22 de Fevereiro de 1948, Nasce Niki Lauda – Dia 277 de 365 dias mais importantes da história do automobilismo.

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Ser campeão mundial de Fórmula 1 por si só já coloca seu nome em um outro patamar, conquistar o título em equipes clássicas como Ferrari e McLaren cimenta ainda mais seu legado, ser capaz de levantar o troféu com esse dois macacões te imortaliza nos almanaques da Fórmula 1. 69 anos atrás, nascia o único piloto capaz de conquistar esse feito incrível até hoje.

Andreas Nikolaus Lauda nasceu em Viena no dia 22 de Fevereiro de 1948. Sua família era dona de diversas fábricas de papel e seu avô era um bem-sucedido empresário vietnamita, portanto, dinheiro estava longe de ser um problema para os Lauda. Niki almejava o emocionante mundo do automobilismo desde pequeno, entretanto, seus pais insistiam em tentar levá-lo para os negócios da família. No fim de sua adolescência, o jovem austríaco forjou um diploma escolar para convencer seus pais a lhe dar o dinheiro que seria prontamente utilizado para a compra de seu primeiro carro.

Mesmo com a severa desaprovação de seus pais, Lauda começou sua carreira em Abril de 1968, participando de corridas com um Mini Cooper. A falta de apoio e os constantes desencorajamentos em relação ao seu futuro no automobilismo fizeram com que Lauda abrisse mão de qualquer contato com a sua família. A decisão afetou diretamente seu futuro no esporte, uma vez que Niki obviamente não poderia contar com a riqueza de seus parentes, sendo forçado a buscar patrocínios e batalhar para conseguir seu lugar nas categorias de acesso. O austríaco logo pulou para a Fórmula Vee onde logo se destacou rapidamente, partindo então para a Fórmula 3. Constantemente rápido, Lauda atingiu seu teto de imediato e sua carreira se estagnou devido à falta de dinheiro. O austríaco decidiu então pegar um empréstimo de £30.000 no banco para financiar sua entrada na recém-criada equipe March, na Fórmula 2.

Lauda imediatamente mostrou seu talento na Fórmula 2, seu sucesso foi tão significativo que o austríaco logo recebeu uma promoção para a equipe March de Fórmula 1. A passagem meteórica pelas categorias de base eram apenas um dos sinais de Niki seria capaz no auge do automobilismo mundial. 1972 foi um ano movimentado, o jovem austríaco corria pela March tanto na Fórmula 1 quanto na Fórmula 2. Todavia, a performance da equipe nas duas categorias era completamente oposta. Enquanto a March se estabelecia como uma ótima equipe de F2, sua irmã mais velha sofria muito na categoria mais alta. O desastre da March na Fórmula 1 levou Lauda a pegar outro empréstimo, dessa vez para garantir uma vaga na BRM em 1973, ao lado de Clay Regazzoni.

Andreas Nikolaus “Niki” Lauda (AUT) (Marlboro-BRM), BRM P160E – BRM V12 (RET) 1973 Spanish Grand Prix, Montjuïc Circuit Fonte: Devinart

A mudança rendeu ótimos resultados no começo da temporada, contando inclusive com um 5º lugar em Spa, contudo, a equipe entrou em queda livre, comprometendo o 2º semestre inteiro de ambos os pilotos. Para efeitos de parâmetro, Niki não viu a bandeirada final nas últimas seis provas do ano. Mesmo sem brilhar para o mundo inteiro ou conquistar resultados expressivos em uma equipe pequena, a ida de Lauda para a BRM seria fundamental para o resto de sua carreira, por ter possibilitado que as pessoas certas fossem impressionadas. No final de 1973, Regazzoni deixou a equipe para assinar com a Ferrari. Em Maranello, o suíço foi perguntado sobre as habilidades de seu antigo companheiro de equipe. As recomendações de Clay foram tão positivas que Enzo Ferrari decidiu assinar com Lauda também, reeditando a dupla da BRM, mas agora com muito mais estrutura.

Niki Lauda, Ferrari 312b3, Belgian Grand Prix Nivelles 1974 Fonte: Ferrari

As primeiras corridas de Lauda pela escuderia italiana foram simplesmente perfeitas, especialmente para a própria equipe, que buscava um ressurgimento após temporadas modestas. Niki estreou com um 2º lugar e conquistou sua primeira vitória na categoria apenas três etapas depois, triunfo esse que foi o primeiro da Ferrari desde 1972. O austríaco mostrou uma dedicação incrível ao time, bem como um desejo de estar sempre buscando melhorar seu bólido. Niki chegou inclusive a incrível marca de seis poles consecutivas, entretanto, sua fala de experiência aliada a problemas de confiabilidade do monoposto impediram que mais pontos fossem conquistados nessa sequência incrível. Mesmo assim, o 4º lugar no campeonato de pilotos serviu como um cartão de visitas do austríaco para o mundo do automobilismo.

