O primeiro Finlandês Voador

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lll Série 365: 06 de Dezembro – O primeiro Finlandês Voador – 02ª Temporada: dia 199 de 365

A Finlândia é um país que fica lááááá em cima, na Europa, ali na beirinha do Mar Báltico, numa região onde a última Era do Gelo esqueceu de acabar. Apesar de ser o quinto maior país do continente, é o que tem menor densidade populacional – 9 entre 10 dos 5,5 milhões de finlandeses ficam espremidos na fronteira sul, tentando pegar um pouquinho de calor.

Sim, Keke já foi visto sem bigode Fonte: Desciclopedia

E tem a água. Na água da Finlândia tem alguma coisa. Afinal, como aqueles caras são bons de braço.

Nós até tivemos alguns egressos do país gelado na Fórmula 1 nos anos 70 (Leo Kinnunen tentou seis vezes em 74, mas só se classificou para o GP da Suécia e abandonou após 8 voltas; já Mikko Kozarowitzky tentou duas vezes em 77, mas não fez tempo suficiente para alinhar no grid), mas o primeirão a colocar a bandeira branca com uma cruz azul no mapa foi Keke Rosberg, em 1979.

Keke – ou como foi batizado, Keijo Erik Rosberg – nasceu há exatos 70 anos, em 06 de dezembro de 1948, na cidade de Solna, na Suécia. E aqui eu paro para dar um spoiler: esse tipo de confusão geográfica vai ser bastante comum neste texto. Não bastasse o próprio Keke ser um finlandês que nasceu na Suécia, sua primeira e mais importante vitória foi num Grande Prêmio da Suíça que foi realizado na França. Mas aos poucos nós explicamos.

O seu Lars Rosberg namorava a dona Lea Lautala. Ambos eram de Hamina, uma cidadezinha finlandesa de 20 mil habitantes. Quando ele resolveu estudar medicina veterinária, convenceu a patroa a irem para a Suécia – ela aproveitou para fazer a faculdade de biologia. E o pequeno Keijinho nasceu enquanto os dois eram universitários e moravam por lá. Mas antes de completar dois anos já tinha voltado para o país de seus pais, por isso a dupla cidadania.

A primeira experiência de Keke atrás de um volante foi surreal, e mostra como se cuidava de crianças nos anos 50: deixado no banco do motorista do carro da família por alguns minutos, percebeu que a chave estava lá e ligou a ignição, indo parar na porta da garagem. Apesar do susto deve ter gostado da brincadeira, pois em pouco tempo estava pilotando karts na região.

Keke se dava bem por lá. Foi campeão finlandês cinco vezes e em 1973, já com 24 anos, conquistou os títulos da Escandinávia e da Europa. Achou que era hora de brincar com veículos maiores, e foi para as Fórmulas Vee e Super Vee – em 75 ganhou 10 das 21 corridas que disputou. Dirigia o que desse: Fórmula 3, Fórmula 2, Atlantic, Pacific… em 1978 fez 41 corridas em 36 finais de semana, em todos os cinco continentes. Ele só tinha uma regra: não pagava para correr.

Keke e Emerson no GP da Áutria Fonte: Imgur

E foi essa falta de patrocínio, mesmo que próprio, que postergou a estreia de Rosberg na Fórmula 1. Foi só quando o ricaço Teddy Yip o convidou para substituir Eddie Cheever a bordo da jabiraca da Theodore que o piloto, então com 29 anos, pôde estrear na categoria principal. Quer dizer, estrear ali pelo paddock, pit lane e adjacências, uma vez que classificar aquele trambolho era uma tarefa dificílima. Foram nove tentativas, com três sucessos – na primeira vez, na África do Sul, depois na Alemanha (a única em que viu a bandeira quadriculada, em último lugar e a três voltas do vencedor) e na Holanda. Apesar disso, em um evento em Silverstone que não contava para o campeonato, debaixo de chuva, Keke Rosberg deixou seu cartão de visitas, conquistando a única vitória da história da Theodore.

