Um desbravador português nas pistas – Dia 303 de 365 dias mais importantes da história do automobilismo.

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Fonte: 16 Válvulas

Portugal, terra de grandes histórias da humanidade e parte importante nas grandes transformações nos rumos das sociedades contemporâneas. As suas ricas tradições são conhecidas pelos brasileiros, herdeiros pelas ligações coloniais ao longo dos séculos. Apesar da fama vanguardeira, o berço de Camões não tem propriamente um vasto histórico nas pistas de asfalto. No entanto, as últimas décadas trouxeram nomes que representam o automobilismo lusitano.

Um dos responsáveis por abrir o caminho para os pilotos portugueses no mundo da velocidade foi José Pedro Mourão Nunes Lamy Viçoso, ou simplesmente Pedro Lamy. Nascido no município de Aldeia Galega em 20 de março de 1972, o garoto teve os primeiros contatos logo na infância, com o apoio do pai, Antônio (que foi corredor de ralis).

Aos cinco anos, Pedro ganhou sua primeira moto, para competir em torneios locais de mini-motocross. Com o incentivo e o talento, as conquistas vieram: O garoto ganhou quatro títulos nacionais ainda na infância. Aos 13, o jovem Lamy trocava as duas pelas quatro rodas, tornando um dos expoentes do kart lusitano, faturando o título português em 1988. No ano seguinte, já salta aos monopostos, faturando o campeonato de Fórmula Ford de Portugal.

Assim, chegava a hora de desbravar o mundo da velocidade. O primeiro desafio é no campeonato europeu de Fórmula Opel, que contava com nomes como Rubens Barrichello e David Coulthard. Após um ano de experiência, Lamy foi soberano na temporada seguinte, tornando campeão em 1991, além de ajudar Portugal a faturar por dois anos seguidos a Taça das Nações, corrida tradicional daquela categoria.

Em 1992, Lamy vai para a Alemanha disputar o campeonato de Fórmula 3, na equipe de Willi Weber (nada menos que o manager da carreira de Michael Schumacher). Com uma boa equipe, o português se destaca vencendo o certame, além do Masters de Zandvoort e do segundo lugar no Grande Prêmio de Macau.

No ano seguinte, a Fórmula 3000 era o desafio. Lamy entra como um dos favoritos ao título e vence no circuito francês de Pau, mas não é o suficiente para derrotar o francês Olivier Panis. Apesar do vice-campeonato, as portas da Fórmula 1 se abriram ainda em 1993.

Passagem pela Lotus, tumultuada pelo ocaso da escuderia (Motorsport.com)

A Lotus apostou no português como substituto de Alessandro Zanardi, lesionado após um acidente em Spa-Francorchamps. O português disputou cinco provas naquela temporada, mas com uma equipe decadente e a falta de experiência, não foi possível buscar pontos naquele ano.

Lamy seguiu na tradicional (porém claudicante) escuderia em 1994. Num ano de terríveis acidentes e grandes tragédias, o luso não conseguiu escapar incólume da onda das trevas que atingiu a F1. No fatídico GP de San Marino, o português foi um dos acidentados, ao abalroar a Benetton de JJ Letho na largada. Apesar do forte impacto e do ferimento de seis pessoas, Pedro saiu ileso do carro.

Lamy foi um sobrevivente de Ímola (Continental Circus)

Porém, a maré trágica ainda não tinha passado. Duas semanas depois, em testes privados no circuito de Silverstone, Lamy bate a 240 km/h e teve fraturas pelo corpo, especialmente nas pernas. O português teve que ficar de molho por mais de um ano para se recuperar e, apesar da ameaça de abandonar as pistas, o piloto conseguiu se recuperar.

Com a aposentadoria de Pierluigi Martini, Lamy volta à F1 pela Minardi no GP da Hungria de 1995. Com a escuderia italiana em um momento financeiro ruim, o português tem dificuldades e o desempenho acaba sendo questionado (e até ridicularizado).

Mesmo assim, Lamy teve o seu momento de volta por cima no fim da temporada. Em um caótico GP da Austrália, com muitos abandonos, o português sobreviveu e levou sua Minardi ao sexto lugar, somando um histórico ponto para a Minardi e para o automobilismo de Portugal, pois era a primeira vez que um lusitano chegava aos pontos na F1.

Assim, o piloto luso seguiu na equipe italiana para 1996. Apesar desta ter sido a sua única temporada completa, Lamy não teve condições de brigar por pontos, num período de vacas magérrimas em Faenza. Ao término de 1996, Lamy deixava a Minardi e encerrava seu ciclo na F1 com 32 corridas e um ponto conquistado.

O primeiro ponto de um português na F1 (Rodrigo Mattar)

Mas automobilismo não se resume apenas à Fórmula 1. Lamy tornou-se um importante nome nas provas de superesportivos. O português foi campeão de FIA GT na classe GT2 com oito vitórias e dois segundos lugares nas dez provas do campeonato a bordo de um Viper da Oreca. Pedro também teve passagem na DTM pela Mercedes, mas sem grandes resultados.

Na chegada do novo século, o luso se acertou no universo das provas de longa duração. Lamy disputou provas por Chrysler, Mercedes e Aston Martin, mas foi na Peugeot em que teve os principais momentos da carreira na divisão principal. Em 2007, ao lado de Stéphane Sarrazin e Sebastien Bourdais, foi o segundo colocado nas 24 Horas de Le Mans. Se a vitória da principal prova de endurance escapou, o título da Le Mans Series veio no fim do ano, ao lado de Sarrazin.

A vitória em Le Mans chegou perto, com a Peugeot (Rodrigo Mattar)

Em 2011, outra vez a vitória em Le Sarthe passou perto, mas o luso ficou novamente com o segundo lugar com a marca francesa, novamente com a companhia de Bourdais, além de Simon Pagenaud.

Com a saída da Peugeot das divisões principais do endurance, antes do início do WEC, Lamy mudou os rumos para os carros de GT na competição organizada pela FIA. E a experiência rendeu dividendos, com o português finalmente conquistando a vitória em Le Mans no ano de 2012, mas na classe GTE-Am, a bordo de um Chevrolet Corvette da equipe Larbre, ao lado dos franceses Patrick Bornhauser e Julien Canal.

A partir de 2013, Lamy tornou-se piloto da Aston Martin e até hoje corre pela montadora inglesa na classe GTE-Am no campeonato mundial de endurance. Em 2017, enfim a coroação com o título mundial da classe ao lado do canadense Paul Dalla Lana e do austríaco Mathias Lauda (filho de Niki Lauda).

Com a Aston Martin, veio o título do WEC (Motorsport.com)

Aos 46 anos, Lamy segue firme em mais uma jornada no WEC e nas provas de longa duração das categorias ao redor do mundo, levando a bandeira de Portugal e inspirando novos nomes que representam a Terra de Camões no mundo da velocidade.

Fonte: Continental Circus, Rodrigo Mattar e Wikipedia

Eduardo Casola

Sou formado em jornalismo pela Uniso, torcedor do Corinthians e adoro esportes, especialmente automobilismo!

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