O Jornalista que Esbarrou com um Pódio em Casa | Boletim do Paddock

O Jornalista que Esbarrou com um Pódio em Casa – Dia 13 de 365 dias mais importantes da história do automobilismo – Segunda Temporada

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Muitos dos jornalistas que cobrem o mundo do automobilismo são verdadeiros entusiastas do esporte e sempre que possível tentam sua sorte no volante ao invés da caneta para tentar sentir um pouco da adrenalina que pilotos profissionais sentem, seja testando máquinas potentes ou em uma simples corrida de kart. Entretanto, no dia 3 de Junho de 1956, um jornalista teria um desempenho de dar inveja até em Paul di Resta após sua participação repentina e discreta no GP da Hungria de 2017.

Paul Frère nasceu em Le Havre no dia 30 de Janeiro de 1917. Nascido na França mas naturalizado belga, seu primeiro contato com a velocidade foi ainda aos 9 anos, quando seu tio o levou para uma corrida em Spa. Naquele momento Frère já sabia onde queria estar no futuro. “Eu não desejava ser campeão mundial, eu só queria fazer parte daquilo”. Sua educação primária foi na Inglaterra, mas Paul constantemente devorava as revistas de automobilismo que seu pai o enviava, desde The Autocar até Motor Sport. Com a paixão ainda mais intensa e o inglês fluente, retornou para Bruxelas, onde se graduou em Engenharia. Após a Segunda Guerra, seu foco acabou entrando no caminho do jornalismo e o belga, provando seu talento também no campo jornalístico, se tornou correspondente de diversas revistas européias e da americana Road & Track. Mesmo já especializado em duas áreas totalmente distintas, Frère ainda adicionaria mais uma faceta para um currículo incrível.

Convidado por Jacques Ickx, pai do futuro piloto Jacky Ickx, Frère começou sua carreira como piloto em corridas e competições de motociclismo ainda na Bélgica em 1946 e esse provaria ser apenas o primeiro passo do belga na nova função. Dois anos depois, Paul participou das 24h de Spa-Francorchamps em parceria com Jacques Sweaters e a dupla terminou em 4º na classe. O jovem multifacetado se via agora diante de um dilema, a paixão pelas corridas fazia com que seu desejo por competir crescesse cada vez mais, porém o dinheiro e a necessidade de se estabelecer na esfera jornalística limitavam suas oportunidades. Em 1950, Frère conseguiu um assento para participar do “Production Car Grand Prix” e venceu a etapa de 1h de duração em Spa, repetindo a façanha no ano seguinte. A sorte sorriu mais uma vez para o belga quando a General Motors decidiu levar 4 carros para a etapa de 52 do Production Car e consultou Jacques Ickx quanto aos pilotos que deveriam assumir os volantes das máquinas. Andre Pilette, Jacques Sweaters, Johnny Claes e Paul Frère foram os indicados e o jovem jornalista ainda contou com problemas mecânicos nas máquinas de dois companheiros de equipe para vencer pela 3ª vez em Spa. Com um nome consolidado também nas pistas e um conhecimento extenso de Spa, sua chegada na Fórmula 1 parecia iminente.

Eis que em 1952, Frère recebeu um convite de John Heath para pilotar uma das HWM no Grande Prêmio da Bélgica de Fórmula 1. O belga imediatamente agarrou a oportunidade e entregou um tremendo resultado, terminando em 5º e pontuando em sua estreia mesmo com uma tempestade castigando o circuito no dia da corrida. Paul voltou a correr pela equipe em Nurburgring, mas uma falha no câmbio logo na primeira volta forçou o abandono precoce. No ano seguinte, um modesto 10º lugar em Spa e um abandono no GP da Suíça marcaram sua participação como piloto no calendário da F1. O jornalista trocou de cockpit em 1954 ao firmar uma parceria com a Equipe Gordini para 3 etapas, todavia, o bólido era extremamente frágil e sempre que Frére apertava um pouco o ritmo, algo quebrava na máquina. Devido às condições precárias, Paul abandonou as três corridas que participou. Mesmo sem resultados expressivos, seu desempenho estava sendo notado por todos no grid e atraindo a atenção de grandes equipes.

