Para o público brasileiro com menos de 30 anos, a série Senna, nova aposta da Netflix, pode causar um estranhamento inicial. Não pelas pistas, vitórias ou títulos — amplamente conhecidos —, mas pela dimensão simbólica de um personagem que, segundo seu diretor, representou algo hoje inexistente no país: um ponto de convergência nacional.
“Algo que faz essa série ser tão importante é mostrar que existe a possibilidade de haver uma figura capaz de unir o Brasil para além da polarização política e institucional”, afirma Vicente Amorim, em entrevista à BBC News Brasil. “Senna era transversal: dialogava com diferentes classes sociais, origens socioeconômicas e posições ideológicas. Eu não vejo hoje ninguém ocupando esse lugar que ele teve há 30 anos.”
A minissérie, composta por seis episódios, percorre os bastidores da vida de Ayrton Senna, tricampeão mundial de Fórmula 1 em 1988, 1990 e 1991, cuja morte trágica em Ímola, em 1994, interrompeu precocemente uma carreira que já havia se inscrito na eternidade do esporte.

Do ponto de vista estatístico, seus números foram superados por nomes como Michael Schumacher e Lewis Hamilton, que o ultrapassaram em títulos, vitórias e pole positions. Ainda assim, Senna permanece no imaginário coletivo como referência absoluta. Pilotos de diferentes gerações — de Hamilton a Charles Leclerc, passando por jovens como Kimi Antonelli, que estreia na Fórmula 1 no próximo ano — o citam como inspiração. Publicações especializadas, como a revista Autosport, continuam a colocá-lo no topo das listas dos maiores da história da categoria.
Mas o mito de Senna extrapola os limites das pistas. Ídolo popular, personagem frequente da vida social e afetiva brasileira, teve relacionamentos amplamente acompanhados pelo público e recebeu, após a morte, honras reservadas a chefes de Estado, em um funeral que reuniu multidões nas ruas de São Paulo.
Para Amorim, esse alcance se explica, em parte, pela fidelidade inegociável de Senna a seus princípios. “Ele se transformou em símbolo de alguém que acredita no próprio potencial, que não tem medo de lutar contra o sistema e que permanece fiel às suas convicções”, diz. Soma-se a isso um carisma raro, temperado por humildade, que o tornava próximo das pessoas comuns. “Diferentemente de muitos ídolos inatingíveis, Senna parecia alguém com quem você podia se identificar. Olhávamos para ele e pensávamos: ‘eu posso ser como esse cara’.”
A história do piloto já foi contada em livros e documentários, entre eles o consagrado Senna (2010), de Asif Kapadia. Amorim, no entanto, defende que a ficção permite alcançar camadas inacessíveis ao jornalismo factual. “Conhecemos os dados e os acontecimentos, mas só a ficção possibilita acessar a essência, o caminho do coração”, afirma.

A série aborda episódios marcantes da vida pessoal do piloto, como os relacionamentos com Xuxa e Adriane Galisteu, confidências ao amigo Galvão Bueno e rivalidades históricas, especialmente com Alain Prost. Para conduzir a narrativa, foi criada a personagem fictícia Laura Harrison, interpretada por Kaya Scodelario — uma síntese de jornalistas e pessoas que circularam ao redor de Senna. “É pelos olhos dela que acompanhamos a evolução do Ayrton, numa relação de colaboração, conflito e respeito mútuo com a imprensa”, explica o diretor.
A ambição narrativa se reflete na escala da produção. Planejada por mais de uma década pela produtora Gullane, Senna foi filmada ao longo de seis meses no Brasil, Argentina, Uruguai, Reino Unido e Mônaco. Envolveu mais de 3 mil profissionais de oito países, um elenco de 231 atores e atrizes de nove nacionalidades e mais de 14 mil figurantes.
O desafio técnico foi monumental: recriar com precisão os anos 1980 e corridas históricas da Fórmula 1. Autódromos icônicos, como Mônaco, e carros lendários da Lotus, McLaren e Williams ganharam vida por meio da reconstrução de 22 veículos originais e da recriação digital de outros 80. “O fã vai reconhecer tudo exatamente como era”, garante Amorim, que compara a complexidade do trabalho à de grandes produções de ficção científica — com a diferença de que, aqui, a fidelidade histórica era inegociável.
“Sou fã de Fórmula 1 e de Ayrton Senna”, conclui o diretor. “Não havia a menor possibilidade de deixar qualquer aspecto técnico, artístico ou histórico aquém do que ele merece.”
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