O sonho de Roland

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Por: Eduardo Casola Filho

lll Série 365: O sonho de Roland – 02ª Temporada: dia 344 de 365 dias.

Estar lado a lado com os maiores nomes da história do automobilismo é o sonho de todo garoto que começa a sua trajetória no esporte a motor.

O funil até chegar à Fórmula 1 é muito estreito. Para chegar lá, precisa de muito talento, de muito esforço e muito dinheiro.

Há trajetórias diversas para se chegar até lá. Algumas delas pouco ortodoxas, mas houve quem conquistou seu objetivo, custasse o que custar.

O sorriso de quem realizou um desejo (Continental Circus)

Roland Ratzenberger nasceu no mesmo ano que Ayrton Senna (1960), com a diferença de apenas 105 dias, uma vez que o austríaco veio ao mundo em 4 de julho daquele ciclo. No entanto, a história de ambos se entrelaçou de uma maneira completamente cruel.

Ao longo da sua carreira nas pistas, Ratz (como foi chamado entre seus colegas) teve um desempenho modesto. Alguns títulos de Fórmula Ford pela Europa, um punhado de vitórias em provas de monoposto na Inglaterra e no Japão, cinco participações nas 24 horas de Le Mans (com um quinto lugar geral em 1993, como melhor resultado), e um obscuro teste na Indy no começo da década de 1990.

O ponto alto foi em provas da Fórmula Ford na Inglaterra (Rodrigo Mattar)

Apesar de um currículo não tão chamativo, ainda era possível conseguir um assento de um carro de F1 naquela época. Na temporada de 1994, duas escuderias estavam estreando na categoria: a Pacific, tradicional time da F3000; e a Simtek, esta com uma história pra lá de excêntrica.

A Simulation Technology era uma empresa de aerodinâmica automotiva que teve como sócio nada menos que Max Mosley (que deixou a sociedade para assumir a presidência da FIA). A companhia comandada por Nick Wirth desenvolveu alguns chassis, com destaque para um obscuro projeto da BMW em ingressar à F1. Deste bólido, veio algumas das ideias mais bisonhas da história da categoria, como a claudicante Andrea Moda e a natimorta Bravo F1.

Após atuar como fornecedor para os malfadados projetos, era a hora da Simtek tentar limpar sua honra e tentar ela mesma ser uma equipe de F1. Com a benevolência do ex-sócio Mosley e com o apoio do lendário Jack Brabham, a escuderia nascia para a temporada 1994. O primeiro piloto seria David, filho mais novo do tricampeão mundial, mas a segunda vaga seria de quem pagasse mais.

Simtek: uma jabiraca com DNA (Globoesporte.com)

Ao ver que havia uma vaga aberta para estar na categoria máxima do automobilismo, Roland quis largar a vida estável que vivia no Japão para buscar o seu sonho de infância. O austríaco vendeu tudo o que tinha para comprar a vaga no segundo carro da Simtek. O dinheiro era suficiente para bancar apenas cinco corridas, mas o nome Ratzenberger estaria no mesmo grid que o de figuras como Ayrton Senna, Michael Schumacher, Mika Hakkinen, Damon Hill, Rubens Barrichello, entre outros.

A primeira participação de Roland foi em Interlagos. Com os frágeis S941 preto e violeta e com o patrocínio da MTV, o desempenho não agradou. O austríaco foi um dos dois pilotos a não se classificar para a etapa do Brasil. Talvez a “bênção” ofertada pelo cineasta Zé do Caixão acabou mais atrapalhando que ajudando.

Uma ajudinha não muito bem-vinda… (Almanaque da F1)

Na corrida seguinte, o GP do Pacífico, realizado em Aida, Ratzenberger se valeu da experiência na pista japonesa. Além de conseguir se classificar, o austríaco terminou a prova em 11º, cinco voltas atrás do vencedor, Michael Schumacher. Diante da situação, até foi uma boa atuação.

Então, veio o GP de San Marino. O ambiente estava carregado desde o grave acidente com Rubens Barrichello nos treinos de sexta-feira. O brasileiro saiu com alguns ferimentos, mas a sensação era que a F1 era segura e que o pior havia passado. Ledo engano.

