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SÉRIE CIRCUITOS DA F1: Brooklands

A história do circuito de Brooklands começou com o empresário Hugh Locke King e sua mulher Ethel, que viajaram para a Itália de férias em 1905. Assistindo à corrida Coppa Florio, eles perceberam que não tinha nenhum competidor britânico. O motivo: uma proibição de se correr em ruas públicas, o que deixava o país atrasado em relação aos demais.

Ethel e Hugh Locke King, que tiveram a ideia de transformar as terras da família em um circuito. Foto: reprodução

Locke King, tinha herdado terras em Weybridge, muito próximo da estação de trem, o que seria ideal para a construção de uma pista de corrida. O desenho do circuito ficou a cargo do engenheiro Coronel Henry Capel Lofft Holden e a princípio, teria um traçado simples. Mas Holden sugeriu o uso de bankings, que aumentariam a velocidade da pista. Cerca de 1.500 operários trabalharam na construção do circuito, que ficou pronto em nove meses. 

Foram nove meses de trabalho até o circuito ficar pronto. Foto: reprodução.
Foram retirados cerca de 23 mil metros cúbicos de terras, 12 hectares de floresta foram derrubados, o rio Wey foi deslocado em dois lugares e ainda foram usados 200 mil toneladas de concreto na construção do circuito. Foto: reprodução

Por conta da altura de 10 metros dos bankings, a pista de 4,453 km de extensão recebeu uma grossa camada de concreto, o que com o tempo, deixou a pista extremamente ondulada. 

Quando cedeu suas terras e se prontificou a construir a pista, King não imaginou que isso iria o levar à falência. Até seus familiares tiveram que emprestar dinheiro para terminar as obras, que ficaram a cargo de Ethel, que assumiu o controle da construção do circuito no lugar do marido, que estava com a saúde debilitada.

Vista aérea de Brooklands na época de sua inauguração. Foto: reprodução

No dia 17 de junho de 1907, o circuito foi inaugurado com Ethel liderando uma carreata pela pista. 

A também pilota Ethel Locke King liderou uma carreata na inauguração da pista. Ela chegou a competir em 1908, em uma corrida só para mulheres realizada no circuito. – Foto: reprodução

O Brooklands Automobile Racing Club (BARC) ficou responsável por gerenciar o circuito. No dia 28 de junho, o piloto Selwyn Edge e seu mecânico Joseph Blackburn, buscaram quebrar o recorde de velocidade, correndo por 24 horas seguidas, usando sinalizadores e lanternas para poder ver o traçado durante a noite. A dupla alcançou seu objetivo e atingiu uma velocidade média de 65,09 mph (104,75 km/h), recorde que se manteve por 18 anos. 

Selwyn Edge e seu mecânico, durante um pit stop em sua tentativa de quebrar o recorde de velocidade. Foto: reprodução

A primeira corrida oficial aconteceu no dia 6 de julho de 1907, tendo H.C.Tryon como vencedor do Marcel Renault Memorial Plate. A corrida, no entanto, não agradou ao público, já que não tinha regras muito definidas, o que dificultava o acompanhamento do evento. 

H.C.Tryon, durante o Marcel Renault Plate, na primeira corrida oficial em Brooklands. Foto: reprodução

A situação só melhorou quando Albert V. Ebblewhite instalou um sistema elétrico de acompanhamento dos carros, que passaram a ser numerados. A pista começou a fazer sucesso e a ser usada com mais frequência, inclusive pelo Royal Automobile Club (RAC). Com os carros ainda sendo caros, as motos também se aproveitaram de Brooklands e fizeram sucesso no circuito. 

Em 1909, o destino do circuito começou a mudar. O major Lindsay Lloyd substituiu o Conde Rodakowski como administrador do circuito. Com os aviões começando a alçar voos na Inglaterra, o aviador francês Louis Paulham foi convidado a repetir uma apresentação especial, dessa vez sobrevoando Brooklands, que ganhou um aeródromo dentro da pista, além de hangares na parte interna do Byfleet banking, formando a Flying Village. O sucesso da aviação foi tão grande, que logo Brooklands passou a ser mais visitada pelos entusiastas do ar, com escolas de aviação abrindo no local e até uma agência de venda de passagens.

Escritório de vendas de passagem, que se encontra preservado no Museu Brooklands. Foto: arquivo pessoal

Os militares também ficaram interessados em Brooklands e mandavam seus aspirantes a pilotos para as escolas de aviação para o treinamento básico. Brooklands e seus hangares também serviram como linhas de montagens de aviões.

