Um havaiano de sorte

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| Por: Eduardo Casola Filho

lll Série 365:  Um havaiano de sorte – 02ª Temporada: dia 365 de 365 dias

(Hemmings)

O arquipélago do Havaí é um dos locais mais conhecidos e paradisíacos do mundo. O conjunto de ilhas no Pacífico Norte já pertenceu ao Japão e desde o século XIX, passou a integrar o território dos Estados Unidos da América, sendo efetivado a condição de estado em 1959. O local é conhecido pela sua natureza exuberante e sua cultura marcante. Logo, não há de se esperar uma ligação tão grande com o esporte a motor.

Mas, houve um personagem que escreveu seu nome na história do automobilismo, ainda que sem tantos feitos. Talvez a grande marca tenha sido sobreviver em um esporte tão perigoso, mesmo em momentos críticos. Esta foi a trajetória de Daniel “Danny” Ongais, o principal representante do Havaí no mundo da velocidade.

Nascido em Kahului no dia 21 de maio de 1942, Ongais debutou no esporte a motor pelo motociclismo aos 14 anos, em provas realizadas no próprio Havaí. Após servir o exército norte-americano na Europa ao completar à maioridade, Danny voltou à terra natal e disputou provas de motos.

Nos anos 1960, o havaiano passou a correr em quatro rodas, mas em provas de arrancada, tornando-se um piloto vencedor, colecionando títulos por todos os Estados Unidos. Foi dessa passagem bem-sucedida, que Danny ganhou os apelidos de On-Gas e Flyin’ Hawaiian (Havaiano Voador).

Nas arrancadas, uma carreira vitoriosa (Hot Rod Network)

Na década de 1970, Ongais passou a diversificar nas disputas e começou a participar de diferentes corridas nos States. O seu momento máximo foi a vitória nas 24 horas de Daytona de 1979, ao lado de Hurley Haywood e Ted Field com um Porsche 935/79 da equipe Interscope Racing.

Aliás, foi pela própria Interscope Racing que Danny teve suas participações mais marcantes nos monopostos. 1977, a escuderia alugou um Penske PC4 para disputar as duas últimas etapas do campeonato de Fórmula 1, no Canadá e nos Estados Unidos. Em Watkins Glen, o havaiano abandonou, mas em Mosport, Ongais terminou em sétimo. Até somaria quatro pontos se fosse pela regra atual da F1.

Passagem discreta na F1 (Continental Circus)

Em 1978, o havaiano correu duas corridas pela Ensign, mas abandonou, além de tentar a classificação em outras duas provas com um Shadow alugado pela Interscope, mas Danny não conseguiu se classificar.

Se a carreira na f1 foi pouco profícua, a Indy a história foi bem diferente. Quando o campeonato de monopostos nos EUA era organizado pela USAC, Ongais marcou presença ganhando seis corridas sendo uma em 1977 e cinco em 1978 (terminou o ano em oitavo, sendo a melhor temporada de sua carreira).

Apesar dos bons desempenhos na categoria americana, Danny teve alguns infortúnios em Indianápolis. O melhor resultado foi em 1979, com o quarto lugar nas 500 milhas, a bordo de um Parnelli-Cosworth, após largar em 27º.

Um projeto ousado, mas que terminou de forma desastrosa (Rodrigo Mattar)

Para o ano de 1981, a Interscope produziu seu próprio carro para disputar a Indy 500 daquele ano. A edição daquele ano trouxe momentos de grandes polêmicas e situações tensas. Na volta 58, o carro de Rick Mears pegou fogo durante o reabastecimento, causando uma grande confusão nos boxes.

O incêndio bagunçou a estratégia de boxes de muitos e Ongais assumiu a ponta por cinco giros. Na volta 63, o havaiano parou nos boxes, mas a equipe se atrapalhou toda e o piloto da Interscope perdeu quase 50 segundos parado nos pits. Danny voltou rapidamente para a pista, tentando recuperar o tempo perdido. E foi assim que a desgraça aconteceu.

No giro 64, Ongais tentou passar um retardatário por fora, na curva 3, mas o seu carro saiu de frente. O piloto tentou corrigir, mas evitou um choque violento com o muro. A imagem exibida pelas câmeras de TV mostrava uma cena grotesca: o bólido tinha virado uma enorme pilha de sucata em chamas, com o corpo do piloto todo retorcido e preso nas ferragens. O resgate teve que agir rápido para cortar os destroços para resgatá-lo, em condições críticas.

Apesar da imagem impactante, inacreditavelmente Danny sobreviveu. Os danos, no entanto, foram grandes: uma concussão, fraturas nas duas pernas e em um braço e um corte de 15 centímetros no diafragma. O havaiano teve que ficar um ano se tratando, mas na edição das 500 milhas de 1982, lá estava ele de volta às pistas. Ongais conseguiu se classificar em nono e andou nas primeiras colocações no começo, mas acabou batendo novamente, porém com menos gravidade. Ainda assim, havia se recuperado para voltar ao esporte.

