A série Senna, que estreia na Netflix nesta sexta-feira (29/11), propõe-se como uma obra de ficção inspirada na trajetória de Ayrton Senna. Diálogos, conflitos pessoais e determinadas situações foram criados pelos roteiristas com liberdade narrativa, ainda que sustentados por fatos históricos amplamente conhecidos.
O fascínio universal por Senna, contudo, transcende qualquer adaptação dramatúrgica. “Seu apelo, o fascínio mundial por ele, reside não apenas no talento surpreendente, mas também na profundidade e na complexidade de sua personalidade. Sim, ele foi um dos maiores pilotos de corrida que o mundo já viu. Talvez o maior. Mas era muito mais do que isso”, escreveu o jornalista Andrew Benson ao refletir sobre os 30 anos da morte do brasileiro.
Segundo Benson, Senna possuía um carisma quase hipnótico. “Era magnético de se ouvir. Imensamente inteligente, ele se comportava como um filósofo, disposto a refletir sobre os perigos de sua profissão, sua própria mortalidade e o impacto disso em sua vida.”
A seguir, episódios da vida de Ayrton Senna que aparecem na série — e outros que ficaram de fora — e que são tão extraordinários que poderiam ser confundidos com ficção, embora sejam fatos rigorosamente documentados.
Atenção: o texto a seguir contém spoilers da série Senna, da Netflix.
A produção mostra momentos íntimos do piloto com Xuxa, cenas de descontração com Galvão Bueno e passagens que exploram sua infância e laços pessoais. Parte dessas situações é fruto de licença criativa. Um exemplo é a personagem da jornalista britânica Laura Harrison, que nunca existiu e funciona como uma síntese ficcional da opinião pública internacional da época.
Ainda assim, muitos eventos centrais da carreira de Senna foram retratados com notável fidelidade, baseados em depoimentos, registros audiovisuais e documentos históricos. E, curiosamente, a própria realidade frequentemente soa mais exagerada do que qualquer invenção de roteiro.
Embora não seja o maior campeão da Fórmula 1 em números — com três títulos mundiais, atrás de Schumacher, Hamilton e Prost —, Senna tornou-se um mito singular. Sua morte precoce, aliada a uma sucessão de episódios marcantes e performances quase sobrenaturais, consolidou um legado que atravessa gerações.
Três décadas após sua morte, Senna ainda figura em listas dos maiores pilotos da história, muitas vezes no topo, e segue citado como inspiração por competidores que sequer eram nascidos quando ele dominava as pistas.
O título perdido por uma mudança de regra
Um dos eixos narrativos da série — recorrente também em biografias e no documentário Senna (2010), de Asif Kapadia — é a sensação de que Ayrton enfrentava um sistema hostil, permeado por jogos políticos e favoritismos, especialmente em favor de pilotos europeus.
Essa percepção remonta aos tempos do kart. No primeiro episódio, Senna aparece perdendo o título mundial de kart de 1979 para o holandês Peter Koene, apesar do empate em pontos. O brasileiro acreditava que o critério de desempate seria o resultado da bateria final, vencida por ele. Convencido da conquista, comemorou diante do público em Estoril.
Dias depois, porém, a FIA anunciou que o desempate considerava os resultados das semifinais, nas quais Koene havia levado vantagem. A decepção marcou profundamente Senna, que jamais conquistaria um título mundial no kart.
A quase aposentadoria aos 20 anos
A série também aborda as dificuldades iniciais de Senna, especialmente a resistência familiar à sua carreira internacional. Em 1981, aos 20 anos, ele mudou-se para a Inglaterra para disputar a Fórmula Ford 1600, acompanhado da esposa Lilian.
O sucesso foi imediato: venceu 12 das 19 corridas da temporada e conquistou o título logo em sua estreia. Ainda assim, conflitos internos, rivalidades intensas — como o episódio em que foi fotografado segurando o argentino Enrique Mansilla pelo pescoço após um acidente — e dificuldades pessoais culminaram em uma decisão surpreendente.
Ao fim do ano, Senna anunciou sua aposentadoria. O plano era retornar ao Brasil e trabalhar nos negócios da família. A pausa, porém, duraria pouco.
A corrida vencida com fita adesiva
De volta à Europa, agora determinado a chegar à Fórmula 1, Senna protagonizou um dos episódios mais inusitados do automobilismo. Na decisão da Fórmula 3 britânica de 1983, em Thruxton, sua equipe utilizou fitas adesivas para obstruir a entrada de ar do radiador, aquecendo o motor mais rapidamente.
O risco era extremo. Quando o carro superaqueceu, Senna afrouxou os cintos e arrancou as fitas manualmente durante uma chicane, uma das partes mais perigosas do circuito. A manobra funcionou. Ele venceu a corrida, o campeonato e entrou definitivamente no radar da Fórmula 1.
A quase vitória na chuva de Mônaco
Em 1984, estreando na F1 pela modesta Toleman, Senna viveu um de seus momentos mais emblemáticos. Sob chuva intensa em Mônaco, largou em 13º e avançou de forma impressionante, alcançando Alain Prost, líder da prova.
A corrida foi interrompida por bandeira vermelha. Senna cruzou a linha de chegada à frente, mas Prost foi declarado vencedor por estar liderando na volta anterior. A decisão gerou polêmica e consolidou a reputação de Senna como “rei da chuva” e futuro “rei de Mônaco”.
O erro solitário que virou lenda
Em 1988, já na McLaren, Senna dominava o GP de Mônaco com mais de 50 segundos de vantagem quando, inexplicavelmente, bateu sozinho na entrada do túnel. Abandonou o carro, foi para casa e permaneceu isolado por horas.
O episódio entrou para a história como símbolo de sua obsessão pela perfeição. Ainda assim, naquele mesmo ano, Senna conquistaria seu primeiro título mundial.
Suzuka 1989: a desclassificação que custou um título
A colisão com Prost no Japão, em 1989, seguida pela vitória anulada e a desclassificação, tornou-se um dos capítulos mais controversos da Fórmula 1. Senna acusou o então presidente da FIA, Jean-Marie Balestre, de parcialidade.
Multado, suspenso (pena posteriormente suspensa) e indignado, o brasileiro carregaria esse episódio como uma ferida aberta até o ano seguinte.
Suzuka 1990: o título decidido na primeira curva
Em 1990, novamente no Japão, Senna e Prost colidiram logo na primeira curva. O abandono de ambos garantiu o título ao brasileiro. Anos depois, Senna admitiu que provocara a batida como resposta ao que considerava uma injustiça anterior.
Interlagos 1991: a vitória com uma única marcha
Já bicampeão, Senna enfim venceu em casa. Com problemas no câmbio, completou as voltas finais apenas com a sexta marcha, sofrendo espasmos musculares intensos. Cruzou a linha de chegada exausto, mal conseguindo erguer o troféu — uma das imagens mais icônicas do esporte brasileiro.
Dois episódios reais que a série não mostra
Entre os fatos ausentes da série está a paralisia facial sofrida por Senna em 1984, causada por mastoidite. O problema ameaçou sua carreira, mas foi superado ao longo de 1985.
Outro momento lendário ocorreu no GP da Europa de 1993, em Donington Park. Sob chuva intensa, Senna realizou a famosa “Volta dos Deuses”, assumindo a liderança ainda na primeira volta após ultrapassagens memoráveis. A atuação consolidou definitivamente sua aura de genialidade em condições adversas.
Mais do que um piloto, Ayrton Senna foi um personagem real cuja vida, por si só, dispensava ficção.
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