Fonte: Pinterest

Outros convites apareceram em 79, mas só de nanicas: primeiro a ATS, depois a Wolf e por fim a Fittipaldi. Correndo ao lado do dono no carro amarelinho com patrocínio da Skol, já na primeira corrida da temporada de 1980 se deu bem: largando de uma modesta 13ª posição, manteve-se competitivo na pista enquanto os rivais caíam feito moscas, e conseguiu um pódio histórico com a terceira colocação. Ele ainda marcaria pontos com um quinto lugar em Monza, e terminaria à frente de Emmo na classificação final, mas não dava para vencer corridas com o equipamento que tinha em mãos. Ainda penou mais um ano no time, sem conseguir nada além de um nono lugar, e parecia que estava fadado a passar em branco pela Fórmula 1.

Mas em 1982 Alan Jones resolveu se aposentar, e Frank Williams precisava de um piloto barato para colocar ao lado de Carlos Reutemann. O único disponível com alguma velocidade era Keke, que não perdeu tempo em agarrar a oportunidade com unhas e dentes. Finalmente o nórdico loiro de cabelos e bigode volumosos poderia ser testado em um carro competitivo.

Na equipe Williams em Mônaco – Fonte: Pinterest

E, como se fosse um viking saído dos livros de Bernard Cornwell, Keke Rosberg batalhou o ano inteiro. Não se deixem enganar por quem tenta diminuir seu feito, falando que só ele e Mike Hawthorne foram campeões de uma vitória só. Até aquele GP em Dijon-Prenois, o penúltimo do campeonato, ele brigou de igual para igual com as fortes e favoritas Ferrari, McLaren e Renault (que foram, nessa ordem, as três primeiras do campeonato de construtores). Foi quinto colocado na África do Sul, segundo no Brasil (embora tanto ele quanto o vencedor Nelson Piquet tenham sido desclassificados por estarem com os carros abaixo do peso mínimo), novamente segundo em Long Beach, repetindo a posição na Bélgica. Ainda subiu ao pódio na Holanda (3º), Alemanha (3º) e Áustria (2º), pontuando também em Detroit e em Paul Ricard.

Então, quando largou da oitava colocação no GP da Suíça (que aconteceu na França pois o país estava proibido de realizar eventos automobilísticos e Jean-Marie Balestre queria mais um GP na sua terra natal para aproveitar a empolgação dos nativos com Pironi, Laffite, Tambay, Porst, Arnoux…), Keke Rosberg só estava atrás de Didier Pironi na tabela de classificação. O francês da Ferrari estava no hospital recuperando-se das fraturas nas pernas após o acidente durante o fim de semana do GP da Alemanha, mas isso não era culpa do finlandês.

E Rosberg correu bem naquele dia. As Renaults eram favoritas, com dobradinha no grid e mantendo posição na largada. Na metade da prova, estava em quarto, atrás de Prost e Arnoux e da McLaren de Lauda. Até que, na volta 73 das 80 programadas, a chaleira amarela de Arnoux ficou fora de combate, ao mesmo tempo em que Rosberg deixava Niki para trás e tirava a distância que o separava de Prost. Por duas vezes ele tentou a ultrapassagem, mas o francês narigudo se aproveitava do motor turbo para abrir um pouco de vantagem nas retas.

A três voltas do fim, o diretor de prova calmamente pegou a bandeira quadriculada e foi andando em direção à linha de chegada. Os mecânicos da Williams perceberam o cheiro de marmelada com roquefort – no ano anterior, na mesma pista e também para beneficiar Prost, os dirigentes do GP haviam “errado” a contagem de voltas e terminado a corrida algumas voltas antes. Mas a galera do tio Frank estava esperta e começou uma confusão equiparável às melhores batalhas da Guerra dos Cem Anos. Com isso a atenção saiu do que acontecia na pista e, na volta 79 Rosberg consegue a ultrapassagem que lhe daria a primeira vitória e a ponta da tabela no campeonato. Depois disso foi só marcar o inglês John Watson na última prova, em Las Vegas, e chegar no quinto lugar que lhe deu o título de pilotos.

