O homem que colocou o Chile no mapa da velocidade – Dia 177 dos 365 dias mais importantes da história do automobilismo

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Pense rápido: Qual o único piloto da história a ter corrido o GP de Mônaco da F1, as 500 milhas de Indianapolis, as 24 horas de Le Mans, o WRC, a NASCAR e o Rali Dakar? Some-se a isso o fato de ser praticamente o único representante de seu país nas principais categorias do automobilismo mundial, entre outras coisas. Sim, meus amigos, Eliseo Salazar Valenzuela é muito mais do que o cara que levou um sopapo de Nelson Piquet.

Nascido em Santiago no dia 14 de novembro de 1954, Salazar demonstrou paixão pela velocidade na sua juventude, acompanhando corridas locais, chegando a atuar de cronometrista do circuito de Las Vizacachas (que não existe mais), assim como foi copiloto de ralis de regularidade aos 15 anos. Logo, o chileno tornou-se referência do esporte a motor no país e começou a ter resultados sólidos em sua terra natal e na Argentina.

No final dos anos 1970, chegou a hora de desbravar a Europa em busca de um crescimento nas competições de monoposto. Para isso, buscou a ajuda de colegas sul-americanos para saber como era o caminho das pedras. E, acredite, a principal ajuda veio de Nelson Piquet, que viria a ser um grande amigo no exterior.

Em 1980, Salazar foi vice-campeão da Fórmula 1 Britânica (Aurora Series, campeonato disputado por equipes particulares que compravam chassis das da categoria principal). O chileno conquistou três vitórias pela escuderia RAM usando o Williams FW07, utilizado no ano anterior pelo time de Grove.

Com o reconhecimento dos resultados, Salazar ganhou a oportunidade de entrar para a categoria máxima em 1981, pela March. Pela primeira (e única) vez, o Chile teria um representante na Fórmula 1. No entanto, o começo foi complicado. Nas primeiras seis corridas, o chileno só conseguiu classificar para uma etapa, em Ímola, onde abandonou após sair da pista.

Salazar deixou a March e assinou na sequência com a Ensign. A mudança de ares acabou sendo boa e o chileno marcou seu primeiro ponto com o sexto lugar no GP da Holanda em Zandvoort. Para 1982, o sul-americano acertou sua transferência para a ATS. Na escuderia alemã, Eliseo conseguiu mais dois pontos com o quinto posto no GP de San Marino, numa corrida que contou apenas com 14 carros devido ao boicote das escuderias inglesas contra a Fisa.

Contudo, o evento mais marcante na sua trajetória na F1 ocorreria no GP da Alemanha. Como já mencionei no começo do texto, o incidente com Piquet em Hockenheim acabou entrando de vez para o folclore da categoria.

Piquet esteve tão furioso que se recusou a voltar na mesma ambulância do colega e tomou a direção do veículo, afirmando: “Quem vai dirigir esse troço sou eu”. Ironicamente, a colisão acabou sendo um alívio para a BMW, fornecedora de motores da Brabham. No ano seguinte, o engenheiro da marca bávara, Mario Theissen, revelou ao brasileiro que o motor da Brabham explodiria em cerca de cinco voltas. Deste modo, a batida evitou o vexame da montadora alemã na corrida caseira. Piquet ligou para Salazar e explicou a história, se desculpando pela briga e reatando a amizade.

Quando Piquet ligou para Salazar, o chileno já não estava mais na F1. Em 1983, fez algumas corridas pela RAM (a mesma pela qual competiu na Aurora Series), mas saiu após o GP da Bélgica. O sul-americano ainda tentou uma vaga na Toleman, mas com a crise economia no seu país, não havia combustível financeiro para seguir.

Após passagem discreta pela Fórmula 3000 e um retorno ao automobilismo local, Salazar passou a ser um nome mais frequente no Endurance. Bem verdade que o chileno já havia disputado as 24 horas de Le Mans em 1982 e 1983 pela japonesa Dome, mas uma nova oportunidade veio em 1988 para competir na World Sport Prototype Championship (WSC, ancestral do atual WEC) pela Spice Engineering na classe C2 (equivalente ao atual LMP2).

