O “Primeiro de Maio” da NASCAR - Boletim do Paddock

O “Primeiro de Maio” da NASCAR – Dia 273 de 365 dias dos mais importantes da historia do automobilismo

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Era a volta 199 das 200 prometidas para a 43ª edição das 500 milhas de Daytona, a prova mais tradicional da NASCAR, disputada no ano de 2001. Ralph Dale Earnhardt Sr. guiava o seu lendário Chevy Monte Carlo preto com o patrocínio da GM Goodwrench número 3 da equipe de Richard Childress, seguindo na terceira posição.

O veterano, vencedor da Daytona 500 de 1998 e sete vezes campeão da NASCAR Winston Cup Series, estava na terceira posição, seguindo de perto o seu filho, Dale Jr. e Michael Waltrip, ambos pilotos da equipe Dale Earnhardt Inc, cujo dono era justamente o heptacampeão da principal categoria de Stock Car dos Estados Unidos, quiçá, do mundo.

O cenário fabuloso para Dale estava ameaçado por outros corredores, sedentos para vencer a corrida de abertura da temporada e o grande evento da categoria. O veterano teve que se preocupar mais em defender a posição em tentar algo que prejudicasse seus empregados e a disputa seguiu intensa na última curva, até o acionamento da bandeira amarela que definiu a prova. O que parecia ser o conto de cinderela para o piloto veterano tornou-se o trágico fim de uma incrível história no automobilismo.

Primeiramente, falaremos um pouco mais de quem foi Dale Earnhardt:

Ralph Dale Earnhardt Sr – Nascar Fonte: FlatOut Brasil

Nascido no estado da Carolina do Norte, o berço da NASCAR, Dale era o terceiro de cinco filhos do casal Ralph e Martha. O pai foi um piloto de sólida carreira regional, mas não queria que os filhos seguissem os rumos da pista.

No entanto, Dale abandonou os estudos para atender os chamados dos deuses da velocidade. A relação familiar não foi a das mais fáceis, com Ralph sendo um professor bem severo. Com a morte do patriarca, em 1973, o filho teve o pesar de não conseguir provar que a escolha era certeira.

Earnhardt fez algumas corridas esporádicas na categoria principal dos stock cars americanos até realizar a sua primeira temporada completa em 1979 pela equipe Rod Osterlund Racing (ainda usando o número 2). A primeira temporada na Winston Cup foi muito boa, com uma vitória, 11 top-5 e 17 top-10, o que lhe permitiu o sétimo lugar no campeonato e o prêmio de Rookie do ano, como melhor estreante.

Ralph Dale Earnhardt Sr – Nascar – Ainda com o 2, um começo arrasador Fonte: FlatOut Brasil

Se o desempenho em 1979 surpreendeu, em 1980, foi ainda melhor. Com uma campanha de cinco vitórias, ganhou o seu primeiro título na divisão máxima da NASCAR. Foi a única vez até hoje que um piloto vencedor do Rookie do Ano venceu a temporada seguinte.

Nos anos seguintes, Dale mudou de equipes com constância, sem obter grandes resultado. A situação se definiu apenas em 1984, aonde encontraria aquela que seria a sua casa na categoria: a Richard Childress Racing. Earnhardt passaria a usar o número que lhe marcaria pela vida (3) com o Chevrolet Monte Carlo auriazul patrocinado pelos jeans Wrangler.

Após dois anos de adaptação, Dale passou a ser o cara da categoria a partir de 1986, O bicampeonato veio com mais cinco vitórias, mas o melhor veio na temporada de 1987: foram 11 vitórias na temporada, incluindo uma sequência de quatro seguidas, este um recorde na história da categoria até então. A agressividade dentro das pistas e as manobras decisivas para conquistar as vitórias levou a criação do apelido que o marcou pela carreira: “The Intimidator” (O Intimidador).