Keke tentou defender o título em 83, mas o Ford Cosworth aspirado da Williams não era mais páreo para os turbos Ferrari, Renault e BMW. Ainda assim, no travado principado de Mônaco, veio sua segunda vitória (exatos 30 anos depois Nico também venceria lá, tornando o clã Rosberg o único com pai e filho a vencerem a prova monegasca). Em 84 e 85 a Williams finalmente arranjou um turbo com a Honda, e Keijo estava lá para ajudar – e conseguir mais três vitórias, em Dallas, Detroit e Adelaide. Ou seja, das cinco de sua carreira quatro foram em circuitos de rua, o que lhe rendeu o apelido de “Street Fighter”. Em 85 Rosberg ficou com a terceira colocação no campeonato de pilotos, atrás apenas de Prost e de Michele Alboreto, mas à frente de Senna, Mansell e Piquet, entre outros.

A bordo da lendária McLaren amarela no GP de Portugal 1986, neste GP a Mclaren correu com as cores do Marlboro Lights, sendo somente neste GP, a equipe inglesa só usaria pintura diferente em um único GP novamente no GP de Abu Dhabi de 2018 com a despedida de Fernando Alonso – Fonte: Pinterest

Seu último ano na Fórmula 1 foi em 1986, na McLaren. Em um carro que tinha sido pensado para o estilo de pilotagem seguro de Prost e Lauda (no lugar de quem Rosberg entrou), os resultados não vieram. Muitos abandonos, algumas corridas nos pontos e apenas um pódio, em segundo lugar, em Mônaco. Já com 38 anos, um tanto quanto desmotivado e triste com a perda do amigo Elio de Angelis, Rosberg decidiu despedir-se da categoria após a última prova, na Austrália.

Como há vida fora da Fórmula 1, Keke ainda correu com resultados modestos em provas de turismo e na DTM alemã, onde arriscou-se até como dono de equipe por alguns anos. Também empresariou outros pilotos finlandeses, notadamente JJ Lehto e Mika Häkkinen, além de apostar na carreira do filho Nico Rosberg (que corria sob as cores da Alemanha, fechando o círculo de cidadanias com dupla personalidade) até ele mudar-se do kart para outras categorias. Neste ano de 2018 voltou às pistas de Mônaco, em um evento comemorativo junto com Nico.

Os Rosbergs em Mônaco – Fonte: Mercedes

lll FORA DAS PISTAS

O dia 6 de dezembro marca a data de independência da – vejam só – Finlândia! E, se aspiraram mecônio da sua boquinha nesta data, você compartilha os parabéns com Dan Harrington, lenda do poker e autor de livros de sucesso sobre o esporte, os cartunistas brasileiros Paulo e Chico Caruso e o compositor Ira Gershwin, que nos deixou maravilhas como essa:

lll A Série 365 Dias Mais Importantes do Automobilismo, recordaremos corridas inesquecíveis, títulos emocionantes, acidentes trágicos, recordes e feitos inéditos através dos 365 dias mais importantes do automobilismo.

Carlos Eduardo Valesi

Velho demais para ter a pretensão de ser levado a sério, Valesi segue a Fórmula 1 desde 1987, mas sabe que isso não significa p* nenhuma pois desde meados da década de 90 vê as corridas acompanhado pelo seu amigo Jack Daniels. Ferrarista fanático, jura (embora não acredite) que isto não influencia na sua opinião de que Schumacher foi o melhor de todos, o que obviamente já o colocou em confusão. Encontrado facilmente no Setor A de Interlagos e na sua conta no Tweeter @cevalesi, mas não vai aceitar sua solicitação nas outras redes sociais porque também não é assim tão fácil. Paga no máximo 40 mangos numa foto do Button cometendo um crime.