Venturi, Techeetah, Audi e a eterna discussão sobre ordens de equipe

Quando pensei em escrever esse texto, tinha em mente as disputas intensas ocorridas em Santiago entre os pilotos da Venturi (Felipe Massa e Edoardo Mortara) e da Techeetah (António Félix da Costa e Jean-Eric Vergne) apenas. No entanto, em 29 de janeiro, a Fórmula E divulgou em seu canal oficial no YouTube, um vídeo com os melhores rádios da etapa chilena e, com eles, uma disputa que passou despercebida durante a transmissão: a da dupla da Audi (Lucas di Grassi e Daniel Abt).

A discussão em torno das ordens de equipe é sempre polêmica, independentemente da categoria em que ocorram. Com defensores e críticos ferrenhos, é quase impossível chegar a um consenso em torno do assunto, cada um com sua opinião, todos criamos um amontoado de verdades sobre o quanto a equipe deve ou não intervir no posicionamento dos pilotos na pista. Esse vídeo da Fórmula E nos ajuda a ver as coisas por um lado que quase nunca é possível durante as transmissões, como bem disse Daniel Abt “as pessoas também deveriam saber como é estar dentro do carro”.

Mas vamos entender o que aconteceu em cada um desses casos, começando com a dupla da Venturi?

lll Venturi

Felipe Massa largou em 4º e Edoardo Mortara, em 7º. Logo na primeira curva, Massa caiu para 5º e se viu disputando a posição com seu companheiro de equipe. Poucos metros depois, Mortara ficou com a 5ª posição e Felipe com a 6ª.

Os dois pilotos ultrapassaram Oliver Turvey da Nio que estava em 4º lugar, Felipe Massa ainda tentou uma ultrapassagem em Edoardo Mortara enquanto estava com o Modo Ataque ativado, mas seu companheiro de equipe conseguiu manter as portas fechadas e o 4º lugar. O recado do rádio para Felipe foi “precisamos terminar a corrida com o Edo, veremos isso no final”. Mortara ainda chegou a ficar em 3º após passar por Max Gunther, mas o piloto da BMW rapidamente recuperou sua posição.

Massa aproveitou que Mortara passou pela zona de ativação do Modo Ataque para ultrapassar o companheiro de equipe, mas o suíço não deixou barato e mergulhou no hairpin para ter seu 4º lugar de volta. Seguindo pela linha de dentro, Mortara impediu que Massa completasse a curva como deveria, o brasileiro teve praticamente que parar na pista e ainda deu um leve toque no muro. Felipe ainda perdeu posições para os dois carros da Techeetah e quase ficou atrás de Nyck de Vries da Mercedes, mas conseguiu se manter em 7º. Pelo menos temporariamente, pois a posição foi perdida quando o holandês conseguiu uma ultrapassagem com o auxílio do Modo Ataque.

No fim, Massa ainda se viu envolvido em um incidente com a dupla Audi (que discutiremos  logo a seguir), foi tocado por Abt, rodou e terminou a corrida em 9º. Mortara nem chegou a terminar a corrida, abandonou com problemas no carro. 

O Boletim do Paddock procurou a Venturi para entender se a equipe havia passado alguma orientação para os pilotos durante a prova ou se tinha uma declaração oficial sobre o incidente, a equipe disse apenas que assuntos como esse são tratados internamente e que cada piloto corre por si, dentro do que for de maior interesse para a equipe e que não tinha mais nada a declarar sobre o ocorrido em Santiago. 

Quem ouviu o BPCast #81 com o review da etapa do Chile, acompanhou minha opinião sobre o incidente: para mim, Mortara foi o responsável por estragar a boa corrida que Massa fazia até aquele momento. A ultrapassagem aconteceu no momento errado e da forma errada. O suíço poderia ter esperado um pouco mais recuperar sua posição, se Massa não tivesse parado na pista, os dois carros poderiam ter abandonado e o prejuízo para a equipe seria enorme. O vídeo dos rádios não mostrou o que foi dito nesse momento, mas com certeza Felipe deve ter reclamado horrores. O próprio Jack Nicholls, narrador da transmissão oficial da Fórmula E, classificou a manobra como um “trabalho em equipe horrível da Venturi”. De repente, valeria a pena com “calma aí, parça” vindo da garagem da equipe monegasca.

lll Audi

Quebrando a linha cronológica e indo para a parte final da corrida, vamos falar da Audi agora. Como mencionei antes, esse incidente não foi mostrado durante a transmissão. Tanto que, nas entrevistas pós-corrida, Felipe Massa falou diversas vezes que Daniel Abt havia batido nele e ninguém sabia o que tinha acontecido de fato. O esclarecimento veio justamente no vídeo dos rádios. 