Além disso, Dale também fez um dos lances mais incríveis em uma corrida da NASCAR, quando segurou o carro após um toque de Bill Elliott e conseguiu manter o carro mesmo passando na grama, segurando a liderança. A manobra conhecida como Pass in the Grass remete àquela cena do Relâmpago McQueen no filme Carros. Entendeu a referência?

Em 1988, a Wrangler deixou de patrocinar a RCR. Para o seu lugar, a equipe assinou acordo com a GM Goodwrench, subsidiária dos serviços de manutenção da General Motors. Assim, as corres do carro 3 mudaram do azul e amarelo para o preto tornando-se o marco da carreira de Dale.

O piloto da RCR continuava competitivo, mas tinha uma forte concorrência. Mesmo assim, emplaca mais um bicampeonato entre 1990 e 1991, chegando a cinco títulos no total, estes já a bordo do Chevrolet Lumina, modelo usado pela marca da gravatinha a partir de 1989.

Após uma temporada de transição, Earnhardt voltou com tudo e, usando da regularidade e da experiência, voltou a faturar mais dois campeonatos consecutivos em 1993 e 1994, chegando a sete triunfos. Assim Dale tornava-se o segundo piloto a conquistar sete títulos na divisão principal, igualando o não menos lendário Richard “The King” Petty.

Ralph Dale Earnhardt Sr – Nascar – Em 1994, Earnhardt chegou ao sétimo título Fonte: Wikipédia

Após chegar ao topo na categoria, ainda faltava mais uma marca a ser atingida: a vitória na Daytona 500. O piloto da RCR era um exímio piloto em ovais superspeedway (notadamente Daytona e Talladega), tanto que é até hoje o maior recordista de vitórias no circuito do estado do Alabama, com 10 triunfos. No entanto, na corrida realizada na abertura da temporada, na Flórida, alguma coisa sempre dava errado e a vitória não vinha.

No entanto, a urucubaca acabou de vez em 1998. Com uma atuação precisa, Dale Earnhardt finalmente escrevia seu nome entre os maiores vencedores da Daytona 500. O público saudou clamorosamente, enquanto os mecânicos de todas as equipes foram saudar a vitória de Dale. Um momento histórico!

Voltemos a 2001. Após uma temporada com acidentes fortes e duas mortes no ano 2000 (Adam Petty, filho de Richard, e Kenny Irwin Jr.), havia uma certa preocupação com segurança, visando preservar a integridade dos pilotos. Dale, como um típico “piloto raiz”, era contrário a algumas iniciativas, como o Head and Neck Support (HANS), que era classificada pelo piloto como “aquela forca maldita”.

A corrida foi dominada por Dale e seus pupilos, mesmo com a forte concorrência da nova e da velha geração. Boa parte dos principais adversários ficou pelo caminho num incrível Big One ocorrido há cerca de 20 voltas para o fim.

Nas voltas finais, Dale comboiava os carros da equipe que fundara, em 1998, mas não partia para o ataque nas voltas finais, muito por estar pressionado por Sterling Marlin, Rusty Wallace e Ken Schrader. Na última curva, Marlin deu um leve toque no carro do Intimidador, que perdeu o controle de seu carro, sendo atingido também por Schrader. A pancada, aparentemente não tão forte, teve um impacto estimado entre 48 e 68 vezes a força da gravidade, com desaceleração de 70km/h. Internamente, um choque bastante forte.

Num primeiro momento, o público vibrou com a vitória de Michael Waltrip, com o irmão Darrell (campeão da NASCAR e comentarista da Fox Sports na época) bastante emocionado. Entretanto, com o atendimento a Dale, o ambiente passou a ser de forte preocupação.

Dale Earnhardt foi levado diretamente ao hospital Halifax Medical Center, recebendo reposição de volume sanguíneo e respiração artificial. Porém, todo o esforço médico foi em vão e, devido às fraturas pelo corpo, especialmente no crânio, o piloto veio a falecer às 17:16 do dia 18 de fevereiro de 2001.

