Em meados de agosto ele tinha assumido a ponta da tabela de classificação, chegando a abrir 154 pontos para Allison, mas tal qual cavalo paraguaio seu fôlego diminuiu e ele terminou abaixo da 26ª colocação nas 4 provas anteriores à Hooters, e chegou à Georgia em terceiro geral, 40 pontos atrás do líder.

Alan Kulwicki

A temporada de Alan Kulwicki foi um grande contraste com a de Allison, no melhor estilo come-quieto. Ele era um cara um pouco esquisito na NASCAR também, tendo um diploma universitário, sendo do norte e dirigindo por um time no qual ele mesmo era o dono. No início do ano, ninguém realmente contava com Kulwicki na luta pelo campeonato, mas as vitórias em Bristol e Pocono o mantiveram na berlinda. Com a temporada se encaminhando para o fim, um campeonato parecia improvável, 278 pontos atrás de Bill Elliot faltando apenas seis corridas. Naquelas últimas semanas, Kulwicki conseguiu uma série de top 5, superou Elliott e apenas perdeu de Allison no final. Apesar de estar a pouca distância para a corrida final, Kulwicki era considerado um azarão, e abraçou seu status de underdog correndo com o carro como um “Underbird” em vez do normal Thunderbird (ele conseguiu autorização para colar adesivos do Super Mouse sobre as letras “T” e “H” do carro).

lll A corrida

Com o pole Rick Mast e Brett Bodine se engalfinhando já na segunda volta, Dale Earnhardt herdou a liderança e começou a construir uma vantagem, trocando a liderança com Ernie Irvan. Para os três concorrentes ao título, as coisas começaram mornas, sem muita emoção. Allison teve danos leves na carenagem após passar por destroços do acidente de Jeff Gordon na volta 164.

Na volta 210, Alan Kulwicki assumiu a liderança e, naquele ponto, todos os três estavam ganhando o bônus por estar à frente durante a corrida. Com 74 voltas para o final Ernie Irvan teve um pneu estourado na curva 4 e rodou bem em frente a Davey Allisson, que acertou em cheio o carro descontrolado. Ele perdeu 43 voltas reparando o dano na suspensão dianteira direita, e deu adeus às chances de vitória. Sua entrevista pós corrida mostrava um piloto no maior calundu, depois de tudo que havia passado naquele ano. O pior é ouvi-lo dizer que iria tentar novamente no ano seguinte. Mas já voltamos a isso.

Com a prova em seus estertores, foi a matemática que fez a diferença. Kulwicki estava na frente e precisava parar para colocar combustível, mas Elliot vinha logo atrás. O plano original era parar na volta 306, mas o piloto que liderasse mais voltas durante a corrida ganharia cinco pontos a mais, e Alan fez os cálculos mentais que lhe deram o insight: “vamos ficar mais três voltas”! Existia o risco claro de pane seca, mas era a hora do tudo ou nada. No giro 310 Kulwicki entrou para um “gas and go”, e voltou atrás de Elliot, que tinha distância suficiente para parar na 314 e voltar à frente. Alan não forçou mais o adversário, e cruzou a linha de chegada em um confortável segundo lugar. Bill Elliot venceu a prova, mas liderou 102 voltas, contra 103 de Kulwicki.

Alan foi campeão por 10 pontos – se os cinco tivesse ido para Bill, ambos terminariam empatados e Elliot seria campeão por ter vencido mais etapas durante a temporada.

Tristemente, dois dos três protagonistas dessa corrida épica não viveriam mais um ano: Kulwicki morreu em abril de 1993 em um desastre aéreo em Knoxville, Tenessee, e em julho Davey Allison sofreu um acidente enquanto pilotava um helicóptero durante a etapa de Talladega da Busch Series, falecendo na manhã seguinte, no hospital.

De qualquer forma, os dois foram protagonistas da mais épica corrida da história da NASCAR, da qual participaram Richard Petty, Jeff Gordon e Dale Earnhardt, que figuram em qualquer top 10 pilotos da categoria.

Kulwicki, campeão.
Fonte: SB Nation.

lll FORA DAS PISTAS

Se você nasceu em 15 de novembro, além de fazer aniversário no feriado compartilha a primeira inspiração com Jonny Lee Miller, que saiu de Sick Boy em Trainspotting para Sherlock Holmes em Elementary e Little Willie John, o compositor de Fever, uma das músicas mais legais já gravadas (e várias vezes regravadas).

Carlos Eduardo Valesi

Velho demais para ter a pretensão de ser levado a sério, Valesi segue a Fórmula 1 desde 1987, mas sabe que isso não significa p* nenhuma pois desde meados da década de 90 vê as corridas acompanhado pelo seu amigo Jack Daniels. Ferrarista fanático, jura (embora não acredite) que isto não influencia na sua opinião de que Schumacher foi o melhor de todos, o que obviamente já o colocou em confusão. Encontrado facilmente no Setor A de Interlagos e na sua conta no Tweeter @cevalesi, mas não vai aceitar sua solicitação nas outras redes sociais porque também não é assim tão fácil. Paga no máximo 40 mangos numa foto do Button cometendo um crime.