A.J. Foyt: O texano mais vitorioso do mundo da velocidade - Dia 240 dos 365 dias mais importantes da história do automobilismo • BP • Boletim do Paddock

A.J. Foyt: O texano mais vitorioso do mundo da velocidade – Dia 240 dos 365 dias mais importantes da história do automobilismo

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A tríplice coroa do esporte a motor leva em conta o GP de Mônaco da Fórmula 1, as 500 milhas de Indianapolis e as 24 horas de Le Mans. No entanto, outras provas podem compreender uma coroa de títulos importantes na trajetórias de grandes pilotos, casos das 500 milhas de Daytona, as 24 horas de Daytona e as 12 horas de Sebring.

Vencer qualquer uma dessas lendárias provas faz parte do imaginário de 10 entre 10 pilotos. Conquistar vitórias em mais de uma delas já é o suficiente para alça-los a condição de lenda. Imagina se vencer as duas provas de Daytona, a de Sebring, a de Le Mans e a de Indianapolis, sendo um dos recordistas da prova de monopostos mais rápida do mundo? Este feito cabe apenas a um homem: Anthony Joseph Foyt Jr, ou simplesmente, AJ Foyt.

Nascido em 16 de janeiro de 1935, na cidade texana de Houston, o filho de Aj Foyt Sr foi mais um convertido para a comunidade dos cabeça de gasolina logo na sua infância. O rapaz largou os estudos ainda no ensino médio para trabalhar como mecânico, para, aos 18 anos, tornar-se um corredor de midgets (carros geralmente em formato de gaiola, bastante populares nos EUA), com um bólido adquirido pelo próprio pai.

Foyt nos tempos dos Midgets Fonte: AJ Foyt Racing Facebook

Após vencer na divisão nas pistas do Texas, Foyt foi desbravar os Estados Unidos e logo adentrou o mundo dos monopostos aos 21 anos, competindo em provas organizadas pela United States Auto Club (USAC), que organizava o campeonato de automobilismo que seria o embrião da Fórmula Indy como conhecemos.

Foyt já demonstrava a habilidade suficiente para se provar um grande nome do automobilismo norte-americano, colecionando vitórias. Em 1960, ganhou quatro corridas e faturou seu primeiro título na USAC.

Na temporada seguinte, um feito ainda maior: na Meca do Automobilismo, o Indianapolis Motor Speedway, o Super Tex (apelido que ganhara pela sua origem) começou a mostrar o seu potencial, já numa parceria com o chefe de mecânicos George Bignotti, numa união marcante na década de 1960.

Nas 500 milhas de 1961, Foyt liderava com folga, mas um erro na penúltima parada nos boxes fez com que ficasse sem combustível para chegar ao final. O segundo colocado, Eddie Sachs, acelerou forte e se aproximava, mas desgastou muito os pneus. Com isso, ambos precisaram fazer um último pit-stop ou que, permitiu a Foyt administrar a liderança e vencer pela primeira vez na Brickyard. Ainda em 1961, o texano venceu mais três vezes e faturou o bicampeonato da USAC.

Nos dois anos seguintes, Foyt teve mais um título e um vice na USAC. Além disso, também começou a enveredar pela NASCAR, disputando provas esporádicas nos Stock Cars. No entanto, ao consolidação da sua carreira veio mesmo em 1964.

Com nada menos que 10 vitórias em 13 corridas disputadas, o texano tornou-se o campeão mais dominante na história de qualquer categoria da Indy em todos os tempos. Além disso cinco provas de demonstração, três da categoria de stock-car da USAC e a Firecracker 400 da Nascar em Daytona (a segunda prova anual do superspeedway da Flórida), após um duelo com Bobby Isaac nas voltas finais.

Em Indianápolis, Foyt teria um desafio de correr com um carro com motores dianteiros preparados pela Sheraton Thompson Special, enquanto outras equipes já usavam bólidos com propulsores na dianteira, casos da equipe AJ Watson, com Parnelli Jones como piloto, além da Lotus, que desembarcava com ninguém menos que Jim Clark para vencer a Indy 500.

Soberano em 1964 Fonte: Indy Center Brasil

Contudo, o Super Tex não deu chance para a concorrência. Com uma atuação dominante, venceu pela segunda vez no oval de Indiana. No entanto, a vitória não foi celebrada devido às mortes de Eddie Sachs e Dave MacDonald em um dos acidentes mais horripilantes da história da prova.

Em 1965, o texano fundou a A.J. Foyt Enterprises, sua própria escuderia. Em um primeiro momento utilizou equipamentos de terceiros, por meio dos velhos parceiros da Sheraton Thompson. Os dois primeiros anos foram mais sofridos, mas as coisas foram se ajeitando.

