Volta de Lauda, greve dos pilotos e aula de Prost – Dia 247 dos 365 dias mais importantes da história do automobilismo

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O ano de 1982 foi um dos mais marcantes da história da Fórmula 1. A temporada foi marcada por brigas e perdas dentro e fora das pistas, além da evolução dos carros e dos motores. Foi uma época de grandes transformações para equipes, pilotos e dirigentes.

O circo se reunia em janeiro para a etapa da Kyalami, sendo esta a última vez que uma temporada da categoria se iniciara tão cedo. A grande novidade para 1982 era o regresso de Niki Lauda ao automobilismo após dois anos sabáticos. O austríaco foi contratado pela McLaren para liderar a equipe aos dias de glória, após alguns anos sofridos.

Lauda literalmente chegou causando Fonte: Memória F1

No entanto, a volta de Lauda desencadeou uma reação que abalou toda a F1, mas não no aspecto desportivo. Tudo começou quando o austríaco recebeu uma carta da FISA (atual FIA), informando de uma novidade que o desagradaria profundamente.

A carta informara uma novidade que viria a ser instituída: a Superlicença. Para um piloto poder guiar na categoria máxima do automobilismo, ele precisava cumprir alguns requisitos como a marca de 300 quilômetros em testes com o carro da categoria. Além disso, uma cláusula previa que o piloto não poderia trocar de equipe no meio da temporada, pois ele estaria vinculado àquela escuderia por, no mínimo três anos! E mais: o corredor poderia ser punido se “causasse danos aos interesses materiais e morais do campeonato do mundo”, isto é, não poderiam criticar os órgãos como a FISA ou a FOCA (atual FOM).

Daniele Audetto, Alan Rees, Ken Tyrrell, Bernie Ecclestone, Peter Warr e Colin Chapman. Bernie Ecclestone (de costas) conversa com outros chefes de equipe Fonte: Memória F1

Ao desembarcar na África do Sul, Lauda conversou com o presidente da Associação dos Pilotos de Grande Prêmio (GPDA, sigla em inglês) na época, Didier Pironi, para que a associação dos pilotos defendesse os seus direitos. Entretanto, a primeira tratativa entre os corredores e a FISA terminou sem acordo. Assim, na quarta-feira que antecedia a corrida, dia 20, o motim estava preparado.

Os carros até estavam prontos para a primeira sessão de treinos livres daquela etapa. No entanto, 30 dos 31 pilotos inscritos para a etapa sul-africana declararam greve e não participaram da sessão. Todos embarcaram em um ônibus que deixaria o autódromo de Kyalami e os levaria rumo ao hotel Sunnyside em Johanesburgo, a 30 quilômetros da pista. O único que não se juntou à manifestação foi o alemão Jochen Mass, da Arrows.

Tira essa Kombi daí! Fonte: Grande Prêmio

A organização ainda tentou evitar a fuga, estacionando uma Kombi em frente ao ônibus dos pilotos, mas em um momento de distração dos funcionários do autódromo, Jacques Laffite entrou no furgão e liberou o caminho para o “busão” seguir sua jornada ao hotel Sunnyside, escoltados por jornalistas do mundo inteiro que acompanharam o movimento.

A afronta irritou profundamente os chefões da categoria. Você deve imaginar que mexer com figuras como Jean-Marie Balestre (FISA) e Bernie Ecclestone (FOCA) não é algo muito vantajoso. Com isso, a dupla já mexia seus pauzinhos contra a decisão dos pilotos. O francês, por exemplo, queria simplesmente banir todos os envolvidos, enquanto Bernie incentivaria a demissão compulsória dos 30 corredores e a contratação de novos pilotos.

Enquanto o “eixo do mal” matutava sobre os castigos para os desertores, os pilotos passavam a noite no hotel se precavendo de investidas dos chefes de equipe, que queriam os seus empregados de volta. Jackie Oliver, da Arrows, tentou invadir a força com dois policiais, mas a porta de entrada do edifício já estava trancado por uma barricada montada pelos grevistas.

Na função de presidente da GPDA, Pironi voltou ao autódromo para uma primeira negociação com Balestre e Bernie, mas não teve sucesso. O chefão da FISA ainda teve que aguentar uma “chuva de pães” na hora da janta, promovida pelas cônjuges dos pilotos revoltosos.

Já no hotel, os corredores transformaram a tensa noite sul-africana em um animado sarau. Elio de Angelis e Gilles Villeneuve mostraram seus dotes artísticos no piano. Slim Borgudd, baterista de renome, fez a sua demonstração de habilidade no instrumento. Até Lauda entrou na brincadeira e fez um show de stand-up!

A elite da F1 toda reunida no hotel Sunnyside Fonte: Memória F1
A elite da F1 toda reunida no hotel Sunnyside Fonte: Memória F1

Após as apresentações, os pilotos pegaram seus colchões e espalharam pelo espaço nos quartos, onde dormiram. Na calada da noite, uma deserção: o italiano Teo Fabi alegou que iria ao banheiro durante a madrugada, mas o piloto da Toleman fugiu do hotel e retornou a Kyalami, a pedido do seu chefe de equipe. Obviamente, a imagem do “carcamano” ficou machada entre os seus colegas.

Logo ao raiar do sol do dia 21, Pironi voltava a Kyalami para novas negociações com os mandachuvas. Após 1h45 de reunião, enfim o acordo: as cláusulas da superlicença sobre a proibição de transferência de pilotos e a regra das “boas condutas” foram finalmente abolidas. Assim, todos os pilotos voltaram ao paddock e a corrida poderia transcorrer normalmente… Ou não?