Após desempenho satisfatório, com direito a uma vitória nos 1000 km de Fuji, o sul-americano recebia o convite de Tom Walkinshaw para competir na equipe oficial da Jaguar a partir de 1989. Naquele ano, Salazar terminou em oitavo na classificação geral em conjunto com os irmãos Ferté (Alain e Michel). Como consolo, foi o carro a obter a volta mais rápida daquela prova.

Na edição de 1990, o chileno iniciou a corrida tendo como parceiros de trinca o dinamarquês John Nielsen e o americano Price Cobb no Jaguar XJR-12 número 3, mas no decorrer da corrida, com o abandono do Jaguar número 1, Salazar cedeu o inglês Martin Brundle, já que o britânico também brigava pelo título do WSC.

Salazar passou a correr no carro número 4 ao lado de Michel Ferté e do americano Davy Jones. O seu bólido acabou quebrando na volta 282, enquanto o de Brundle foi o vencedor. Devido à troca, o chileno não foi considerado vencedor daquela edição. No entanto, o nobre gesto permitiu ao sul-americano ganhar o prêmio de Desportista do ano da revista britânica Autosport.

Salazar ficou um tempo afastado do automobilismo (chegou inclusive a ser um dos apresentadores da versão chilena do American Funniest Videos), mas retornou ao endurance, correndo na IMSA entre 1994 e1995. A passagem pela categoria estadunidense serviu-lhe de acesso para a volta aos monopostos, com o convite para disputar a Indy pela equipe de Dick Simon em 1995.

O primeiro ano de Salazar na Indy foi marcado por alguns acidentes, mas houve bons momentos, com destaque para o honroso quarto lugar nas 500 milhas de Indianapolis, logo em sua primeira participação na Brickyard. Com a cisão entre a CART e a IRL, Salazar seguiu com o grupo que disputaria a nova categoria criada por Tony George.

O seu começo na nova categoria foi complicado: na primeira etapa, realizada no Walt Disney World Speedway (circuito oval construído junto ao complexo do parque), Salazar bateu forte nos treinos e teve que ficar afastado das pistas para se recuperar. O seu retorno foi em Indianapolis, onde terminou em sexto, após se envolver em um acidente incrível na última volta.

Em 1997, Salazar teve um ano cheio de altos e baixos, terminando em nono com 208 pontos. O ponto alto veio na última etapa daquela temporada, com a vitória na etapa de Las Vegas , a única conquistada pelo chileno na categoria. No mesmo ano, Eliseo disputou duas provas pela NASCAR Craftsman Truck Series, tendo como melhor resultado um 17º lugar em Watkins Glen.

Salazar competiu ainda por mais cinco temporadas na Indy, tendo o melhor desempenho em 2000, quando terminou em quarto na temporada, com 210 pontos, com direito ao melhor resultado em Indianapolis com o terceiro lugar.

As lesões causadas pelos acidentes nas provas da IRL levaram Salazar a repensar sua carreira e a aposentadoria dos monopostos em 2002. (Embora tenha passado pela saudosa GP Masters entre 2005 e 2006) Assim, voltou para a América do Sul para andar nos ralis, buscando novas empreitadas.

Em 2008, assinou um pré-contrato para correr na equipe de Jean-Louis Schlesser no Rali Lisboa-Dakar, mas o cancelamento do evento adiou os planos. Entretanto, em 2009, Salazar conseguiu participar do principal rali do mundo pela McRae Prototype, repetindo a dose em 2010. Apesar dos resultados modestos, o chileno realizou o seu desejo.

Em 2012, Salazar competiu na etapa da Argentina do WRC com um Mini, terminando em 12º lugar, estendendo ainda mais seu currículo. Sua última participação como piloto foi em 2013, em eventos no Chile e nos Estados Unidos.

Mas se engana que ele esteja fora do mundo da velocidade. Salazar promove em seu país o ePrix do Chile, que será realizado em Santiago no dia 3 de fevereiro. E para completar sua coleção de veículos guiados, deu uma volta pelas ruas da capital chilena com o bólido da Fórmula E.

Se não foi uma carreira vitoriosa, sem dúvidas, Eliseo Salazar tem uma trajetória bastante diversificada, levando a bandeira chilena em todos os cantos do mundo por meio da velocidade. CHI-CHI-CHI LE-LE-LE, VIVA CHILE!

Eduardo Casola

Sou formado em jornalismo pela Uniso, torcedor do Corinthians e adoro esportes, especialmente automobilismo!

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