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SÉRIE CIRCUITOS DA F1: Montjuïc

Nem mesmo as paisagens deslumbrantes salvaram o perigoso circuito de Montjuïc de ser substituído

O automobilismo sempre foi popular em Barcelona, que começou a receber o Grande Prêmio Penya Rhin, no circuito de Villafranca, em 1921. Depois de um hiato, a corrida voltou a ser disputada em 1933, usando as ruas do bairro de Montjuïc.

Montjuïc fica localizado no topo de uma colina, com vista de toda a cidade de Barcelona. Rodeado de fortificações medievais, o bairro recebeu em 1929 o World Fair e quase recebeu os Jogos Olímpicos de 1936 no lugar de Berlim, se não fosse a Guerra Civil Espanhola. 

Vista do Castelo de Montjuïc, fortaleza que tem uma visão privilegiada da cidade de Barcelona. Foto: reprodução

Depois de algumas corridas, o GP de Penya Rhin acabou sendo transferido para Pedralbes, que também foi palco da primeira corrida de F1 na Espanha, em 1951. Nos anos seguintes, a Espanha não recebeu corridas, voltando em 1954, novamente em Pedralbes. Como era um circuito de rua de alta velocidade, acabou sendo excluído do calendário por causa da segurança. Nessa época, Montjuïc passou a receber diversas corridas de outras categorias, como motociclismo, GT e a Formula 3, que fez tanto sucesso que começou a se cogitar uma corrida de F1 no circuito. 

Para testar essa possibilidade, foi realizada uma corrida de Formula 2 em 1966, que contou com nomes como Jack Brabham, Jackie Stewart, Graham Hill e Jim Clark. Com o circuito aprovado pelos pilotos, Montjuïc passaria a revezar o GP da Espanha com Jarama, um circuito localizado em Madri. A primeira corrida, em 1968, foi em Madri e no ano seguinte, no dia 4 de maio de 1969, os 3,791 km do traçado de Montjuïc, que passavam pelos principais pontos históricos do bairro, como a antigo estádio Olímpico, a Fonte Mágica, o Teatro Grego e Museu Nacional de Arte e receberam o GP da Espanha pela primeira vez. 

Um dos diversos pontos turísticos do bairro de Montjuïc, que adornavam o circuito. Foto: reprodução
Traçado de Montjuïc, que passava pelos principais pontos turísticos do bairro em Barcelona. Foto: reprodução

A corrida foi vencida por Jackie Stewart, o único piloto que completou as 90 voltas da prova, com Bruce McLaren, o 2º colocado, chegando duas voltas depois. Stewart também venceria a prova de 1971, sendo o piloto que mais venceu no circuito em sua curta duração no calendário da F1.

Jackie Stewart durante o GP da Espanha de 1969. Piloto venceu com duas voltas de vantagem. Foto: reprodução
Cartaz do GP Espanha de 1969, primeira corrida de F1 disputada em Montjuïc. Foto: reprodução

Mas a vista panorâmica e o tour pela história não compensavam uma falha no circuito: a falta de uma área de escape. O que separava os pilotos das árvores ao redor era um guard-rail improvisado. 

Em 1975, na quarta edição da corrida no circuito, uma inspeção detectou que os guard-rails estavam apenas encostados uns nos outros, o que levou os pilotos a protestarem. Nos anos anteriores, François Cevert e Helmuth Koinigg faleceram em Watkins Glen após se chocarem com guardrails frouxos.

Estado do Guard-rail em Montjuïc. As placas estavam apenas encostadas e foram parafusadas por voluntários. Foto: reprodução

A FISA pediu para que os organizadores consertassem as proteções, mas não vendo um bom trabalho sendo feito, os pilotos decidiram não correr no primeiro treino livre e poucos foram à pista durante o segundo treino. Sob ameaça de terem os carros apreendidos caso se recusassem a correr, a solução encontrada foi colocar mecânicos e voluntários para fixar os guardrails a tempo para a classificação.

Ken Tyrrell e Derek Gardner ajudam a fixar guard-rail em Montjuïc. Mecânicos e voluntários também ajudaram no trabalho de fixar as barreiras de proteção. Foto: reprodução

Mesmo assim os pilotos não ficaram satisfeitos. Um deles foi Emerson Fittipaldi, o atual campeão e vencedor da prova em 1973, que deu apenas algumas voltas e não se classificou para a corrida, indo embora da cidade logo em seguida. Mesmo sem Emerson e com os pilotos votando contra, a corrida foi em frente. Wilson Fittipaldi, que corria pela Fittipaldi-Copersucar, e Arturo Merzario, que corria pela Williams, decidiram abandonar a corrida depois de uma volta. 

E o que se temia acabou acontecendo. Durante a corrida, ocorrida no dia 27 de abril de 1975, Rolf Stommelen perdeu a asa traseira e se chocou com a Brabham de José Carlos Pace. Na batida, o carro de Stommelen decolou e passou por cima do guard-rail, matando quatro espectadores na hora, além de ferir mais dez. Um dos feridos acabou falecendo no hospital. Stommelen sofreu várias fraturas, mas sobreviveu ao acidente. 

Estado do carro de Stommelen após acidente. Foto: reprodução

A corrida foi interrompida na volta 29, quatro voltas após o acidente. Sem condições de continuar, a corrida foi encerrada de vez e teve a vitória de Jochen Mass, sua única na F1. Lella Lombardi chegou em 6º e marcou meio ponto, a única vez que uma mulher pontuou no campeonato mundial de F1. 

Depois disso, o perigoso circuito de Montjuïc foi abandonado de vez e Barcelona só voltou a receber uma corrida de F1 em 1991, quando foi estreado o circuito construído em Montmeló. Montjüic ainda recebeu as 24h de motociclismo até 1986, quando mais um acidente fatal acabou com todas as formas de corrida no circuito.

Placa do Circuito de Montjuïc, perto da Curva 1, com os nomes dos vencedores da F1 e da corrida de motociclismo disputada no local. Foto: reprodução

Em 2007, um evento para comemorar os 75 anos do circuito, trouxe novamente os carros de F1 para Montjuïc, com Emerson Fittipaldi pilotando uma Lotus 72 e Marc Gené pilotando uma Ferrari de 2006.

As quatro edições da corrida tiveram Jackie Stewart como maior vencedor, ao subir no degrau mais alto do pódio em duas ocasiões, com Emerson Fittipaldi e Jochen Mass também saindo vencedores do circuito. 

Alex Soler-Roig foi o único piloto espanhol a correr em Montjuïc, abandonando a corrida de 1971 com problemas no sistema de combustível. 

Entre os brasileiros, Emerson Fittipaldi é o mais bem sucedido, com uma vitória no circuito catalão. 

Wilson Fittipaldi teve como melhor resultado, o 10º na corrida de 1973 e José Carlos Pace não completou as duas provas que disputou. 

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Denise Vilche

Uma revista antiga sobre carros fez nascer uma paixão: a F1. Uma menina curiosa de oito anos queria saber quem eram aqueles tais de Senna, Piquet, Mansell e cia. que a revista mostrava em gráficos coloridos. E mais de 30 anos depois, essa menina, agora jornalista, continua mais apaixonada pela F1 do que nunca.

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