Andreas Nikolaus “Niki” Lauda (AUT) (Scuderia Ferrari), Ferrari 312T – Ferrari Tipo 015 3.0 Flat-12 (finished 1st) 1975 Monaco Grand Prix, Circuit de Monaco
Fonte: © Scuderia Ferrari, John Millar | Source: Fickr

A temporada seguinte começou extremamente mal e o melhor resultado de Niki nas primeiras quatro etapas foi um singelo 5º lugar. Todavia, a nova Ferrari 312T enfim começou a mostrar seu poder em Mônaco, onde Lauda voltou a vencer na categoria. Essa foi apenas a 1ª vitória de quatro nas cinco corridas seguintes. O austríaco manteve a consistência durante o resto da temporada, conquistando o título de pilotos na penúltima etapa do ano, quis o destino que o palco fosse Monza. Clay venceu a prova, Lauda foi 3º, conquistando assim o título de pilotos e a Ferrari assegurou o título de construtores, levando os Tiffosi à loucura. Um verdadeiro êxtase para os fanáticos torcedores italianos e o sinal mais claro de que a Ferrari estava sim de volta. O austríaco iniciou 1976 de forma arrasadora, subindo ao pódio nas sete primeiras corridas do ano, sendo que em quatro subiu no degrau mais alto do pódio. Nesse ritmo, Lauda buscava ser o primeiro bicampeão consecutivo desde Jack Brabham em 1959 e 1960, além disso, o recorde de 9 vitórias em uma temporada, estabelecido por Jim Clark em 1963, parecia estar extremamente ameaçado. Mesmo com tudo apontando para um verdadeiro passeio de Niki Lauda na temporada, um acontecimento trágico interrompeu essa sequência inacreditável de bons resultados e assustou o mundo todo.

Niki Lauda in the Ferrari 312T2, German Grand Prix, Nuerburgring 1976, Nuerburgring, Germany, 01 August 1976. (Photo by Rainer W. Schlegelmilch/Getty Images)

Uma semana antes da 10ª etapa do ano, em Nurburgring, Lauda tentou liderar um boicote do GP da Alemanha devido à precariedade da segurança do circuito. A falta de equipamentos e carros de segurança, bem como a inexistência de um sistema eficiente de combate ao fogo preocupavam muito o piloto. No entanto, a grande maioria dos pilotos foi contra a ideia e a corrida foi mantida no calendário. Ainda na 2ª volta da prova, Niki sofreu um gravíssimo acidente. Após entrar em contato com uma barreira e o carro de Brett Lunger, a Ferrari do austríaco entrou em chamas enquanto seu condutor continuava preso no cockpit. Diversos pilotos chegaram ao local do acidente para tentar ajudar, mas Lauda não deixou de sustentar danos gravíssimos. Sua cabeça sofreu graves queimaduras e a ingestão de gases tóxicos danificou seus pulmões e seu sangue. Enquanto o jovem promissor batalhava pela sua vida, Carlos Reutemann assumiu o cockpit remanescente da Ferrari. Miraculosamente, Niki retornou apenas seis semanas depois, ainda com diversas bandagens na cabeça. Arrancou um 4º lugar no seu retorno às pistas mas confessou ainda estar extremamente abalado após o susto. As três corridas perdidas pelo austríaco abriram a porta para James Hunt se reabilitar no campeonato. Após Niki ter o mais do que o dobro dos pontos do 2º colocado antes do GP da Alemanha, a F1 chegava ao seu embate derradeiro com apenas três pontos separando os dois primeiro colocados. Suzuka seria o cenário da batalha final.

Niki Lauda in the Ferrari 312T2, German Grand Prix, Nuerburgring 1976, Nuerburgring, Germany, 01 August 1976. (Photo by Rainer W. Schlegelmilch/Getty Images)

No sábado, Lauda se classificou em 3º logo atrás de James Hunt. Todavia, todo potencial de uma briga intensa pelo título foi afastado por uma tempestade de proporções bíblicas no domingo. Considerando as condições extremamente perigosas, Niki abandonou a prova na segunda volta. James liderou boa parte da prova, mas um furo no último terço do GP fez com que o britânico tivesse que batalhar por um terceiro lugar, o qual garantiu o título de pilotos por apenas um ponto. As relações entre o piloto e a Ferrari ficaram muito difíceis após o abandono em Suzuka. Além disso, Lauda não se entendia bem com seu novo companheiro de equipe, Carlos Reutemann, e se sentia cada vez mais desfavorecido pela escuderia. Mesmo em meio ao clima tenso, o austríaco dominou a temporada de 1977, inclusive conquistando o título com antecedência e optando por não participar das duas últimas etapas do ano devido às então terríveis relações com a Ferrari.

