Peter Collins, playboy e gentleman | Boletim do Paddock

19 de Julho – Peter Collins, playboy e gentleman – Dia 59 dos 365 dias mais importantes da história do automobilismo – Segunda Temporada.

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Peter John Collins nasceu no dia 06 de novembro de 1931 em Kidderminster, uma cidade localizada no centro da ilha britânica, na região de Birmingham. Filho de um dono de garagens, foi natural o interesse pelos automóveis. Aos 16 anos, após o fim da guerra, foi expulso da escola por matar aulas e se tornou aprendiz de mecânico no negócio paterno. Também começou a participar de corridas de automóvel, no embrião da Fórmula 3 da época.

Em 1951, começou a ganhar algumas provas e a ficar conhecido no circuito. Passou a ser convidado para as festas e em uma delas conheceu o chefe de equipe da Aston Martin, John Wyer. Bom de papo, Peter vendeu a si mesmo de maneira eficiente e garantiu presença em um teste em Silverstone, patrocinado pela Aston e pela equipe de Fórmula 2 inglesa HWM. Assinou contrato com ambas.

A HWM não era grande coisa, seu maior problema era a confiabilidade. Collins era rápido, mas o carro durava menos que a corrida. Ainda assim, no ano seguinte, subiu um degrau dentro da firma e assumiu o posto da equipe na Fórmula 1, no assento que era de Stirling Moss. Foram dois anos de sofrência e Peter sequer podia ajudar, pois mesmo com seu estágio nas garagens do pai não entendia absolutamente nada de mecânica. Ele pegava o carro do jeito que os engenheiros deixavam e pisava fundo.

A vida não se resumia aos Fórmula e com a Aston o negócio era diferente. Collins frequentemente conseguia bons resultados: uma vitória na Irlanda, pelo Troféu Turismo da RAC, um segundo lugar nas 9h de Goodwood, um terceiro nos 1.000 km de Buenos Aires. Em 1955, sem conseguir um assento para toda a temporada da F1, focou ainda mais e faturou um vice em sua classe nas 24h de Le Mans e, ao lado de Moss e a bordo de um Mercedes 300 SLR, venceu a Targa Florio, o que mudaria sua vida.

Na Ferrari, com o patrocínio do Boletim do Paddock logo atrás. Fonte: Corradi F1

Seu desempenho na corrida favorita do Comendador fez com que Enzo Ferrari o convidasse para ser um piloto de Maranello. Aos 24 anos corria ao lado de pilotos como Juan Manuel Fangio e Wolfgang von Trips. E não fez feio: com vitórias nos GPs da Bélgica e da França, além de um segundo lugar no GP de Mônaco, partilhando o carro com Fangio.

Cabe agora um parêntese importante para a história que vem a seguir: na década de 50, era comum pilotos partilharem seus carros; se houvesse um problema com um deles, outro assumia o volante e os pontos que o carro ganhasse eram divididos entre eles. Normalmente, no início das provas, a equipe montava as escalas.

Por que isso é importante? Porque ao chegar na última prova do campeonato, justamente o GP da Itália, a situação era a seguinte: Fangio era o líder com 30 pontos e Peter Colins dividia a vice liderança com o francês Jean Behra, da Maserati, ambos com 22. Com a vitória valendo 9 pontos e o segundo lugar 6, bastava a Fangio uma sexta colocação para garantir o tetracampeonato. O Maestro ainda largou em primeiro, com Collins partindo de um longínquo sétimo lugar. Mas, na volta 18, um problema com o líder: Fangio estava com a barra de direção danificada e precisou entregar o carro nos boxes. Collins estava em terceiro, atrás de Moss e da Ferrari de Luigi Musso. Mas Musso estava escalado para trocar de carro com o argentino e se a Maserati de Moss falhasse (Behra já tinha abandonado por problema mecânico), Collins poderia ganhar o título.

Acontece que, mesmo com o patrão acenando desesperado à beira da pista, Musso recusou-se a parar e ceder o carro para o companheiro. Pouco depois Peter Collins entra nos boxes para reabastecer, vê o desespero e o tumulto instalado entre os italianos, faz sinal para Fangio e sai do carro. O argentino pega a Ferrari número 26 e termina a prova em segundo lugar, garantindo seu quarto título de piloto.

Mesmo com as pequenas chances de vitória, a atitude do inglês impressionou a todos, principalmente ao patrão Enzo Ferrari, que transferia o afeto que tinha pelo falecido filho Dino ao jovem piloto de sua equipe. Quando perguntado porque havia feito aquilo por vontade própria, Collins, disse: “sou muito jovem, tenho tempo para ganhar outros campeonatos”. Não tinha.