Faltando cerca de cinco minutos para o fim da corrida, Massa estava na 7ª posição seguido por Daniel Abt e Lucas di Grassi quando o piloto alemão da Audi recebeu via rádio a orientação de que se ele não resolvesse a situação [ultrapassar Massa], teria que trocar de lugar com di Grassi. Abt reagiu imediatamente: “isso significa que eu estou drenando a energia dele e ele que ganha a ultrapassagem. Qual [o nível da] energia dele? Foquem um pouco na corrida e não em ordens de equipe. Vou perder mais uma posição se fizermos a troca”, o engenheiro de Abt respondeu que Lucas possuía 1% a mais de energia que Massa. Toda essa conversa aconteceu enquanto os três carros se aproximavam do hairpin, nesse momento Lucas di Grassi ultrapassou o companheiro de equipe e Daniel Abt deu um leve toque em Felipe Massa fazendo o brasileiro rodar.

Daniel Abt continuou questionando a decisão da equipe: “ótimo trabalho! Então meu companheiro de equipe me ataca. Incrível!”. Após o incidente, Abt perdeu posições para Buemi, di Grassi, Calado e Massa. O resultado final para a Audi foi Lucas di Grassi em 7º e Daniel Abt em 14º. 

Novamente uma situação mal gerenciada por uma equipe que deixou de pontuar com os dois carros. Ao final da prova, o próprio engenheiro de Abt reconheceu que não é fácil administrar esse tipo de coisa, enquanto o piloto definiu como “mágico” a manobra de di Grassi em Massa, “muito melhor do que eu fiz” – o tom de voz era de tristeza, não de ironia. Di Grassi, aliás, reclamou que o companheiro de equipe “custou muitos pontos para ele”. 

A ultrapassagem de di Grassi em Abt também poderia ter acontecido em outro momento, quando fosse menos arriscado para os dois, como na reta curva, por exemplo. Situação complicada para quem tem que tomar decisões numa fração de segundo. 

lll Techeetah

Deixei a Techeetah por último porque esse foi, definitivamente, o momento decisivo da corrida, quando falamos de trabalho em equipe. António Félix da Costa e Jean-Eric Vergne largaram em 10º e 11º, respectivamente. Vergne ultrapassou da Costa já na primeira curva e os dois foram escalando o pelotão até chegarem ao 3º e 4º lugares, com o português seguindo o francês de perto. Na primeira ativação do Modo Ataque, Vergne perdeu a posição para da Costa, mas a recuperou rapidamente: “Ok, ele me deixou passar”, JEV informou pelo rádio. 

A comunicação dos pilotos com a equipe era intensa, tanto que quando eles passaram novamente pela zona de ativação do Modo Ataque – juntos dessa vez – o engenheiro de Vergne o avisou pelo rádio que da Costa havia dito que queria ir junto. 

Momentos depois, quando o Modo Ataque dos dois estava acabando e da Costa tinha um pouco a mais de energia extra restante, Vergne pediu para que a equipe dissesse para seu companheiro “deixar que ele [JEV] respirasse um pouco ou ficariam com a mesma energia [na bateria]”, o francês foi informado que a bateria de da Costa tinha um desempenho pouco melhor que a dele (0.1 apenas). O próprio da Costa avisou pelo rádio que “deixaria Vergne ir na curva 1” e assim o fez.

O português tentava, sem sucesso, a ultrapassagem em cima do companheiro. “É a primeira e última vez que deixo o JEV passar”, disse que ele no rádio. O que ouviu da equipe foi “estamos bem, ainda bem temos 100 segundos de Modo Ataque. Foco, mantenha a cabeça baixa, tudo vai…”. Irritado, da Costa interrompeu seu engenheiro para dizer que o Modo Ataque havia acabado. De alguma forma, o engenheiro viu o tempo errado de Modo Ataque na tela. Em tom de surpresa, apenas respondeu “Oh” quando percebeu o erro que havia cometido. O desentendimento entre o da Costa e seu engenheiro continuou quando o piloto recebeu um pedido de mais informações da equipe, o português respondeu secamente que estava ultrapassando pessoas, “não sou um herói”, disse ele. 

No momento crucial para a equipe – quando Vergne teve problemas com a proteção do pneu encostando na roda dianteira esquerda, gerando uma enorme fumaça branca – o piloto do carro 25 recebeu uma ordem clara para deixar seu companheiro de equipe passar, pois provavelmente teriam que trocar o bico do carro. A ordem foi sumariamente ignorada e Vergne manteve o ritmo, mesmo com o carro apresentando problemas. No carro 13, da Costa não escondia sua irritação com o companheiro de equipe: “isso não é o que um piloto de fábrica faz! O carro dele está fumaçando como *****, ele não está saindo da frente”. O que recebeu como resposta foi que a equipe estava atenta a isso e se mostrou ainda mais irritado para responder – quase gritando – “não, você não está! Ele está fechando a porta!”. Quanto mais o engenheiro pedia para da Costa ficar calmo, mais ele demonstrava sua raiva, chamando o companheiro de idiota e dizendo que “podemos vencer essa corrida”.

