O Rei da Montanha

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| Por: Carlos Eduardo Valesi

lll Série 365: 27 de Dezembro – O Rei da Montanha – 02ª Temporada: dia 219 de 365 dias.

Em 27 de dezembro de 1900, Hans Stuck nasceu. Nascido em Varsóvia, na Polônia então ocupada pela Rússia, enquanto seus pais estavam em uma viagem, o neto de suíços foi criado desde sempre na Alemanha, que ele considerava seu país natal.

Hans sempre foi impulsivo. Convocado para defender a Alemanha em 1917, foi para a guerra junto com seu irmão. Infelizmente Walter, o mais velho, foi morto durante um ataque da artilharia, junto com o comandante do pelotão em que os Stuck estavam. Hans foi dispensado, por ser o único filho remanescente, e no caminho de volta para casa resolveu parar para contar aos pais do comandante Hahndorff que seu filho tinha sido um bom soldado. Saiu de lá casado com a irmã dele.

Fonte: ruiamaraljr.blogspot

Aos 22 anos, Hans e Ellen tinham uma propriedade rural ao sul de Munique, onde criavam vacas leiteiras. Pela manhã, após a ordenha, Hans saía com seu automóvel para fazer as entregas, e logo criou um jogo para si mesmo: ele queria saber o quão rápido conseguiria ir nas estradas rurais da região. Se os compradores gostavam de receber manteiga batida eu não sei, mas os amigos de Hans perceberam que ele era bom de braço, e o convenceram a entrar em um automóvel clube local. Logo o inscreveram em uma prova de subida de montanha em Baden-Baden, e Stuck amealhou a primeira de suas inúmeras vitórias nesta categoria.

Ele também conheceu outros pilotos, inclusive um que trabalhava como chofer e tornou-se um grande amigo. Julius Schreck sempre ia à propriedade dos Stuck para caçar, e em uma destas oportunidades perguntou se poderia levar o chefe dele, que era político, consigo. Hans disse que não havia problema, e acabou conhecendo Adolf Hitler, com quem manteria contato durante o resto de sua vida.

Nesse meio tempo, sua habilidade o levou a ser contratado como piloto profissional da Austro-Daimler, não apenas para subidas de montanha, mas também participando de circuitos regulares, como o GP da Alemanha de 1927, além de outras provas no legendário AVUS. Infelizmente, a vida de piloto era agitada demais para a pacata Ellen, e ambos se separaram. Em 1931, com a Daimler abandonando as competições, Stuck conseguiu um lugar nas flechas prateadas da Mercedes. Carro novo, casamento idem: após conhecer a famosa tenista Paula von Reznicek, Hans a cortejou até que conseguiu casar com a beldade em 1932.

No ano seguinte seu chapa Adolf tornou-se chanceler alemão, e quis que o país demonstrasse superioridade nas pistas. Sua ideia era patrocinar a Auto Union,, mas foi convencido a dividir o dinheiro com outro engenheiro que estava construindo carros rápidos, um tal de Ferdinand Porsche. Hitler apresentou Porsche para Stuck, e uma parceria de sucesso começava. No dia 6 de março de 1934, na suicida AVUS, Stuck correu as 100 milhas em 44min31s, um recorde mundial obtido em um carro da Auto Union, porém construído por Ferdinand. No mesmo dia, bateu também o recorde das 200 milhas, e tornou-se o homem mais rápido do mundo ao atingir pela primeira vez uma velocidade média de 217 km/h.

Hans Stuck sai na frente no Rio.
Fonte: ruiamaraljr.blosgpot

Com outro carro feito especialmente para corridas de montanha, com motor traseiro, Stuck conquistou o campeonato europeu de subida de montanha, ganhando o apelido de “Bergkönig”, ou Rei das Montanhas. Só que, aqui embaixo, nas pistas, Hans também venceu os GPs da Alemanha, Suíça e Checoslováquia, além de chegar em segundo na prova da Itália. Se houvesse um campeonato mundial, o título seria dele. No ano seguinte, tornou-se bicampeão em subidas de montanha, sendo considerado praticamente imbatível. Nesta época ele também era figura conhecida por aqui, participando de vários eventos no Rio de Janeiro pela Porsche.