A perda foi importante para a NASCAR se movimentar bastante para evitar novas perdas, similar ao movimento realizado pela Fórmula 1 em 1994. O HANS, outrora rejeitado por alguns pilotos, como o próprio Dale, acabou por se tornar obrigatório ainda naquele ano (inclusive dois anos antes da F1, que o adotou em 2003). Além disso, os carros das principais categorias passaram a usar cintos de seis pontos em vez dos acessórios com cinco, como estavam em voga na época.

Outra mudança foi a introdução dos Safer Barriers, barreiras de proteção com uma espécie de espuma interna que permite absorver grandes impactos. As novas barreiras foram aplicadas em boa parte dos ovais pelos Estados Unidos, ajudando na preservação dos pilotos da NASCAR e da Indy.

Os próprios carros das categorias de Stock Car passaram a ter vários artifícios para evitar impactos fortes nos pilotos. Desde o fatídico dia, nenhum piloto das três principais divisões perdeu a vida desde então, sendo a NASCAR, dentre as principais categorias do automobilismo mundial, a única a não ter ocorrências de acidentes fatais desde então.

Já o legado deixado por Dale Earnhardt, este segue incomensurável. Nas etapas do ano de 2001 (além da Daytona 500 de 2011, quando se completou 10 anos da sua morte), os comentaristas das emissoras de TV nos Estados Unidos se calavam na terceira volta de cada corrida. Nas arquibancadas, o público erguia os punhos e mostrava o número 3 nos dedos em reverência ao campeão.

A RCR, em homenagem a Dale retirou o número após o adeus de seu principal piloto, mudando a numeração para 29. Para substituí-lo na equipe, Kevin Harvick foi promovido para a equipe principal a partir do restante do ano, com uma emocionante vitória em Atlanta numa chegada bastante apertada e muitas referências ao heptacampeão.

O número 3 ficou “aposentado” até 2013, quando Harvick deixou a RCR. Para o seu lugar, Richard Childress ofereceu o acento para o seu neto, Austin Dillon, que pilota o carro com o lendário numeral desde então.

A equipe fundada pelo Intimidador seguiu firme, administrado pela viúva, Teresa, conquistou bons resultados em 2001, com destaque para a segunda corrida de Daytona (esta com 400 milhas). A dupla da Dale Earnhardt Inc. Michael Waltrip e Dale Earnhardt Jr. emplacaram nova dobradinha, mas desta vez com o filho do Intimidador como vencedor, em um dos momentos mais emocionais da história da NASCAR.

A escuderia permaneceu na divisão principal da NASCAR até 2008, quando foi adquirida e absorvida pela Chip Ganassi. O filho, Dale Jr., mudou-se para a Hendrick Motorsport e ficou por lá até sua aposentadoria, em 2017. Apesar de não ter conquistado nenhum título na categoria principal, Júnior teve grande carreira nos circuitos superspeedway e foi o piloto mais popular da NASCAR ao longo de todos estes anos.

Fora da NASCAR, outras homenagens foram realizadas a Dale. Uma bem marcante é a de Daniel Ricciardo, que escolheu o número 3 na F1 em referência à lenda da NASCAR, inclusive usando a tipografia similar na numeração, em memória ao Intimidador, já que o australiano é um fã declarado do piloto norte-americano.

Ao terminar, uma efeméride em referência ao título deste texto: O acidente fatal de Dale é tratado por muitos como o “Primeiro de Maio” da NASCAR por causar um choque similar ao trágico fim de semana de Ímola em 1994. No dia da morte de Ayrton Senna, no outro lado do Atlântico, Dale Earnhardt conseguia uma de suas dez vitórias em Talladega e não deixou de falar sobre o trágico dia

Fonte: FlatOut Brasil e Wikipédia

Eduardo Casola

Sou formado em jornalismo pela Uniso, torcedor do Corinthians e adoro esportes, especialmente automobilismo!