Apesar do retorno às pistas, sua carreira na Indy deu uma estagnada, sem grandes resultados. Na era do campeonato organizado pela CART, os seus melhores resultados foram dois terceiros lugares (Watkins Glen 1980 e Michigan 1984). A partir de 1986, Ongais apenas se dedicou a poucas corridas da Indy, em especial a etapa de Indianápolis.

Em 1987, Danny teria sua melhor oportunidade: a Interscope usaria um Penske PC16, tendo apoio semioficial da esquadra do Capitão Roger. Era a chance do havaiano brigar efetivamente pela vitória na tradicional Brickyard.

O carro vencedor, mas não com o havaiano (IMS)

Contudo, o destino foi mais uma vez cruel com Ongais. Durante os treinos, o havaiano bateu forte na curva quatro. Apesar de ser um acidente não tão assustador como o de 1981, Danny teve uma concussão, sendo vetado pelos médicos de prosseguir na corrida.

Diante do acidente e do péssimo desempenho obtido pelos três carros PC16 nos primeiros treinos, Roger Pesnke optou por trocar os bólidos produzidos por sua equipe por chassis March do ano anterior. Sobre a vaga deixada por Ongais o substituto foi o veterano Al Unser, então tricampeão da Indy 500 e que não tinha vaga garantida até então.

E não é que, no carro 25, que seria usado pelo havaiano, Al Sr conquistou o seu quarto triunfo nas 500 milhas? Numa corrida marcada por muitos acidentes e quebras, o Unser Pai se igualou a AJ Foyt como o maior vencedor da tradicional prova norte-americana (marca alcançada também por Rick Mears em 1991).

Bom, depois de ver a oportunidade escapar, Danny deixou de lado a vida de piloto e passou a viver com sua família, de forma reservada, uma característica que sempre demonstrou ao longo da carreira.

No entanto, o automobilismo ainda lhe reservou uma última oportunidade. O ano de 1996 foi o primeiro após a cisão da CART com a IRL e a Indy 500 passou a integrar o calendário da segunda liga. Como as equipes mais fortes ficaram de fora da prova tradicional, as chances para os outsiders brilharem na grande prova dos EUA eram grandes.

A pole position ficou com Scott Brayton, que pilotava pela equipe Menard, uma das tradicionais remanescentes do grid da IRL. No entanto, durante o último treino antes da corrida, Brayton sofreu um grave acidente e veio a falecer.

O retorno inesperado (Continental Circus)

Para assumir o lugar de Brayton, a equipe entrou em contato com Ongais para assumir o bólido na Indy 500 de 1996. Como houve a troca de pilotos, o havaiano de 54 anos largaria da última posição, embora tivesse um carro bom. O havaiano teve dificuldades, rodou no começo da corrida e perdeu três voltas. Ainda assim, conseguiu manter um ritmo competitivo e terminou a prova em sétimo.

Ongais ainda tentou se classificar para a edição das 500 milhas de 1998, mas acabou não se classificando para aquela edição. Esta foi a deixa para o havaiano encerrar sua carreira e retornar à vida pacata.

Danny ainda foi nomeado para o Motorsport Hall of Fame of America em 2000 devido a sua carreira nas provas de arrancada. Ainda assim, merece as ovações por uma trajetória marcada por muita superação nas pistas, especialmente no principal palco do automobilismo.

Fontes: Stats F1, Rodrigo Mattar e Wikipedia


Bom, este é o último post (por enquanto) da série 365 dias. Foi uma experiência singular pesquisar e escrever sobre a história do esporte a motor ao longo desses dois anos. Agradeço pelo apoio do Rubens GP Neto e da Débora Santos Almeida em todo este projeto. Também saúdo todos os demais colunistas que escreveram para este espaço, como Carlos Eduardo Valesi, Cristiano Seixas, Erik Araújo, Érika Prado, Fernando Brandão Campos e Will Mesquita.

Foi uma honra escrever sobre as grandes histórias do esporte a motor e se aprofundar sobre os acontecimentos do passado e sobre as pessoas que transformaram o automobilismo, seja piloto, dirigente ou qualquer personalidade.

Fique ligado que mais novidades virão por aí! Um abraço e até a próxima!

lll A Série 365 Dias Mais Importantes do Automobilismo, recordaremos corridas inesquecíveis, títulos emocionantes, acidentes trágicos, recordes e feitos inéditos através dos 365 dias mais importantes do automobilismo.

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Eduardo Casola

Sou formado em jornalismo pela Uniso, torcedor do Corinthians e adoro esportes, especialmente automobilismo!