“Hermano”, “Amor” e Honda: Um pódio especial para a estreia de Kyalami

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| Por: Eduardo Casola Filho

lll Série 365:  “Hermano”, “Amor” e Honda: Um pódio especial para a estreia de Kyalami – 01ª Temporada: dia 226 de 365 dias.

A angústia pelo período de férias entre o fim de uma temporada e o começo da pré-temporada nas competições de automobilismo é algo comum entre os cabeças de gasolina de muitas categorias. Com a escassez de informações e de atividades no período entre dezembro e janeiro, há pouco pelo qual o fã mais assíduo possa se divertir.

Porém, nem sempre foi assim. Na década de 1960, a Fórmula 1 se aventurava em competições dentro dessas datas. Embora fosse uma época de comunicação mais escassa, havia o espetáculo nas pistas nessa época do ano, como relatamos em alguns dos nossos últimos posts.

Fonte: Wikipedia

Neste período, a África do Sul foi o palco dessas etapas (ou que fossem as decisivas, ou as que abriram o ano. Em 2 de janeiro de 1967, novamente, os bólidos estavam na pista para mais uma corrida no extremo sul do continente africano. A novidade ficava por conta da estreia do circuito de Kyalami. O traçado original tinha 4.094 metros e a etapa teria 80 voltas.

A corrida de abertura da temporada traria a expectativa de um teste de resistência para pilotos e equipes. Com uma série de mudanças de regulamento nos motores, que deveriam ter capacidade de três litros. Algumas equipes levaram 2 propulsores de 1,5 litro para cada carro, enquanto outras apresentaram alguns monstrengos bem potentes. Houve também que decidisse abdicar da corrida para se acertar neste quesito, como a Ferrari, que mais uma vez não ia para o GP sul-africano.

Na classificação, a Brabham-Repco repetia o domínio do ano anterior, com Jack Brabham, o campeão de 1966, na pole, seguido do seu companheiro Denny Hulme. Jim Clark, sempre um às nas classificações, conseguiu apenas o terceiro tempo, ainda com uma Lotus longe do auge.

Então começavam as surpresas: A Cooper, equipe tradicional, mas que estava longe dos seus melhores dias, colocou dois carros na quarta e quinta colocações, com Pedro Rodriguez, do México, e John Love, da Rodésia (atual Zimbádue) respectivamente. Fechava o top-six, John Surtees, correndo pela Honda. Nomes como Jackie Stewart (BRM), Jochen Rindt (Ccoper) e Graham Hill (Lotus) ficaram para trás e tinham que buscar a recuperação.

Com um sol de verão, daqueles de rachar, uma altitude de 1.500 metros acima do nível do mar e motores novos ou adaptados, a corrida virou um verdadeiro teste de resistência, com pilotos e equipamentos sofrendo na pista.

Brabham na primeira fila e todo mundo misturado depois (Memória F1)

Na largada, Hulme partiu melhor e deixou o patrão Brabham para trás. Surtees pulou muito bem e fechou a primeira volta em terceiro, seguido por Rodriguez, Clark e Rindt. Jack tentou recuperar a liderança, mas rodou na terceira volta e caiu para quarto. Nas posições intermediárias, muitas trocas de lugar em disputas equilibradas.

Com a quebradeira generalização, muita sujeira ficou na pista (Memória F1)

Logo, os problemas começaram a afetar os pilotos e as equipes. Stewart abandou com problemas de motor, Hill se acidentou, e Clark também teve problemas no propulsor. Rindt e Jo Siffert, ambos da Cooper, também abandonaram com problemas no motor Maserati.

A turma que estava mais a frente começou também a sofrer. Rodriguez passou a conviver com falhas no seu câmbio, enquanto Surtees padecia de perda de performance do motor Honda (parece familiar, né Alonso?). A vítima seguinte foi Jack Brabham, que perdeu quatro voltas para fazer reparos em seu carro. Tudo isso com pouco mais da corrida decorrida.

Se tivesse rádio, certamente Surtees diria “No power” (Memória F1)

A vitória parecia tranquila nas mãos de Hulme. Mas não é que os freios do neozelandês também começaram a falhar? Na volta 60, o piloto da Brabram precisou parar e perdeu duas voltas, ficando fora da briga pela vitória.

A liderança, pasmem, ficou com John Love. O rodesiano com um Cooper-Climax cliente, movido por motor preparado para a Tasman Series (uma categoria de carros da F1 que só competiam na Oceania naquela época), e que só disputaria aquela etapa da F1, como nos outros anos, sobrevivia aos percalços e partia para uma improvável vitória, colocando o país africano na lista dos vitoriosos da F1. A torcida presente em Kyalami o apoiou e vibrava com a liderança do piloto da pátria mais próxima.

John Love fez bonito, mas a vitória escapou por pouco (Contos da F1)

No entanto, o sonho de Cinderela começou a desmoronar a seis voltas do fim. A bomba de combustível começou a falhar e Love precisou parar nos boxes. Numa época em que os pit-stops demoravam uma eternidade, o rodesiano ainda não perdeu tanto tempo, mas o bastante para perder a ponta para Rodriguez. O mexicano tinha apenas duas marchas do seu câmbio funcionando.

Love pisou fundo e tentou tirar a diferença do jeito que dava, mas não havia mais tempo. Rodriguez chegava em primeiro com 26 segundos de vantagem para o rodesiano. Surtees, mesmo com o problemático motor Honda, conseguiu levar o carro da equipe japonesa ao pódio. Apesar dos percalços, a dupla da Brabham conseguiu pontuar (Hulme em quarto e Jack em sexto), tendo o britânico Bob Anderson (também de Brabham, mas com equipe cliente) entre eles.

No fim, Pedro Rodriguez colocou o México no mapa da F1 em grande estilo (Continental Circus)

Não foi o vencedor mais improvável, mas certamente, foi uma das vitórias mais incríveis da história da F1. Se a Rodésia não conseguiu colocar um vencedor de grande prêmio, tivemos outro país celebrando o primeiro triunfo: o México. Como a organização da prova não esperava a vitória do mais velho dos “Hermanos Rodriguez”, e por isso, foi executado a música Jarabe Tapatio (também conhecida como a Dança do Sombrero!!!) em vez do hino nacional. Tal atitude levou Pedro a levar a partir das demais corridas a bandeira mexicana e um disco com a melodia correta gravada.

Além de ser a primeira conquista de Pedro e de um mexicano, a vitória na África do Sul também foi a última da Cooper e também do motor Maserati na categoria, encerrando assim um ciclo histórico.

Fontes: Stats F1, Continental Circus (link 1 e link 2), Contos da F1, Memória F1 e Wikipédia (link 1 e link 2)

lll A Série 365 Dias Mais Importantes do Automobilismo, recordaremos corridas inesquecíveis, títulos emocionantes, acidentes trágicos, recordes e feitos inéditos através dos 365 dias mais importantes do automobilismo.

Eduardo Casola

Sou formado em jornalismo pela Uniso, torcedor do Corinthians e adoro esportes, especialmente automobilismo!