GP dos EUA de 1990, aquele com o troco de Alesi – Dia 294 dos 365 dias mais importantes da história do automobilismo.

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Ficar velho é uma coisa percebida mais pelos outros do que por você mesmo. Os sinais externos são mais visíveis, mas como a maioria de nós não passa o dia se olhando no espelho, só percebemos que estamos ficando velhos quando nos deparamos com coisas pontuais que nos assustam.

Aconteceu comigo enquanto decidia o tema do 365 dias de hoje. Depois de escrever as fabulosas histórias de John Surtees, Ferruccio Lamborghini, François Cevert e Jim Clark, o primeiro pensamento que tive ao ver que o GP dos EUA de 1990 tinha caído num 11 de março foi “que bom, estava precisando escrever sobre uma coisa nova, da qual eu lembro de ter visto”. O segundo foi cortesia do meu cérebro matemático, e foi este desgraçado que me lembrou da idade. Essa corrida aconteceu há 28 anos, quando a seleção ainda era tricampeã do mundo e nenhum dos integrantes do casal mais shippado do mundo do automobilismo (nosso querido Cokampos) ainda não era sequer a sombra da possibilidade de uma hipótese de vir a este mundo.

Bom, passado o memento mori, resolvi que relembrar é reviver, e fui rever essa corrida sensacional.

Fonte: GPExpert

O ano na F1 começava ainda de ressaca dos eventos no Japão em 1989; Ferrari e McLaren tinham trocado de pilotos, com Prost zarpando para a Scuderia enquanto Senna ganhava a amizade e o companheirismo de Berger. Piquet estreava na Benetton, Ken Tyrrell trocava zero por nada, ou Jonathan Palmer por Satoru Nakajima (mas mantinha Alesi), e ainda tínhamos um grid com muitos brazucas, com Gugelmin na Leyton House e Roberto Moreno na Euro Brun. A primeira prova do campeonato seria nas ruas de Phoenix, em pleno deserto do Arizona, e foi transferida de junho para o começo do ano por conta do calor intenso por lá.

Nos treinos de sexta-feira, uma surpresa: todos calçados com pneus Pirelli se davam bem no asfalto e no traçado cheio de curvas de 90 graus, enquanto os carros com borracha da Goodyear não conseguiram se acertar. Senna fez apenas o quarto melhor tempo, enquanto Prost ficou com o sétimo. Claro que isso não foi motivo de preocupação, pois o que importava era o sábado e, sabendo o que estava acontecendo, eles colocariam as coisas no lugar. Mas dos céus veio um grito de “ERRRRRRRROOOU!!!” e uma tempestade tropical que fez uma curva errada no México desabou sobre a cálida Phoenix no dia seguinte, impedindo completamente os pilotos de tentarem melhorar as suas marcas.

Com isso, começávamos o ano com um grid de largada no mínimo curioso, para dizer pouco: Berger, que encontrou uma volta mágica na sexta, largava da pole, seguido por três underdogs de pneus Pirelli: Pierluigi Martini colocava a Minardi pela primeira e única vez na fila da frente, Andrea de Cesaris repetia o feito de Alex Caffi na Hungria em 89 e largava com a Dallara em terceiro e Jean Alesi estacionava a Tyrrell (que tinha trocado 18 anos de história com a Goodyear para assinar com a Pirelli apenas dois dias antes do início da temporada) na quarta posição. A terceira fila era brasileira com Senna e Piquet, seguidos por Prost e Olivier Grouillard com a Osella e com a Williams de Thierry Boutsen e a Brabham de Stefano Modena fechando o top 10.

Mesmo escondida pelo capacete, podemos perceber a expressão de WTF?! de Berger. Fonte: Blog Start Sports

No domingo o clima era ameno, mas seco. Berger tracionou bem na largada e deixou o carro abrir para cima de Martini, porém não contava com um começo tão sensacional de Alesi. Da quarta posição, jogou o carro todo para a direita, ficou com o lado de dentro da curva 1 e ultrapassou a McLaren sem dó nem piedade. A Tyrrell ainda vinha com o modelo 018, do ano passado (o 019 só ficaria pronto em Imola), e o francês não sabia o quanto a máquina iria aguentar, então tomou a decisão mais sensata: enfiou o pé no da direita e esqueceu do resto do mundo. Ao final da primeira volta já tinha mais de dois segundos de vantagem para Berger, e começou a abrir meio segundo por volta. O austríaco sentiu a pressão de fazer bonito para os novos chefes e esqueceu de frear em uma curva na nona volta, perdendo a traseira do carro e acertando a barreira de pneus com a lateral do carro. Conseguiu voltar, parou para trocar a asa traseira danificada, fez a melhor volta da corrida e no fim abandonou com problemas no câmbio.