Quando Antônio finalmente conseguiu fazer a ultrapassagem, Vergne foi avisado que recebeu uma bandeira preta e laranja e que teria que parar nos boxes, a menos que conseguisse remover a peça danificada do carro. Pouco tempo depois, a peça acabou saindo do carro do francês e a equipe o avisou que ele teria que parar, Vergne ainda tentou argumentar, mas não teve jeito. A parada nos boxes aconteceu quando faltavam 7 minutos para o fim da corrida e eles decidiram abandonar. 

Após o abandono de JEV, da Costa assumiu a liderança da corrida e todos estavam certo de sua vitória quando ouviu em rádio que havia problemas na bateria do carro e que ele precisaria “tirar o pé” para conseguir completar a prova. O curioso é que minutos antes, o próprio piloto havia informado a equipe que achava que a temperatura da bateria estava alta demais. Da Costa teve, inclusive, que abrir mão da energia do regen para não comprometer a bateria. No fim das contas, Antônio chegou em segundo lugar com um gosto amargo na boca e um sentimento de frustração com a equipe, o desabafo aconteceu quando ele se dirigia ao estacionamento após a bandeirada e foi parabenizado com “trabalho incrível” do seu engenheiro, “Infelizmente não posso dizer o mesmo de você, o que estamos fazendo? Poderíamos ter vencido hoje”, “Eu sei, Antônio, mas tivemos problemas”, “Nós sempre vamos ter problemas! Ok… Vamos conversar depois. P2. Temos muito trabalho a fazer”.

Toda essa situação da Techeetah também poderia ter sido melhor conduzida pela equipe. Vergne assumiu um risco enorme permanecendo na pista com o problema que tinha, se seu pneu esquerdo tivesse estourado, era fim de prova para os dois pilotos e o prejuízo da Techeetah seria irrecuperável. A fumaça que saiu do carro 25 prejudicou a visibilidade dos outros pilotos, Stoffel Vandoorne que não conseguia ver nada e que aquilo era muito perigoso. O próprio Vergne reconheceu ainda dentro do carro, quando estava indo para os boxes, que não tinha mais condições de usar aquele pneu, mas mesmo assim, não se mostrou arrependido ou se desculpou pelo que fez, pelo menos não em público. 

Tentamos contato com a Techeetah para comentar a situação, mas não recebemos retorno. Em outras entrevistas, da Costa disse apenas que conversariam com Vergne internamente. 

Em apenas uma corrida tivemos 3 equipes diferentes passando por situações parecidas de alguma forma. Embora eu concorde em partes com o argumento de que os pilotos devem ser livres para disputarem posições na pista, é preciso reconhecer que em alguma situações isso não se aplica e a equipe precisa intervir sim, inclusive de forma enérgica. Talvez António Félix da Costa teria vencido se não tivesse perdido tanto tempo atrás do companheiro de equipe. Talvez Daniel Abt teria marcado bons pontos, caso não tivesse sido pressionado pela Audi. Talvez Felipe Massa teria conseguido um pódio, caso Edoardo Mortara não tivesse comprometido sua corrida. São muitas hipóteses, eu admito, mas a verdade é que nunca saberemos o que poderia ter acontecido. 

O que fica de aprendizado para todos, inclusive para nós, o público, é tomar decisões que influenciam o resultado dos seus próprios pilotos coloca engenheiros e chefes de equipes em uma situação perigosa. São milésimos de segundo e diversos fatores a considerar antes de apertar o botão do rádio. A Fórmula E possui corridas de curta duração e quanto mais se demora para se chegar a uma conclusão, mais trágico pode ser o resultado final. Após a bandeirada, é possível ver as expressões de alegria, raiva ou frustração dos pilotos, mas só eles sabem o que acontece ali embaixo do capacete. As sábias palavras de Daniel Abt (“as pessoas também deveriam saber como é estar dentro do carro”) refletem muito o meu sentimento em relação a toda essa gama de acontecimentos durante as corridas, mas pensando racionalmente, acredito que ordens de equipe são um mal necessário para o esporte a motor, porque no fim das contas, a equipe deve ser mais importante que um ou outro piloto e todos precisam trabalhar para atingir um objetivo comum. Só é preciso fazer com os pilotos lembrem isso quando estiverem na pista com a adrenalina lá em cima e toda aquela sede de vencer as corridas. Facinho, né?

 

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Cinthia Maria

Cinthia Venâncio comenta zoeiramente a Fórmula 1 desde os sete anos de idade e nas horas vagas é profissional de marketing, fotógrafa, doceira, redatora e revisora. Como todo bom cearense, nunca diz não a um baião de dois com queijo coalho e carne de sol. Aprecia rock do bom, não tem vergonha de dizer que não é fã do Tarantino e sempre é a motorista da rodada. Geralmente esquece o que não deveria