Collins, Fangio e Hawthorn. Fonte: Projeto Motor

No ano seguinte, Fangio foi para a Maserati e a Ferrari contratou Mike Hawthorn para seu lugar. Conterrâneos e contemporâneos, Mike e Pete viraram o Batman e o Robbin da Scuderia. A amizade se tornou tão grande que ambos combinaram de dividir todas as premiações que conseguissem, e Hawthorn foi padrinho do casamento de Peter Collins com a atriz americana Louise King.

Pete e Mike, BFF. Fonte: Continental Circus

Collins e King foram viver em um iate ancorado às margens de Monte Carlo, e em 1957 aquele era o endereço das festas do principado. A afeição do Comendador, que desaprovava o casamento com “uma divorciada”, foi caindo junto com os resultados de Collins, que estava mais focado na farra do que nas pistas. A gota d’água foi nas 24h de Le Mans de 1958 quando, para não correr sob chuva, Peter danificou de propósito a embreagem do carro. A fúria de Enzo Ferrari completou-se quando ficou sabendo que Collins foi visto bebendo em um pub londrino antes mesmo do final da corrida. Mandou demitir o piloto sumariamente.

Porém o coração mole e o instinto paternal falaram mais alto e Enzo mandou dizer que se ele quisesse um carro de Fórmula 2 para correr o GP da França, poderia participar. Mike Hawthorn tomou as dores do parceiro e, achando que aquilo seria uma humilhação, foi até Maranello, trancou-se no escritório com o patrão e saiu de lá com a garantia de que o amigo teria as mesmas condições.

Nesta prova da França, o terceiro piloto da equipe perdeu a vida. Luigi Musso, que sentia-se excluído pela amizade entre os dois ingleses e, dizem, sem dinheiro para honrar dívidas de jogo, correu mais do que o carro, perdendo o controle e sendo ejetado do cockpit. A namorada de Musso, Fiamma Breschi, contou depois que ao voltar para o hotel viu Peter e Mike jogando futebol com uma lata, e, como diriam se estivessem antenados com os memes na sua língua, “zero fucks were given that day”.

Vitória em Silverstone. Fonte: Projeto Motor

A prova seguinte aconteceu em Silverstone, há exatos 60 anos, no dia 19 de julho de 1958 (e finalmente vocês descobriram porque eu pude contar essa história hoje). Correndo em casa, Peter Collins fez o que ficou conhecida como a melhor corrida de sua carreira. Rob Walker, dono de equipe, disse que sua pilotagem foi assustadora e que ninguém nunca mais deveria dirigir daquele jeito. Após 75 voltas o inglês garantiu sua terceira vitória na carreira, 24 segundos à frente do companheiro de equipe e parça Hawthorn.

Infelizmente, foi o canto do cisne. Na corrida seguinte, em Nürburgring, enquanto perseguia a Vanwall de Tony Brookes, Collins fez a Pflanzgarten muito aberta, encontrou uma vala à beira da pista e seu carro perdeu o controle, capotando e jogando-o de encontro a uma árvore, num acidente bastante parecido com o que ceifou a vida de Musso. Peter ainda foi levado ao hospital, mas não resistiu aos ferimentos e morreu naquele dia, com apenas 26 anos. Hawthorn não se conformou, e avisou que abandonaria a Fórmula 1 ao final daquele ano, ganhando ou não o campeonato. Venceu e abandonou (e acabou falecendo em um acidente pouco depois, em janeiro do ano seguinte.

Peter Collins tinha talento para ter sido campeão do mundo, e quase o foi, mas preferiu ajudar Fangio a tornar-se uma lenda.

lll FORA DAS PISTAS

Fazem anos hoje Brian May, astrofísico britânico e ex-guitarrista do Queen e Benedict Cumberbacth, que já foi Sherlock, Smaug e Strange nos cinemas.

E, em 1954, num dia 19 de julho, a Sun Records anunciou ao mundo a chegada do rock and roll, ao lançar o single “That’s All Right”, cantado por um caminhoneiro chamado Elvis Presley.

Carlos Eduardo Valesi

Velho demais para ter a pretensão de ser levado a sério, Valesi segue a Fórmula 1 desde 1987, mas sabe que isso não significa p* nenhuma pois desde meados da década de 90 vê as corridas acompanhado pelo seu amigo Jack Daniels. Ferrarista fanático, jura (embora não acredite) que isto não influencia na sua opinião de que Schumacher foi o melhor de todos, o que obviamente já o colocou em confusão. Encontrado facilmente no Setor A de Interlagos e na sua conta no Tweeter @cevalesi, mas não vai aceitar sua solicitação nas outras redes sociais porque também não é assim tão fácil. Paga no máximo 40 mangos numa foto do Button cometendo um crime.