Para 1967, Foyt vinha com as expectativas de uma boa prova em Indianápolis, tendo em mão o Coyote-Ford estampando aquele que é o número que marcou a sua trajetória no esporte a motor: o 14. O principal oponente era Parnelli Jones, que competia pela STP-Paxton com motores turbo, muito superiores aos propulsores aspirados que a maior parte do grid usava.

A corrida começou, mas parou após 18 voltas por conta da chuva, sendo retomada na manhã seguinte. Segundo a lenda contada, Foyt previu naquele dia que um grande acidente ocorreria no fim da prova. As 500 milhas foram retomadas na manhã da segunda-feira e, confirmando as expectativas, Jones disparava na frente e partia para uma vitória tranquila.

Todavia, o calcanhar-de-aquiles do motor turbo era justamente a confiabilidade e a três voltas do fim, Jones abandonou com uma falha mecânica. Foyt assumiu a ponta e caminhava tranquilo rumo a vitória, mas aí veio à tona a lembrança da premonição do acidente. O Super Tex tirou o pé na volta final.

Tri em Indianapolis. O primeiro com o 14 (Indy Center Brasil)

Bem a sua frente, Carl Williams rodou e provocou uma batida envolvendo cinco carros. Foyt passou conduzindo seu bólido a módicas 100 milhas por hora e cruzou a reta final, para garantir o seu terceiro triunfo em Indianapolis.

Poucos dias depois, Foyt recebera o convite de integrar a equipe da Ford GT do lendário Carroll Shelby para correr as 24 horas de Le Mans. O texano desdenhou da tradicional prova, até blasfemando contra o circuito de La Sarthe: “Não é nada além de uma pequena estrada de interior antiga”.

Apesar da provocação, lá foi Foyt fazer companhia a Dan Gurney no Ford Mk IV número 1 para defender o título da equipe de Shelby contra a Ferrari (embora não fosse a principal aposta, pois havia pilotos bem mais experientes em provas de endurance e no automobilismo europeu nos outros carros da marca do óvalo azul, como Bruce McLaren, Mario Andretti, Denny Hulme, entre outros.

O coelho que surpreendeu em Le Mans Fonte: Rodrigo Mattar

A função da equipe de Gurney e Foyt era de ser o “coelho”, forçar o ritmo para os rivais se desgastarem e favorecerem a equipe. Foyt era o piloto que fazia o ritmo mais forte, enquanto Gurney cadenciava o desempenho do carro.

O principal problema ocorreu na parte noturna, quando Gurney literalmente dormiu no ponto e não despertou a ponto de Foyt ser forçado a realizar a jornada dupla durante a madrugada. O Super Tex teve que ficar incríveis 18 horas dentro do bólido, se segurando enquanto podia.

Mas a sorte estava a favor da dupla estadunidense. Os principais competidores da Ford e da Ferrari apresentaram problemas mecânicos variados ao longo da prova, mas incrivelmente, o Fordão de Foyt e Gurney aguentou bem a pegada. No fim, a dupla dos Estados Unidos levava a montadora de Detroit a segunda vitória em Le Mans. Foyt entrava para a galeria dos vencedores em La Sarthe, junto com Gurney, que foi o homem que imortalizou o banho de champanhe naquele momento para todas as categorias do esporte a motor.

Gurney estourando a champanhe em frente a Foyt. Um momento para eternidade Fonte: Rodrigo Mattar

Após uma dinastia nos monospostos, Foyt resolveu abdicar de algumas provas do campeonato com novos objetivos. O texano alternava a USAC com a NASCAR conforme o seu interesse. O principal foco foi na Daytona 500, a prova sagrada da Stock Car americana.

Em 1971, a vitória bateu na trave: o texano liderava, mas sofreu uma pane seca e perdeu a vitória para o “Rei” Richard Petty. Já no ano seguinte, Foyt foi a forra. A bordo de um Mercury com o tradicional número 21 da equipe Wood Brothers, o Super Tex levava o troféu das 500 milhas de Daytona para sua coleção. Foyt se igualou a Mario Andretti, como os únicos pilotos a vencer as duas principais provas de 500 milhas dos Estados Unidos (Indianapolis e Daytona).

Após atingir a glória em Daytona, Foyt voltou o foco novamente para a Indy. Apesar de não ter muita sorte na Brickyard, o texano, vinha forte nas demais corridas em ovais. Foram sete vitórias em 13 corridas em 1975, o suficiente para abocanhar mais um caneco, já na casa dos 40 anos.