No início da segunda sessão classificatória, realizada num sábado, 30 de abril de 1994, Roland foi para a pista para melhorar o 26º tempo e se garantir no grid de largada para a etapa de Ímola. Na primeira volta, o austríaco escapou da pista, mas conseguiu retornar. Como aparentemente, o carro estava inteiro, Ratzenberger foi para outra volta rápida. E aí a tragédia se sucedeu.

A Simtek S941 Ford entrou no trecho de alta velocidade que ligava a reta dos boxes até a freada da Tosa. O bólido roxo número 32 contornou a Tamburello e seguiu rumo à curva Villeneuve (aonde Gilles havia sofrido um forte acidente em 1980, o que deu origem ao nome do trecho).

De repente, as câmeras de TV mostram o carro completamente destruído se arrastando pela área de escape, com um enorme rombo na célula de sobrevivência e o piloto austríaco completamente inerte. No próprio capacete, já se via manchas vermelhas, indicando o sangue que vertia do corpo de Roland.

A equipe médica até foi rapidamente em direção ao piloto e tentou os procedimentos de resgate. O austríaco foi levado ao centro médico do circuito e depois ao Hospital Maggiore, em Bolonha. Porém nada mais poderia ser feito.

Enquanto ainda se tentava (em vão) reviver o piloto, as imagens da TV não tinham clareza sobre o impacto em si (anos depois, descobriu-se um vídeo da colisão feita por um espectador que estava naquele setor), mas a causa foi descoberta em outro ângulo: a asa dianteira da Simtek se soltou após sair da Tamburello. Sem resistência aerodinâmica, o impacto a mais de 300 km/h causou lesões graves em várias partes do corpo, especialmente no cérebro.

Aquela era a primeira morte em um fim de semana de Grande Prêmio desde o falecimento de Riccardo Paletti em 1982. Pilotos e equipes se mobilizaram para que a categoria melhorasse a segurança. Até o cancelamento da prova chegou se cogitado, mas os cabeças da FIA e da FOM barraram a ideia, mesmo com a mobilização partindo de Ayrton Senna. Bom, o dia seguinte trouxe um resultado ainda mais catastrófico e aquele acabou como o fim de semana mais trágico da história da modalidade.

Há quem diga que Roland é esquecido, já que a morte de Senna teve mais destaque. Bom, era natural que o passamento de um dos maiores nomes da história da F1 acabasse ganhando mais cartaz, vide o exemplo do próprio Paletti que falecera num período próximo ao de Gilles Villeneuve, e que acabou ofuscado.

Também cabe imaginar que, caso Ratzenberger tivesse cumprido suas cinco corridas e deixasse a F1 sem eira nem beira, acabaria como um simples reject, tal qual seus sucessores Andrea Montermini, Dommenico Schiatarella ou Jean-Marc Gounon.

Por fim, como o seu próprio túmulo diz “Er lebte für seinen Traum” (em alemão, “Ele viveu pelo seu sonho”). O austríaco arriscou tudo para realizar aquela que foi sua aspiração e, mesmo que tenha terminado sua trajetória da pior maneira, conseguiu ficar lado a lado com um dos grandes nomes de todos os tempos. Além disso, a perda de ambos foi um marco para a evolução na segurança do automobilismo nos anos seguintes.

Roland Ratzenberger foi uma vítima do destino, mas realizou o seu sonho.

Um sonho que durou pouco, mas que ficou para a eternidade (Continental Circus)

Fontes: Continental Circus, Almanaque da F1, Bandeira Verde, Globoesporte.com, Projeto Motor

lll A Série 365 Dias Mais Importantes do Automobilismo, recordaremos corridas inesquecíveis, títulos emocionantes, acidentes trágicos, recordes e feitos inéditos através dos 365 dias mais importantes do automobilismo.

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Eduardo Casola

Sou formado em jornalismo pela Uniso, torcedor do Corinthians e adoro esportes, especialmente automobilismo!