Quando a Inglaterra declarou guerra aos alemães em agosto de 1914, Locke King colocou Brooklands à disposição do governo. Os militares tomaram conta do lugar, usando as instalações para teste e fabricação de aviões e treinamento de pilotos. 

Assim como aconteceu nos demais circuitos da Europa. Brooklands também sofreu com os efeitos da guerra e precisou de uma reforma depois que a Primeira Guerra Mundial terminou, em 1918. Foi só em abril de 1920 que as corridas voltaram a acontecer, com Malcolm Campbell vencendo a primeira corrida realizada pós-guerra. 

Durante os anos 1920, Brooklands voltou a fazer sucesso, oferecendo todo tipo de corrida, como uma corrida para carros leves em 1923, buscando atrair público e pilotos, inclusive os motociclistas, que começavam a fazer corridas mais longas. Brooklands também foi palco de um evento histórico. No dia 28 de abril de 1921, Douglas H. Davidson, por coincidência pilotando uma moto Harley Davidson, foi a primeira pessoa a passar as 100 mph (cerca de 160,93 km/h) em uma moto na Inglaterra. 

Coincidências do destino: apesar de não ter nada a ver com os criadores da Harley Davidson, Douglas H. Davidson usou um modelo da marca para bater recorde. Foto: reprodução

Em 1926, um novo layout foi usado principalmente para as motos, chamado de Mountain Course, que pegava a linha de largada/chegada, passava pelo Members Banking e voltava novamente para a reta principal.

Usado principalmente para as motos, o Mountain Circuit tinha 1,880 km de extensão. – Foto: reprodução

Foi também no dia 7 de agosto de 1926 que Brooklands recebeu o Primeiro Grande Prêmio da Grã-Bretanha, com os pilotos correndo no sentido anti-horário no traçado chamado de Grand Prix, com chicanes colocadas na reta principal.

Traçado Grand Prix, com 4,210 km de extensão. Para o Grande Prêmio da Grã-Bretanha, foram colocadas chicanes na reta de largada/chegada. Foto: reprodução

Só que a corrida foi um fiasco, com apenas nove participantes largando. No final, Robert Sénéchal e Louis Wagner foram os vencedores com a Delage 155B, completando 110 voltas em 4h00m56.2s.

 

Robert Sénéchal e Louis Wagner, vencedores do 1º Grande Prêmio da Grã-Bretanha, em 1926. Foto: reprodução
Carro Delage, modelo que venceu o primeiro Grande Prêmio da Grã-Bretanha, em 1926 e hoje está exposto no Museu Brooklands. Foto: arquivo pessoal

A corrida se repetiu em outubro de 1927, com a vitória de Robert Benoist pilotando um Delage. Assim como aconteceu no ano anterior, a corrida não fez sucesso e o Grande Prêmio da Grã-Bretanha só foi retomado em 1948, já no circuito de Silverstone. 

Brooklands passou a receber corridas de endurance, empolgados com o sucesso de pilotos britânicos nas 24 Horas de Le Mans. O circuito chegou a receber uma corrida de 24 Horas em 1929, mas como não tinha condições de receber corridas à noite, foram feitas duas baterias de 12 horas, com os carros pernoitando em parc ferme. As corridas de endurance animavam os pilotos, mas não o público e logo deixaram de ser disputadas no circuito, que voltou a ser focar nas corridas mais curtas e também se tornou o lugar ideal para testes de carros para possíveis compradores, com uma faixa para testes de freios e subida sendo construída.

Ao lado direito da foto, é possível ver uma faixa em subida, que foi construída para testar os carros, principalmente os freios. Foto: reprodução

Outra atividade que foi retomada após a Guerra foi a escola de aviação, que com novos donos, começou a fazer sucesso, criando até incentivos para empresários fazerem aulas durante o horário de almoço, já que Brooklands está a uma curta distância de trem do centro de Londres. Os hangares também estavam ocupados com a produção de aviões de guerra, principalmente nos anos 1930. 

Em 1936, Ethel King, já viúva, vendeu o circuito para a Brooklands Ltd, que tinha Malcolm Campbell, um dos pilotos mais ativos no circuito e que chegou em segundo no 1º GP da Grã-Bretanha, entre os diretores. Em 1937, foi inaugurado o traçado Campbell, que por ser mais tradicional, podia brigar por atenção com o circuito de Donington. 