Dois anos depois, uma nova chance em Indianapolis. E na edição de 1977, Foyt talvez teve a grande exibição da carreira. Com seu Coyote com motor Ford preparado especificamente pela equipe do Texano, o piloto de 42 anos tinha o conjunto necessário para chegar ao Victory Lane pela quarta vez.

Entretanto, o caminho não foi fácil. Com problemas de combustível, Foyt perdeu muito tempo em relação a Gordon Johncock. Mas o veterano não se rendeu e extraiu tudo daquele turbo, tirando entre 1,5 a 2 segundos por volta. Apesar de ter o ritmo mais moderado, foi o propulsor de Johncock que abriu o bico a 16 giros do fim. Bastou ao Super Tex administrar o restante da corrida para conquistar seu quarto triunfo em Indianapolis, sendo o primeiro dos três recordistas da famosa prova (os outros dois são Al Unser e Rick Mears).

Aquela conquista praticamente significou o fim do ciclo vitorioso de Foyt nos monopostos americanos. A USAC passava por um forte período de transição, principalmente após a morte de vários executivos da entidade em um acidente aéreo em 1978. Construtores estadunidenses como (o antigo companheiro) Dan Gurney, Roger Penske e Pat Patrick se juntaram e formaram uma nova organização para administrar um certame principal nos Estados Unidos: a Championship Auto Racing Teams (CART).

Os carros das quatro vitórias junto do troféu Borg-Weine o da vitória em Indianapolis (AJ Foyt Racing Facebook)

Enquanto o certame da CART tomava forma, Foyt seguia firme nas competições da USAC, com o texano vencendo o campeonato de 1979, o sétimo e último título de sua carreira. A USAC passou a organizar cada vez menos corridas, em detrimento da nova entidade, e o veterano disputava menos corridas. O último triunfo em monopostos foi em 1981 no trioval de Pocono.

Em 1982, na edição das 500 milhas daquele ano, o texano voltou aos tempos de mecânico durante a corrida. Quando o seu carro apresentou problemas na transmissão, coube a ele mesmo descer do carro e ajudar no reparo dando marretadas na carenagem.

Foyt passou a fazer provas esporádicas na Indy (sempre em Indianapolis e nos grandes ovais), além de se aventurar novamente no endurance, onde obteve novas glórias. Em 1983, venceu pela primeira vez as 24 horas de Daytona a bordo de um Porsche 935L, ao lado do americano Preston Henn e dos franceses Bob Wollek e Claude Ballot-Lena.

Dois anos depois, o texano fez a limpa nas provas de longa duração, vencendo pela segunda vez em Daytona tendo como companhia novamente Wollet, além do compatriota Al Unser e do belga Thierry Boutsen. Posteriormente, veio a vitória nas 12 horas de Sebring, mais uma vez com Wollet e também com o americano Drake Olson. Assim, no ano de 1985, Foyt entrava para a história como um dos 12 pilotos a fazer a tríplice coroa do endurance (Le Mans, Daytona e Sebring)

Outra marca atingida por Foyt foi o recorde de velocidade em um carro, graças ao Aerotech, carro experimental preparado pela Oldsmobile, com chassis March da Indy adaptados de traseira curta (ST) e traseira longa (LT), sendo o motor Quad 4, de 2,3 litros, 4 cilindros e 16 válvulas. O propulsor foi adaptado para um teste especial realizado pelo texano, com cerca de 750-800 cv usando um turbo e motor de 2 L para o Aerotech ST (apesar de haver fontes que dizem que chegava perto de 900 cv) e cerca de 1000 cv com dois turbos e motor também de 2 L para o modelo LT.

Em práticas realizadas no oval de testes de Fort Stockton, Texas em 1987, o veterano conseguiu atingir a marca incrível em medições de velocidade na milha lançada. Foyt estabeleceu um novo recorde de pista fechada, com 257.123 MPH (413 Km/h), usando o ST, com o LT andando a incríveis 290 MPH (467 km/h) nas retas. No entanto, o texano não quebrou o recorde de volta da pista, devido ao temor pela falta de segurança do circuito de testes da GM. Eis aqui um vídeo do momento, que mostra que o Super Tex ainda podia surpreender.

Todavia, o desempenho na Indy já não era o mesmo. Com novos pilotos egressos da base americana ou das categorias europeias, a geração de Rick Mears, Bobby Rahal, Danny Sullivan, Al Unser Jr, Michael Andretti e Emerson Fittipaldi passou a monopolizar a categoria, deixando Foyt como mero coadjuvante.