Stuck estava interessado em aumentar a velocidade, sempre. Vivia quebrando recordes, mas quando declinou da chance de fazê-lo a fortuna lhe sorriu. Hans estava presente no dia 28 de janeiro de 1938 em uma autobahn entre Frankfurt e Darmstadt, quando as montadoras alemãs tentaram ir mais rápido ainda. Rudolf Caracciola foi antes, pilotando uma Mercedes, e ao sair do carro disse para Stuck: “Não corra agora, o vento está muito forte, está difícil de controlar o carro.” Sem saber se era verdade ou se o adversário estava apenas tentando fazê-lo desisitir, Hans preferiu não correr. “Senti medo, pela primeira vez na vida”, e teria dito depois. Em seu lugar a Auto Union colocou seu companheiro de equipe, Bernd Rosemeyer. O piloto, também várias vezes campeão, perdeu o controle do carro e a vida naquele dia.

Com a eclosão da guerra, os planos de recordes ficaram para trás. Hans se preocupava em defender a esposa, que era neta de judeus, e apenas os conhecidos no alto escalão nazista os protegeram naquela época. Hans sempre esteve do lado de Paula, mas já tinha conhecido Christa Thielmann, noiva do irmão mais novo de sua esposa. Depois que o conflito (e o perigo para os judeus) terminou, Hans separou-se outra vez para casas com a concunhada, em 1948. Nessa mesma época adquiriu cidadania austríaca para escapar do banimento dos alemães em provas oficiais, e participou da equipe de Alex von Falkenhausen na Fórmula 2, embora com pouco sucesso. Participou de três provas da Fórmula 1, o GP da Suíça em 1952 e os GPs da Alemanha e Itália de 1953, pela AFM. Abandonou os dois primeiros e chegou em 14º no último.

Herr Stuck.
Fonte: f1grandprixdriversclub

Ainda faltava algo para terminar a carreira, e Stuck, cinquentão, continuava subindo morros, primeiro com um Porsche Spyder e depois pela BMW. Enfim, com um modelo 700 RS foi novamente campeão europeu de subida de montanha, aos 60 anos, e com este tricampeonato decidiu abandonar as competições.

Hans Stuck permaneceu casado com Christa até a sua morte, em 1978, e conseguiu, como instrutor sênior em Nurburgring, ensinar os segredos da velocidade para o filho que teve com ela, Hans-Joachim, que viria a ser piloto de Fórmula 1 entre 74 e 79.

lll FORA DAS PISTAS

Caso você tenha nascido em 27 de dezembro, além de não conseguir reunir a galera para uma festa de aniversário, já que está todo mundo viajando, compartilha a data com Domitila de Castro Canto e Melo, a Marquesa de Santos, Marlene Dietrich, grande atriz alemã, o piloto Jérôme d’Ambrosio e o guitarrista Larry Byron, que junto com sua banda Steppenwolf chegou ao sucesso em 1969, com Born To Be Wild.

lll A Série 365 Dias Mais Importantes do Automobilismo, recordaremos corridas inesquecíveis, títulos emocionantes, acidentes trágicos, recordes e feitos inéditos através dos 365 dias mais importantes do automobilismo.

Carlos Eduardo Valesi

Velho demais para ter a pretensão de ser levado a sério, Valesi segue a Fórmula 1 desde 1987, mas sabe que isso não significa p* nenhuma pois desde meados da década de 90 vê as corridas acompanhado pelo seu amigo Jack Daniels. Ferrarista fanático, jura (embora não acredite) que isto não influencia na sua opinião de que Schumacher foi o melhor de todos, o que obviamente já o colocou em confusão. Encontrado facilmente no Setor A de Interlagos e na sua conta no Tweeter @cevalesi, mas não vai aceitar sua solicitação nas outras redes sociais porque também não é assim tão fácil. Paga no máximo 40 mangos numa foto do Button cometendo um crime.