Uma estréia dos sonhos no verão argentino, e os brasileiros superando os limites – Dia 233 dos 365 dias dos mais importantes da história do automobilismo

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As temporadas de Fórmula 1 na década de 1970 tinha o costume de se iniciar logo cedo, no primeiro mês do ano. A tradição englobou provas na América do Sul. Brasileiros e argentinos tiveram o deleite de ver os carros e as disputas daquela época no auge do verão no hemisfério sul. Se para o público, era um divertimento, para os pilotos e as equipes, era um verdadeiro teste de resistência.

Este era o cenário para as 53 voltas no Autódromo Juan y Oscar Galvez, em Buenos Aires, no dia 9 de janeiro de 1977. Com um sol escaldante (a temperatura do asfalto batia nos 53° C) a Fórmula 1 retomava suas atividades após uma intensa temporada no ano anterior.

Corrida literalmente quente. Fonte: GP Expert

Para aquela prova, o então atual campeão da categoria, James Hunt, largara da pole position a bordo da McLaren número 1. Ao seu lado, o norte-irlandês John Watson, correndo pela Brabham Alfa Romeo. Na segunda fila, vinham Patrick Depailler (Tyrrell) e Niki Lauda (Ferrari); já na terceira, a segunda McLaren, com Jochen Mass e a outra Brabham, com o brasileiro José Carlos Pace.

Watson largou melhor e iniciou a prova na dianteira, sempre seguido por Hunt. No entanto, a liderança não durou muito, com o piloto da McLaren assumindo a dianteira na décima volta. Na sequência vinham Lauda, Mario Andretti (com o Lotus 78, primeiro carro a usar os conceitos do carro-asa), Mass, Pace e o piloto da casa, Carlos Reutemann, correndo oficialmente como segundo piloto da Ferrari.

Com a sucessão das voltas e o calor intenso, logo os problemas começaram a se acumular. Lauda e Mass (além de Ingo Hoffmann, da Copersucar) abandonaram com problemas de motor, Depailler teve problemas de superaquecimento e Hunt se acidentou após a quebra da suspensão de seu carro. Reutemann rodou devido a um furo de pneu e precisou fazer uma longa parada nos boxes, mas destes, foi o único a seguir na prova.

José Carlos Pace (BRA) Brabham BT45 suportou fisicamente como pôde no Argentinean Grand Prix, Rd1, Buenos Aires Fonte: Diário Motorsport

Com isso, a Brabham fazia 1-2 com Watson e Pace. No entanto, o britânico já sofria com problemas de suspensão e perdia terreno. Assim, o brasileiro assumia a ponta na volta 35. Andretti seguia em terceiro, mas diante do festival de abandonos, outras surpresas apareciam na zona de pontos. Na briga pelo quinto lugar estavam Clay Regazzoni, com a Ensign, e Emerson Fittipaldi, na sua Copersucar. E o mais incrível: no quarto lugar (com o carro mais rápido da pista naquele momento), estava Jody Scheckter, que pilotava o carro da Wolf, equipe estreante daquela temporada.

Abre parênteses: O empresário do petróleo austro-canadense Walter Wolf era um entusiasta de automobilismo e esteve envolvido com a Frank Williams Racing Cars em 1976, mas adquiriu totalmente a escuderia no fim do ano, dispensando o sócio da empreitada (Depois de expulso do próprio projeto, Frank montou uma nova equipe, sendo esta a tradicional Williams que nós conhecemos)

O belo WR1 Fonte: Stats F1

Tendo o controle da operação, o magnata investiu pesado em nomes presentes na categoria: Peter Warr (ex-braço direito de Colin Chapman na Lotus) era o chefe de equipe; Harvey Postlethwaite, engenheiro ex- Hesketh, era o projetista responsável pelo WR1, o belo carro preparado para a temporada de 1977. O piloto que conduziria o único bólido da escuderia seria o sul-africano Jody Scheckter, egresso da Tyrrell. Fecha parênteses.

De volta a corrida, Watson abandona definitivamente e a corrida fica com o domínio de Pace, mas a ameaça passava a ser Scheckter, que assumia o segundo lugar ao passar Andretti. Se o carro da Brabham ainda aguentava o tranco, o mesmo não dava para falar do corpo do piloto brasileiro, pois sofria com uma virose e uma forte desidratação, aguçadas pelo calor intenso do verão argentino.

Scheckter e sua Wolf sobreviveram e surpreenderam Fonte: Tumblr

Pace bem que tentou, mas não conseguiu segurar o ritmo do sul-africano, que fez a ultrapassagem por fora na volta 48 (a seis do fim), partindo para uma surpreendente vitória. Andretti podia tentar se aproximar de Pace, mas o seu Lotus teve problemas de rolamento a dois giros do fim. (O ítalo-americano ainda ficou classificado como o quinto, à frente de Regazzoni)

O sul-africano saúda o público após sua vitória Fonte: Tumblr

Assim, Scheckter seguiu em frente para uma histórica vitória. Afinal, pela terceira vez, uma equipe estreante venceu na sua corrida de debute. Marca obtida pela Alfa Romeo com Giuseppe Farina no GP da Inglaterra de 1950 (embora fosse a primeira corrida de campeonato da F1 na história) e da Mercedes com Juan Manuel Fangio no GP da França de 1954. A marca só seria repetida em 2009 com o triunfo da Brawn GP na etapa da Austrália conquistada por Jenson Button.

Apesar do sufoco físico, Pace ainda salvou o segundo lugar antes de ser hospitalizado. Este resultado acabou sendo o último pódio de sua carreira (abreviada após o acidente de avião em 18 de março), seguido de perto por Reutemann, para festa do público presente ao circuito portenho.

Emerson e a Copersucar também tiveram motivos para sorrirFonte: Coopersucar

Apesar de ficar fora do pódio, o quarto lugar acabou sendo um resultado bem feliz para Emerson Fittipaldi, pois a Copersucar conquistava seu melhor resultado até então, alimentando as esperanças de um crescimento da equipe brasileira (Posteriormente, a Wolf foi incorporada pela equipe brasileira, inclusive com Warr e Postlethwaite trabalhando dentro da operação).

Melhores momentos da prova:

Fontes: Stats F1, Continental Circus, Contos da F1, Rodrigo Mattar, Grande Prêmio e GP Expert

Eduardo Casola

Sou formado em jornalismo pela Uniso, torcedor do Corinthians e adoro esportes, especialmente automobilismo!

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