23 de Novembro de 1954, O Nascimento da Lenda Ross Brawn – Dia 186 dos 365 dias mais importantes da história do automobilismo

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  Há quem diga que a Fórmula 1 é o esporte individual mais coletivo do planeta. Mesmo que apenas uma pessoa pilota o carro, isso representa apenas a ponta do iceberg, uma vez que uma grande equipe sempre está empenhada na força-tarefa dedicada a fazer aquela máquina funcionar em plena forma. Tendo isso em vista, ter um grande líder com talento para administrar tantas personalidades diferentes com maestria é extremamente importante, e no dia 23 de Novembro de 1954, um dos principais chefes de equipe da história da Fórmula 1 pisou no mundo pela primeira vez.

Ross Brawn na primeira parceria com Michael Schumacher Fonte: Tumblr

  Nascido em Lancashire, na Inglaterra, Ross Brawn se encantou com a engenharia em seus primeiros anos de vida,  constantemente visitando o circuito local para assistir diferentes tipos de corrida. Quando mais velho, se tornou aprendiz no Centro Britânico de Pesquisa de Energia Atômica e logo começou sua graduação em Engenharia Mecânica, até que sua vida tomou uma direção inesperada graças a um golpe de sorte. Ross já trabalhava como mecânico em uma equipe de Fórmula 3, mas um dia se deparou com uma possibilidade de emprego em uma equipe de Fórmula 1 recém-formada, a Frank Williams Grand Prix, que seria baseada na cidade em que ele morava. O britânico se candidatou para a vaga e foi entrevistado por ninguém menos que Patrick Head antes de receber seu cargo de ferramenteiro, uma das habilidades que havia aprendido durante seus estudos.

Ross Brawn na segunda parceria com Michael Schumacher Fonte: Tumblr

  Não demorou para que Brawn escalasse a hierarquia da equipe, assumindo a função de aerodinamicista no túnel de vento da equipe e participando do departamento de pesquisa e desenvolvimento. Anos depois, a americana Haas Lola levou Ross para o seu time de design, aproveitando a presença do campeão mundial Alan Jones e o experiente Patrick Tambay em seus cockpits. Todavia, mesmo com um dos melhores chassis do grid e dois bons nomes no volante, os motores de 4 cilindros da Hart e os V6 da Ford deixavam a equipe na mão em brigas contra as gigantes McLaren e Williams. Os americanos fecharam as portas no ano seguinte, levando o britânico a se encaminhar para a Arrows, onde foi responsável pelo design dos bólidos entre 1986 e 1989.

  Após um período na divisão de supercarros da Jaguar, sendo inclusive líder de design do carro campeão mundial de 1991, Brawn voltou para a F1 através da Benetton, assumindo a função de diretor técnico e trabalhando com Michael Schumacher pela primeira vez logo em seu primeiro ano na equipe britânica. A combinação foi extremamente bem-sucedida, rendendo títulos mundiais em 1994 e 1995. Enquanto o piloto alemão recebia os créditos de sua genialidade no volante, Brawn começava a se destacar na administração da equipe, especialmente em suas decisões estratégicas.

  Em 1996, Michael decidiu ir para a Ferrari, atraindo o britânico a fazer a mesma mudança no final do mesmo ano. Essas duas transferências iniciaram a fundação do famoso “dream team” na escuderia italiana. O impacto da presença dos dois foi sentida já no ano seguinte, pois mesmo com a superioridade clara dos monopostos de Williams e McLaren, os cavalos rampantes ainda eram capazes de brigar por títulos devido ao braço de Schumacher e ao talento logístico e estratégico de Brawn. Após alguns anos de reconstrução em Maranello, uma das sequências mais dominantes da história começou. Entre 1999 e 2004, os italianos conquistaram seis títulos de construtores consecutivos, enquanto Michael foi responsável por cinco triunfos em sequência entre os pilotos a partir de 2000. Esse sucesso avassalador era atribuído principalmente ao time dos sonhos que era formado pelo chefe de equipe Jean Todt, o designer chefe Rory Bryne, o piloto Michael Schumacher e Ross Brawn como diretor técnico, sendo considerado por muitos como a peça vital nesse fino equilíbrio de sucesso. A Renault eventualmente superou a superpotência italiana nas duas temporadas seguintes e o dream team foi aos poucos se desfazendo, mas o nome do britânico já estava consolidado como um dos gênios do esporte em diversas áreas, um profissional completo.

