Tiro, porrada e bomba

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Por: Eduardo Casola Filho

lll Série 365: Tiro, porrada e bomba – 02ª Temporada: dia 337 de 365 dias.

A manobra da discórdia (Globoesporte.com)

Na física, o ponto de ignição pode ser definido como a menor temperatura pela qual se inicia a combustão, independente do procedimento a ser realizado. Em qualquer relação interpessoal, seja questões sociais, de trabalho e em outros meios, como no esporte, representa o princípio de algum conflito, com consequências explosivas.

Pois bem, o GP de San Marino de 1989, realizado em 23 de abril daquele ano, foi o que literalmente podemos chamar de uma corrida quente. Os acontecimentos daquela etapa moldaram a F1 dos anos seguintes de modo bem explosivo.

Tiro: a McLaren precisava se reerguer depois do fiasco do Grande Prêmio do Brasil. A equipe de Woking vinha de um 1988 dominante e foi derrotada pela Ferrari de Nigel Mansell na abertura do ano seguinte. Com o MP4/5 e o motor Honda aspirado sendo o conjunto tido como o mais poderoso.

Assim se deu na classificação. Ayrton Senna fez a pole com 1:26.610, dois décimos à frente de Alain Prost, seu companheiro de McLaren, e mais de 1 segundo e meio sobre o carro mais próximo, a Ferrari de Mansell. O novo bólido da escuderia inglesa estava em ponto de bala e a corrida parecia ser uma monótona e tranquila disputa entre os carros alvirrubros. Mas não foi bem isso que aconteceu.

Na largada, Senna pulou bem e assumiu a ponta, seguido por Prost. As duas McLaren abriam do resto do pelotão e a corrida parecia definida. Lá atrás, apenas uma batida de Ivan Capelli na segunda volta, mas nada muito importante acontecia no resto do pelotão. Isso até a quarta volta…

Berger em chamas (Memória F1)

Porrada: Os pilotos entravam na quarta volta da corrida. As Ferrari e Mansell e Gerhard Berger e as Williams de Riccardo Patrese e Thyerry Boutsen brigavam entre as terceira e sexta posições. Ao passarem pela curva Tamburello (a mesma aonde Nelson Piquet tinha sofrido uma forte batida dois anos antes, e também foi a mesma na qual Ayrton Senna encontraria seu destino em 1994), algo errado aconteceu:

De repente, a Ferrari 640 número 28 de Berger não faz a tangência da curva e foi de encontro à mureta de proteção a 270 km/h. O carro vermelho se despedaçou em pedaços enquanto seguia pela área de escape, vazando o combustível que tinha no tanque. Cerca de um segundo após os restos do bólido pararem, tudo entrou em chamas. Era uma explosão similar ao ocorrido com Niki Lauda em 1976.

Os fiscais agiram rápido e apagaram o incêndio em poucos segundos. O resgate ao piloto austríaco ocorreu no tempo ideal para que Berger não tivesse grandes sequelas (apenas queimaduras nas mãos). Apesar do susto em todo o paddock, a segurança da F1 tinha salvado a vida de alguém.

A paz estava com os dias contados (McLaren)

Bomba: A direção de prova interrompeu a corrida e resolveu reiniciá-la em nova largada, mas a partir da quarta volta. Os pilotos manteriam suas posições, mas não as diferenças. Assim, todo mundo foi para o novo procedimento de largada, com uma grande diferença em relação à anterior.

Na segunda largada, Prost pulou melhor e assumiu a ponta, com Senna na cola. Antes de chegar à curva Tosa, o brasileiro se posicionou e fez a ultrapassagem no francês recuperando a ponta. Observando toda a sequência, não houve nada que fosse digno de punição, nem mesmo os atuais grupos afrescalhados de comissários da FIA colocariam o lance sob investigação. O problema dessa situação foi o que havia sido combinado antes.

Prost pulou melhor, mas Senna deu o troco (McLaren)

Lembram-se no começo do texto que a McLaren estava preocupada com o início do campeonato e com o risco da perda da soberania? Pois bem, diante desse cenário, os dois pilotos fizeram um pacto verbal em que nenhum deles iria tentar atacar o outro durante a primeira volta após a largada até terem uma vantagem segura dos demais carros.

Para Prost, o seu companheiro de equipe havia descumprido o pacto, afinal Senna havia perdido a posição no arranque tinha que esperar que ambos abrissem uma distância confortável. Na visão de Ayrton, não havia razão para seguir o acordo, pois este só valia para a primeira largada e não para eventuais novas partidas. Aí cabe a cada leitor deduzir quem tem razão nesse embate.

No restante da corrida, as McLaren ficaram nas duas primeiras posições sem ser ameaçadas e sem ter uma briga direta de posição. Prost até tentou acompanhar Senna, mas rodou na última variante do circuito de Ímola, jogando fora a chance de vitória.

No fim, mais uma dobradinha da McLaren, com Senna em primeiro e Prost em segundo, com Alessandro Nannini, da Benetton completando o pódio. A cerimônia ficou marcada pelo fato de as garrafas de champanhe ainda estarem com as rolhas e os pilotos tiveram dificuldades para festejar o final da prova. Entretanto, o momento bizarro não poderia apagar o clima tenso na McLaren.

Após a prova, Ron Dennis se reuniu com os pilotos e descobriu o tal pacto. De acordo com Prost, o chefão chegou a dar uma bronca em Senna e o brasileiro chegou a chorar e pedir desculpas no ato, embora o dirigente e os pilotos tenham desconversado em coletiva na etapa seguinte (em Mônaco) que a coisa tenha chegado a este ponto. Contudo, já havia um clima de animosidade na declaração da dupla de corredores. Havia algo de podre ali.

De todo modo, a fagulha que incendiara o ambiente da McLaren nos próximos dias de 1989 já tinha se propagado. A relação entre Ayrton Senna e Alain Prost nunca mais teve a mesma cordialidade do ano anterior (mesmo com episódios polêmicos). A explosão era uma questão de tempo, até acontecer na decisão em Suzuka e em todos os desdobramentos posteriores.

Fonte: Stats F1, Continental Circus, McLaren (site oficial), Globoesporte.com, Memória F1

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Eduardo Casola

Sou formado em jornalismo pela Uniso, torcedor do Corinthians e adoro esportes, especialmente automobilismo!