Jean Alesi (FR), Tyrrell Racing 018, leads Ayrton Senna (BR), Honda Marlboro McLaren for the lead of the Grand Prix.. United States Grand Prix, 11/03/1990, Phoenix, Arizona, USA.

Quando viu pelo retrovisor a McLaren conversando de perto com a borracha na lateral da pista, Alesi tinha cerca de 8 segundos de vantagem e não ficou tranquilo. Porque logo atrás vinha outro carro branco, esse com um campeão do mundo: Senna tinha se livrado de De Cesaris e Martini e estava na cola de Berger, assumindo a segunda posição após a quase rodada do companheiro. Ayrton tinha um equipamento melhor, um braço muito melhor e achava que os pneus da Tyrrell não durariam muito, então controlou a prova, marcando Alesi de longe para poupar o carro. Mas todos sabemos que paciência não era o forte do brasileiro.

Senna atacando Alesi. Fonte: Ponta Tacão

Tirando precisos décimos por volta, no 30º giro ele estava colado na caixa de câmbio do francês. Se os Pirelli não davam sinais de que iriam desistir, muito menos o fazia Alesi, que defendia a posição como um quero-quero defende seus filhotes. Vendo que não daria pra esperar por um erro, no início da volta 34 Senna deixou para frear depois de Deus Me Livre, jogou o carro por dentro da curva 1 e ficou à frente, mas a manobra ousada cobrou seu preço, obrigando o piloto da McLaren a brigar para controlar o carro, perdendo tração e o melhor posicionamento; a curva 2, essa à esquerda, vinha logo em seguida, e Alesi brilhantemente manteve seu carro em linha, dando o troco em Senna de forma impressionante e permanecendo na liderança da prova.

Volta seguinte, mesmo bat-local: Senna faz tudo de novo: enfia o carro em um espaço até então virtual por dentro da curva, freia depois, grita “achou que eu não iria fazer a mesma manobra? Achou errado, otário!”, e assume a ponta. Só que desta vez ele não deixa o lado esquerdo desprotegido. Alesi até tenta um “xis”, mas a McLaren estava muito melhor. Os dois ainda brigaram por mais algumas voltas, mas o francês percebeu que uma segunda colocação estava de bom tamanho e que era melhor não forçar o carro. Boutsen levou a Williams ao terceiro posto, com Piquet, Stefano Modena e Satoru Nakajima fechando os pontos. No pódio, com a bandeira brasileira no alto, o mais feliz era o segundo colocado. Senna disse na entrevista que “Alesi tem os genes de um campeão mundial”. E, se aquela vitória foi o início da caminhada do bicampeonato para Ayrton, a apresentação de Alesi certamente contou muito para o convite para assumir um assento na Ferrari no ano seguinte.

lll FORA DAS PISTAS

Nasceram em 11 de março Arturo Merzario, piloto italiano que participou de 85 GPs na década de 70, a cantora Nina Hagen, o dublê de maluco Johnny “Jackass” Knoxville e o mestre máximo Douglas Noël Adams. O humor e a genialidade de Douglas Adams foram parte formadora do meu caráter, tanto nos esquetes de Monty Python quanto na série nerd mais querida da história, O Guia do Mochileiro das Galáxias. Feliz aniversário, e obrigado pelos peixes.

Carlos Eduardo Valesi

Médico, marido, pai, atleticano, roqueiro, podcaster, jogador de poker e fã de F1. Nem sempre nessa ordem.. Nosso membro Ferrarista é frequentador assíduo do autódromo de Interlagos e para ele, Schumacher foi o maior de todos. Também baseado em Curitiba, é o comandante do notório podcast Edição Rápida, de literatura. Esta é sua conta no Twitter, notoriamente bloqueada por Barrichello, o que não chega a ser uma surpresa para quem ouve o programa.

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