Lauda Japão 1976 Fonte: gps.gpexpert.com.br

Lauda partiu para a Brabham, então comandada por Bernie Ecclestone. As expectativas do austríaco foram destruídas por dois anos apáticos pilotando carroças. A equipe britânica sofreu às custas dos motores Alfa Romeo e diversas outras falhas mecânicas. Em sua primeira temporada de casa nova, Niki foi forçado a abandonar 9 das 14 corridas da temporada. Em uma das etapas em que viu a bandeirada, venceu de forma dominante, mas o conceito utilizado pela equipe no GP da Suécia teve que ser esquecido após seu primeiro uso devido à intensas reclamações de outras equipes, temendo pelo equilíbrio de forças. O carro era o BT46, conhecido como carro ventilador. 1979 foi igualmente trágico, Lauda abandonou 11 das primeiras 13 provas do ano. A frustração do bicampeão mundial foi tamanha que o piloto se aposentou antes mesmo do final de temporada, deixando a Brabham com um cockpit vago para as duas últimas corridas.

Niki Lauda foi o único a vencer uma corrida com motor Alfa Romeo na segunda passagem da montadora (Continental Circus)

No entanto, esse não foi o final da carreira de Niki Lauda. Após dois anos fora das pistas, o austríaco recebeu uma proposta da gigante McLaren para a temporada de 1982. Agora dividindo garagem com John Watson, o bicampeão provou logo de cara que ainda era capaz de vencer, conquistando a vitória na 3ª etapa do ano, em Long Beach. Niki ainda venceria novamente na Inglaterra e seu 5º lugar no mundial de pilotos serviu para mostrar que o melhor ainda estava por vir. 1983 não foi tão bem sucedido devido às diversas mudanças que a McLaren enfrentava, a principal delas sendo a substituição de motores Ford-Cosworth por Porsche nomeados Tag Heuer.

Wilson Fittipaldi com Niki Lauda (Lemyr Martins/VEJA)

Em 1984, a McLaren montou uma das duplas de pilotos mais fortes da história: Niki Lauda e Alain Prost. Os dois mostravam ser extremamente talentosos, cada um da sua própria forma. A parceria trouxe uma boa relação fora das pistas e grandes batalhas dentro delas. Elevando o potencial um do outro, Niki e Alain protagonizaram uma rivalidade histórica durante a temporada. Lauda venceu 5 provas, Prost triunfou em 7, mas o então bicampeão se fez valer de uma consistência espetacular no segundo semestre para ser campeão por mísero meio ponto. Não fosse a interrupção do GP de Mônaco, Prost teria sido campeão, mesmo com um 2º lugar na etapa. 1985 voltou a ser apático e após terminar apenas 3 de 16 corridas, Lauda se aposentou novamente, dessa vez em definitivo, mas agora não estava saindo pelas portas do fundo, mas sim deixando a categoria de cabeça erguida após conquistar mais um troféu. Lauda ainda retornaria para a Ferrari em 1993, agora como consultor para Luca di Montezemolo. em 2001, assumiu a posição de chefe de equipe da Jaguar, mas deixou o time no final do ano seguinte. 10 anos depois, assumiu uma vaga fundamental na construção da dinastia Mercedes que dominaria os anos seguintes.

Lauda 1984 Fonte: @Tumblr

Dentro ou fora dos cockpits, Lauda escreveu seu nome na história do automobilismo mundial, seja pela sua perseverança de contrariar a família e seguir seu sonho, pela sua vontade inabalável de voltar às pistas independente das dores, pelo seu talento inegável ou até mesmo pela sua histórica rivalidade com James Hunt e seu sucesso trabalhando do lado de fora dos carros após a aposentadoria. Niki foi, é e sempre será um verdadeiro cabeça de gasolina.

Niki Lauda Fonte: Pinterest

Fernando Brandão Campos

Brasiliense, podcaster, Team Pepsi, torcedor do Fluminense e de basicamente todos os times de Boston, além de ser dono de um talento sobrenatural para matar equipes de Fórmula 1 (basta perguntar para a Toyota, Lotus e Aston Martin, que sequer entrou mas provou do veneno). Seu habitat natural é o Twitter mas pode ser encontrado falando besteira em outros lugares também. Joga nas 11 com podcasts no Podcast F1 Brasil, vídeos no Boteco F1 e textos aqui no Boletim do Paddock, com direito a uma passadinha no Formula Legend e no Superlicense de vez nunca.