  2007 foi um ano sabático para Brawn, que retornou para a categoria em 2008 como chefe de equipe da Honda. O time japonês teve uma temporada tímida, e mesmo com um projeto promissor para o ano seguinte, essa falta de resultados foi suficiente para a montadora retirar sua participação na Fórmula 1. A compra integral da equipe só foi concretizada em Março de 2009, com o próprio britânico sendo responsável por 54% das ações. Várias divisões da antiga Honda foram mantidas, inclusive a dupla de pilotos, que era formada por Button e Barrichello, motores Mercedes substituíram os japoneses e a equipe foi renomeada Brawn GP. Em meio a diversas polêmicas envolvendo o difusor duplo, o projeto foi extremamente efetivo, a Brawn foi campeã do mundial de construtores e Button, do mundial de pilotos. O sucesso foi tanto que atraiu as atenções da própria fornecedora de motores, e em Novembro de 2009, a Mercedes completou a compra da equipe, mantendo Ross como chefe de equipe. A Brawn GP entrou para a história como a equipe com melhor aproveitamento na Fórmula 1, conquistando os dois títulos possíveis em seu único ano de existência.

Toto Wolf, Nick Lauda e Ross Brawn Fonte: Daimler

  Junto com a compra, a Mercedes mudou também a dupla de pilotos, trazendo o jovem Nico Rosberg e tirando o heptacampeão Michael Schumacher da aposentadoria. Segundo o piloto, um dos motivos principais para seu retorno foi justamente a presença de Ross Brawn na equipe. A trinca alemã começou devagar em 2010 mas o primeiro pódio veio com o 3º lugar de Nico no GP de Malásia. O desempenho da Mercedes continuou evoluindo gradativamente até sua primeira vitória no GP da China de 2012, novamente pelas mãos de Rosberg. Três etapas depois, a primeira pole da equipe foi conquistada por Michael, no GP de Mônaco. No final do ano, Schumacher anunciou sua segunda aposentadoria, abrindo caminho para a chegada de Lewis Hamilton, iniciando uma parceira de extremo sucesso com Nico Rosberg. 2013 representou mais uma subida no rendimento da equipe, que agora sofria em parte com a confiabilidade, mas não deixava de mostrar seu potencial na performance. Entretanto, o ano também marcou a saída de Ross Brawn da equipe, alegando desavenças e problemas de confiança com Toto Wolff e Niki Lauda. 

Ross Brawn e Chase Carey Fonte: F1Fanatic

  Longe da categoria durante 3 anos, 2017 marcou o retorno de Ross Brawn, agora trabalhando na organização da Fórmula 1. Respeitado pela esmagadora maioria do Paddock, o britânico deixou um legado de 16 títulos mundiais entre construtores e pilotos, além de uma tremenda admiração por parte de grandes nomes como Christian Horner e Adrian Newey. Ross revolucionou a categoria e indiscutivelmente marcou a história como uma das mentes mais brilhantes da Fórmula 1, seja no quesito esportivo, técnico ou estratégico, o que explica porque é considerado um dos profissionais mais completos que já entrou em uma garagem de Fórmula 1. 

Fernando Brandão Campos

Brasiliense, podcaster, Team Pepsi, torcedor do Fluminense e de basicamente todos os times de Boston, além de ser dono de um talento sobrenatural para matar equipes de Fórmula 1 (basta perguntar para a Toyota, Lotus e Aston Martin, que sequer entrou mas provou do veneno). Seu habitat natural é o Twitter mas pode ser encontrado falando besteira em outros lugares também. Joga nas 11 com podcasts no Podcast F1 Brasil, vídeos no Boteco F1 e textos aqui no Boletim do Paddock, com direito a uma passadinha no Formula Legend e no Superlicense de vez nunca.