Paul Frère GP da Bélgica de 1955 – Foto: Divulgação

1955 trouxe mais um convite irrecusável quando o belga foi chamado para testar uma Ferrari em Imola, já que a equipe pretendia colocá-lo em um de seus carros no GP da Bélgica. Durante a sessão, Frère também foi informado sobre a possibilidade ser convocado para correr em Mônaco também, todavia foi acordado que o jornalista seria piloto reserva na ocasião. Com os quatro cavalos rampantes sofrendo no Fim do Grid durante a prova, Frère recebeu o carro de Taruffi para a 2ª metade da prova, assim poderia se adaptar ao bólido antes de voltar para a Bélgica. Novamente em Spa, Paul terminou o GP em 4º, atrás apenas das duas Mercedes e de seu companheiro de equipe, Giuseppe Farina. Os grandes resultados e a confiança cada vez maior levavam o belga para desafios ainda maiores. No mesmo ano, Paul dividiu um Aston Martin com Peter Collins nas 24 horas de Le Mans, terminando a prova em segundo, entretanto, o acidente fatal de Pierre Levegh na ocasião o marcou para sempre. Da mesma forma, a colisão séria em que o próprio belga se envolveu no ano seguinte enquanto pilotava uma Ferrari na Suécia também o fez contemplar a aposentadoria das pistas. O belga não voltou para um carro de F1 até que destino sorriu para ele mais uma vez.

Enfim chegamos. GP da Bélgica de 1956. A Ferrari chegou a Spa com problemas uma vez que Luigi Musso havia se machucado em um acidente nos 1000km de Nurburgring poucos dias antes. Os italianos tentaram acertar com Mike Hawthorn mas o britânico já estava assinado com a Maserati, o nome de Frère foi naturalmente ventilado, o belga por sua vez declinou o convite alegando que estava designado para cobrir a etapa e duvidava das suas condições físicas para suportar uma corrida completa. Para ter certeza que não entraria no carro, Paul não apareceu em Spa nos treinos livres de quinta e só chegou ao circuito no meio da sessão de sexta. Após sua chegada, a equipe ainda tentou convencê-lo a correr mas o jornalista parecia irredutível e foi para a beira da pista assistir os bólidos rasgarem pelo traçado na chuva. Ouvir os motores rugindo foi suficiente para fazê-lo mudar de ideia e correr para os boxes da Ferrari em busca de um carro para participar da sessão com a condição de não ser obrigado a correr no GP. Evidentemente, após algumas voltas o belga já estava mais do convencido a correr em Spa mais uma vez. Na classificação, um ótimo 8º lugar e a 3ª garantida para a corrida.

Mais uma fotinha da primeira temporada da Fórmula 1, mais uma de Spa-Francorchamps. Dessa vez, com Luigi Villoresi nos boxes, conversando com o pessoal da Ferrari. Fonte: Rafael Schelb.

3 de Junho de 1956, mais chuva castigava o circuito de Spa. Na largada, o pole position Fangio experimenta da síndrome de Webber-Barrichello e cai para 5º. O argentino voltou fatiando o pelotão e já era o líder novamente na volta 5, enquanto isso, Stirling Moss perdeu uma roda na subida da Eau Rouge e teve que voltar correndo para os boxes em busca de outro carro para continuar na prova. Frère e Behra brigavam pela 3ª posição com Collins em 2º e Fangio mais de 30 segundos na ponta, até que o argentino sofreu problemas de transmissão e abandonou, entregando a ponta para Collins. Mais atrás, Behra sofreu com falhas no motor e perdeu o 2º lugar para Frère, que agora dependia apenas de si mesmo para garantir o resultado histórico. Peter Collins venceu sua primeira corrida na F1 e Paul Frère, um jornalista que nem queria participar da prova, garantiu a 2ª posição em sua corrida de casa, sendo até hoje o belga com o melhor resultado em uma etapa da Fórmula 1 disputada em território belga. Essa seria a sua última corrida na categoria, se aposentando com um pódio em Spa.

Paul Frère em Spa rumo ao pódio em casa – Foto Divulgação

Paul Frère teve grandes atuações em outras corridas icônicas como Le Mans e a Mille Miglia, mas acima de tudo, entrou para a história como a verdadeira síntese de um cabeça de gasolina em um só indivíduo. Engenheiro de formação, jornalista automobilístico de ofício e um exímio piloto nas horas vagas, Frère viveu de sua paixão incondicional pela velocidade.

Eu não quero morrer, mas quando for pra ser, que seja fazendo algo que eu amo

Fernando Brandão Campos

Brasiliense, podcaster, Team Pepsi, torcedor do Fluminense e de basicamente todos os times de Boston, além de ser dono de um talento sobrenatural para matar equipes de Fórmula 1 (basta perguntar para a Toyota, Lotus e Aston Martin, que sequer entrou mas provou do veneno). Seu habitat natural é o Twitter mas pode ser encontrado falando besteira em outros lugares também. Joga nas 11 com podcasts no Podcast F1 Brasil, vídeos no Boteco F1 e textos aqui no Boletim do Paddock, com direito a uma passadinha no Formula Legend e no Superlicense de vez nunca.