Ainda houve algumas participações honrosas para o texano, já com idade e peso muito avançados para um piloto de monopostos, como o quinto lugar nas 500 milhas de 1989, a classificação para a largada em segundo em 1991 e o nono lugar na prova de 1992, aonde sobreviveu a uma carnificina com vários acidentes. Naquela edição, o Super Tex chegava a 35 participações seguidas no oval de Indiana.

Foyt se inscreveu para a prova de 1993 incluindo o seu companheiro de equipe, o novato Robby Gordon (que fazia a temporada regular pela equipe do texano). O veterano foi para a pista durante a classificação e, durante uma volta rápida, foi informado que Gordon havia batido. O patrão foi direto para os boxes e saiu do carro chorando. Foyt foi até a garagem e comunicou ao seu patrocinador que havia chegado a hora de parar.

“A luz verde estava acesa e eu pensava: AJ, você vai entrar fácil nessa corrida, quando eu vi a luz amarela acender, sabia que havia acontecido um acidente. Quando vi que era meu piloto, aquilo me acertou. Acredite em mim, aquilo não foi acertado. Tudo aconteceu em cerca de 10 minutos – bang, bang, bang, bang. Em toda minha vida eu fiz coisas no calor do momento, então aquele era o real AJ.”, declarou o texano.

Aos 56 anos, Foyt deixava o ofício de piloto com uma carreira irrepreensível. Foram sete títulos e 67 vitórias. Nunca nenhum piloto em qualquer era da Indy (AAA, USAC, CART, IRL, Champ Car ou IndyCar Series) teve números tão expressivos. Não à toa, o texano foi autorizado a dar uma última volta com seu carro, sendo saudado pelas equipes e pelo público.

Apesar de pendurar o capacete, o texano seguiu na categoria, agora na função de dono de equipe. A participação da escuderia nos anos seguintes foram discretas, sem resultados marcantes.

Para a temporada de 1996, a cisão entre a CART e a Indy Racing League (IRL) dividiu a categoria em duas frentes. De um lado, aqueles que queriam transformar a Indy em uma categoria mundialmente forte dentro e fora das pistas; do outro, aqueles que desejavam manter as raízes do automobilismo norte-americano, numa competição acessível. Foyt se juntou a categoria criada por Tony George e ficou do lado da IRL.

Nos primeiros anos da nova competição, a A.J. Foyt Entreprises tornou-se uma das principais equipes, com dois títulos de pilotos para Scott Sharp em 1996 (dividido com Buzz Calkins, da Bradley) e em 1998 com o sueco Kenny Brack. O escandinavo também ganhou as 500 milhas de Indianapolis em 1999, sendo o único até o momento conquistado pelo carro da equipe do texano sem ser pilotado pelo próprio Super Tex.

Foyt também teve seus momentos polêmicos. O mais curioso foi em 1997, na etapa do Texas. O chefe de equipe chegou a celebrar a vitória de Billy Boat no fim da prova, mas o resultado foi contestado por Arie Luyendyk. O Holandês Voador (que nada tem a ver com aquele personagem do Bob Esponja) reclamou muito alegando um erro na cronometragem. Então, Foyt resolveu tratar a questão com a diplomacia típica de um velho texano, conforme vídeo abaixo:

Posteriormente, a IRL reconheceu que errou nos cálculos e reconheceu Luyendyk como vencedor da etapa. No entanto, Foyt se recusou a devolver o troféu da prova (e segue com ele guardado em sua casa até hoje). Restou aos organizadores prepararem uma réplica para entregar ao holandês.

Os tempos de vacas gordas da equipe texana novamente cessaram na medida em que escuderias tradicionais trocavam a CART pela IRL, como Penske, Ganassi, Andretti-Green e Rahal. Desde 2000, a Foyt celebrou apenas duas vitórias (o brasileiro Airton Daré no Kansas, em 2002, e o japonês Takuma Sato em Long Beach, em 2013, quando a categoria já havia sido novamente unificada).

Leist, Foyt e Kanaan, o 2018 da escuderia Fonte: Tony Kanaan Facebook

Hoje em dia, aos 83 anos, Foyt segue como dono da sua equipe, mas até por questões de saúde, a escuderia tem sido mais tocada pelo seu filho adotivo Larry. Para 2018, a escuderia aposta em uma dupla brasileira para ter resultados mais consistentes: o baiano e experiente Tony Kanaan, junto com o gaúcho e estreante Matheus Leist. Com as mudanças atuais e iminentes na categoria, fica a esperança para a escuderia recuperar os dias de glória do Super Tex.

Fontes: Champ Car Stats, Indy Center Brasil, Rodrigo Mattar, Wikipédia

Eduardo Casola

Sou formado em jornalismo pela Uniso, torcedor do Corinthians e adoro esportes, especialmente automobilismo!