Sir Malcolm Campbell, que estava sempre presente nas corridas em Brooklands, até virar diretor e criar o traçado que levou seu nome. Foto: reprodução
Vista aérea de Brooklands, no qual é possível ver o traçado Campbell no meio do oval original. Foto: reprodução
Desenho do circuito de Brooklands em 1938, com o circuito Campbell no mapa. Foto: reprodução

A estreia aconteceu com o Troféu Campbell sendo vencido pelo Príncipe Bira, pilotando uma Maserati, depois que Lord Howe bateu no parapeito da ponte que cruzava o circuito enquanto brigava pela liderança. O circuito também passou a ser famoso entre os ciclistas, que passaram a disputar campeonatos em Brooklands, além das motos, que sempre disputaram corridas no circuito.

Quando a Segunda Guerra Mundial começou, em 1939, Brooklands foi solicitada pelo governo, que plantou árvores nos bankings e pintou a pista, tentando esconder o local dos inimigos. 

Os bankings foram encobertos para esconder o local dos inimigos. – Foto: reprodução

A construção de aviões de guerra se intensificou em Brooklands e mesmo com os disfarces, o circuito não escapou dos ataques alemães, como um ocorrido em setembro de 1940, que matou 85 trabalhadores e feriu mais de 400. 

Fabricação de aviões Vickers durante a Segunda Guerra Mundial. Foto: reprodução

Quando a Guerra acabou, a pista de Brooklands estava muito destruída para ser usada sem antes passar por uma reforma. Mas o alto preço da obra, aliada à proibição do Ministro da Força Aérea de deixar pessoas acessarem a área, acabou com as chances das corridas em Brooklands, que foi vendida para a Vickers Armstrong, fabricante dos aviões Vickers, que passou a fabricar também aviões para transporte de passageiros. Para facilitar o trânsito de aviões, uma parte do Byfleet Banking foi destruída, acabando de vez com a chance das corridas serem retomadas. 

A Vickers, que produzia aviões de guerra e de transporte de passageiros, acabou comprando Brooklands e acabou com as chances de retomada da pista. Foto: reprodução

Nos anos 1960, Brooklands fez um acordo com a companhia francesa Sud Aviation para a construção do Concorde, avião supersônico, que foi o último modelo de avião construído no local.

Brooklands era o único lugar da Inglaterra que tinha espaço para a construção do Concorde. Um dos aviões construídos no local hoje está exposto no Museu Brooklands. Foto: arquivo pessoal

Em 1967, o editor da Motorsport William Boddy, fundou a Brooklands Society, fazendo algumas reuniões com os antigos frequentadores do circuito. O grupo foi crescendo e alguns membros resolveram limpar a área do traçado externo, com Kenneth Evans, que costumava correr na pista, liderando um grupo de voluntários para preservar o que restou da pista e dos prédios antigos. Nos anos 1980, os 16 hectares do circuito iam ser vendidos pela British Aerospace, mas vendo o valor histórico do lugar, o Elmbridge Council, junto com a Gallagher Limited, fez um acordo de aluguel de 12 hectares por 99 anos, que incluía os prédios históricos, que foram transformados no Museu de Brooklands, que foi inaugurado em 1991 e reúne uma vasta coleção de carros e aviões antigos, assim como pedaços dos bankings.  

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A parte interna do circuito foi vendida em 2004 para a DaimlerChrysler UK Retail, que construiu o Mercedes-Benz World, que conta com uma pista de teste construída na frente do que restou do traçado Campbell. Outras partes da pista também estão sob proteção e com acesso restrito. 

Mapa de onde seria o traçado do circuito Campbell e hoje abriga a Mercedes-Benz World. Foto: reprodução
A faixa mais clara acima do círculo era parte do traçado Campbell e que foi preservado durante a construção do Mercedes-Benz World. Foto: reprodução

Foto mostra onde estaria o traçado de Brooklands atualmente. Foto: reprodução.

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Denise Vilche

Uma revista antiga sobre carros fez nascer uma paixão: a F1. Uma menina curiosa de oito anos queria saber quem eram aqueles tais de Senna, Piquet, Mansell e cia. que a revista mostrava em gráficos coloridos. E mais de 30 anos depois, essa menina, agora jornalista, continua mais apaixonada pela F1 do que nunca.

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