Afinal, os donos de equipe ainda estavam reticentes sobre o ocorrido, em especial Bernie Ecclestone. O velhote baixinho ainda era o chefe da Brabham e o comandante mandou adesivar todos os BT52 com o número 2, de Riccardo Patrese. Ou seja, Nelson Piquet, o campeão mundial de 1981, estava fora da prova.

Piquet (ao lado de Reutemann, o seu rival de 1981) dormiu no chão e quase foi barrado Fonte: Memória F1

Bernie argumentou que Piquet tinha ficado doente por dormir no relento do hotel Sunnyside e que não estava em condições físicas de correr. A justificativa não comoveu ninguém em Kyalami e os líderes da GPDA já se movimentavam para retomar as paralisações. Villeneuve logo agiu e levou o brasileiro ao hospital do autódromo para realizar os exames. Como a junta médica avaliou que o campeão de 1981 estava apto a correr, o velhote teve mais uma vez que ceder.

Posteriormente, a FISA chegou a multar todos os envolvidos em multas que iam entre US$ 5 mil e US$ 10 mil, além de suspensão de duas a cinco corridas on sursis (que seriam aplicadas somente em caso de nova infração), no entanto, a penalidade seria reduzida pela Corte de Apelação da FISA.

Reportagem (em inglês) sobre a greve

lll A corrida

Enfim, os carros da pista! Fonte: GP Expert

Após toda esta balbúrdia, finalmente os astros da categoria máxima do automobilismo voltavam ao trabalho para a etapa realizada em 23 de janeiro de 1982 no circuito de Kyalami. René Arnoux era o pole, a bordo do seu Renault com motor turbo. Piquet conseguia o segundo posto, mostrando que estava realmente apto para a disputa. Villeneuve e Patrese formavam a segunda fila, com Alain Prost e Pironi fechando a terceira.

Na largada, Arnoux manteve a dianteira, seguido pelo seu companheiro de equipe (Prost), enquanto a dupla da Ferrari, Villeneuve e Pironi vinham na sequência, à frente de Keke Rosberg, que fazia sua estreia na Williams.

Para Piquet, a etapa de abertura do mundial de 1982 terminou rapidamente. Após largar muito mal e despencar para 13º, o brasileiro tentava a recuperação, mas na quarta volta, acabou rodando e batendo nas cercas de proteção. A defesa do título não começava nada bem.

Motor da Ferrari de Villeneuve não aguentou Fonte: Stats F1

A dupla da Renault passava a ditar o ritmo e, mesmo sobre o escaldante verão do Hemisfério Sul, o carro francês aguentava bem o tranco. A Ferrari, por sua vez passou a sofrer um pouco mais com isso. Para Villeneuve, a corrida terminou em fumaça ainda na sétima volta. Com o domínio gaulês, a disputa ficou resumida entre Arnoux e Prost. Na volta 14, o Professor já dava mostras de sua grandeza e assumia a ponta.

A tranquilidade de Prost durou até o giro 41, quando um pneu furado o forçou a uma parada não programada nos boxes. Arnoux voltou à ponta seguido pelas Williams de Carlos Reutemann e de Rosberg, a Ferrari de Pironi e as McLaren de Lauda e John Watson. Já o francês com a outra Renault caía para oitavo, atrás da Tyrrell de Michelle Alboret.

Mas, Prost foi galgando posições rapidamente, se aproveitando dos pneus mais novos, mas também mostrando habilidade ante adversários complicados. Em um intervalo de 27 voltas, e o piloto da Renault número 15 já estava novamente na ponta do GP da África do Sul.

O pódio poderia ter sido 100% francês caso o motor de Pironi não tivesse apresentado falhas, o deixando muito atrasado na classificação final. Além disso, Arnoux cometeu um erro nas voltas finais e perdeu o segundo lugar para Reutemann.

Prost deu show e levou a prova sul-africana Fonte: GP Expert

Com os problemas da concorrência, o caminho ficou fácil para Prost vencer e, pela primeira vez, liderar a tabela de classificação do campeonato de pilotos. Reutemann terminou em segundo, subindo pela última vez ao pódio na carreira, e Arnoux foi o terceiro. Lauda terminou bem o seu retorno às pistas com o quarto posto, a frente de Rosberg e Watson.  Raul Boesel e Chico Serra terminaram a prova em 15º e 17° respectivamente.

Corrida na íntegra:

lll Epílogo

Com a prova concluída, o ambiente ficaria mais tranquilo, certo? Errado! A confusão da etapa sul-africana fez com que patrocinadores desistissem de manter a publicidade no grande prêmio seguinte da F1, na Argentina, o que levou ao cancelamento do evento. O certame continuou com o GP do Brasil, que seria realizado só em março no Autódromo de Jacarepaguá, mas os acontecimentos daquela corrida causariam um tremor ainda maior na categoria. Mas essa parte da história será contada mais a frente nesta série.

Apesar do revés em Kyalami, Bernie e Balestre conseguiram posteriormente enfraquecer a união dos pilotos, o que levou à dissolução da GPDA naquele momento. A entidade foi substituída pela Professional Racing Driver Association (PRDA), que tinha muito menos força política em relação a sua antecessora. A GPDA renasceu somente após o trágico GP de San Marino de 1994, para novamente defender os interesses e a integridade dos pilotos.

Fonte: Stats F1, GP Expert, Memória F1, Continental Circus, Grande Prêmio

Eduardo Casola

Sou formado em jornalismo pela Uniso, torcedor do Corinthians e adoro esportes, especialmente automobilismo!

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