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Série Circuitos da F1: Watkins Glen

A pista estadunidense nasceu do projeto de um estudante, teve domínio britânico e brasileiro entrando para a história

A história do circuito começou com o estudante de direito Cameron Argetsinger. Estudando em Ohio, nos Estados Unidos, Argetsinger sempre passava as férias na casa que seu pai tinha na região de Finger Lakes, no Estado de Nova York. Apaixonado por automobilismo, Argetsinger se tornou membro do  Sports Car Club of America (SCCA) logo no início e querendo trazer o estilo europeu de competição para a região de Watkins Glen, começou a se organizar para fazer a corrida acontecer.

Cameron Argetsinger foi o idealizador das corridas em Watkins Glen. – Foto: reprodução

A proposta do Grande Prêmio de Watkins Glen foi apresentada para a Câmara do Comércio e aprovada. No dia 02 de outubro de 1948, a primeira corrida aconteceu, em uma pista de 10,6 km, que era formada por partes asfaltadas, outras de cimento e ainda estradas de terra. Até por trilhos de trem o traçado passava, com Argetsinger tendo que conseguir permissão para paralisar a passagem de trens durante a corrida. 

Traçado de rua usado nos primeiros anos. Foto: reprodução

A corrida inaugural foi vencida por Frank Griswold, seguido de perto por Briggs Cunningham. E assim, a corrida em Watkins Glen se tornou um sucesso, atraindo pilotos de todo o país e também o público, que comparecia em massa para prestigiar as corridas. 

Pilotos se alinham no grid para a corrida inaugural, em 1948. – Foto: reprodução

Como era comum naquela época, a falta de segurança logo cobraria seu preço. Em 1950, o piloto Sam Collier, que na época tentava organizar uma corrida na antiga base aérea de Sebring, saiu da pista e sua Ferrari capotou, matando o piloto. No mesmo dia, outro carro saiu da pista e acertou um bombeiro e dois espectadores.

Placa em memória aos irmãos Collier, colocada no local da morte de Sam, que faleceu em Watkins Glen em 1950 e seu irmão Miles foi o vencedor da corrida no ano anterior. – Foto: reprodução

A gota d’água veio em 1952, quando Fred Wacker perdeu o controle do carro, indo parar em uma área que não deveria ter espectadores, matando uma criança e ferindo mais doze pessoas.

Momento em que Fred Wacker sai do traçado e atropela os espectadores, que apesar dos esforços da polícia, se mantiveram em local proibido. – Foto: reprodução

Depois desses acidentes, o Estado de Nova York baniu corridas em estradas estaduais. Para contornar o problema, uma pista foi montada na cidade de Dix, usando as ruas da cidade e estradas rurais. O traçado de 7 km teve a colaboração dos pilotos George Weaver, vencedor da corrida de 1951, e William Milliken. 

Milliken foi um dos responsáveis por ajudar no novo traçado e o piloto até dava nome a uma das curvas do antigo circuito, quando capotou sua Bugatti na classificação para o Grande Prêmio Júnior que foi disputado em 1948. -Foto: reprodução

A nova pista estava longe do ideal, na visão dos pilotos, que reclamaram da falta de área de escape e de problemas de visibilidade. Logo se viu que era necessário um circuito permanente. 

Dois lugares foram considerados para o segundo circuito. O traçado de cima foi rejeitado, porque temia-se que o público usasse as árvores da floresta para fazer fogueiras nos acampamentos e causasse incêndios. Com isso, o traçado da parte inferior acabou sendo usado até a construção do circuito permanente. Na imagem também aparece a localização do atual circuito. – Foto: reprodução

Em busca de um terreno para a construção do novo circuito, os organizadores viram que as terras por onde uma parte do traçado que estava sendo utilizado passava, era o local ideal. A nova pista, de 3,70 km, teve novamente a consultoria de Milliken, além de um grupo de professores de engenharia da Universidade de Cornell. 

Traçado usado em Watkins Glen entre 1956 e 1970. – Foto: reprodução

O novo circuito foi inaugurado em 1956 e não demorou para fazer sucesso. A NASCAR foi a primeira categoria importante a competir em Watkins Glen, em 1957. A F1 começou a disputar corridas nos Estados Unidos em 1959, inicialmente no circuito de Sebring. A primeira corrida foi um fracasso de público e Sebring não quis mais saber da categoria. Depois de uma breve passagem por Riverside, Watkins Glen conseguiu atrair a F1 e no dia 8 de outubro de 1961, o público viu o britânico Innes Ireland sair com a vitória, a primeira e última do piloto. A torcida local não saiu de mãos abandonando, já que o piloto estadunidense Dan Gurney levou o segundo lugar. 

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O britânico Innes Ireland saiu de Watkins Glen com a vitória na primeira corrida de F1 no circuito. – Foto: reprodução

As corridas continuaram acontecendo, apesar das dúvidas sobre a segurança do circuito. O trecho que causava mais preocupação era o The Loop, com muitas categorias usando uma chicane para amenizar o perigo. A F1 não usava a chicane e Graham Hill acabou descobrindo da pior maneira sobre o perigo do trecho, quando sofreu um grave acidente na corrida de 1969.

Acidente impressionante de Graham Hill, durante a corrida de 1969. – Foto: reprodução
Apesar da gravidade do acidente, Hill só quebrou as duas pernas. – Foto: reprodução

Para a temporada de 1971, alterações foram feitas no circuito, com a “Big Bend” e a curva anterior sendo alteradas para uma reta que acomodou os boxes. Uma nova extensão, apelidada de “The Boot” foi adicionada ao traçado, que foi alargado e ganhou uma nova camada de asfalto. 

Traçado usado a partir de 1971, que trouxe uma extensão em relação ao traçado anterior, com o traçado ficando com 5,435 km. – Foto: reprodução

A reforma ficou pronta a tempo para a corrida de F1 e as modificações foram aprovadas pelos pilotos. Na estreia do novo traçado, foi François Cevert que saiu com a vitória. 

François Cevert comemora sua primeira e única vitória na F1, na corrida de 1971. O circuito seria o palco da morte do piloto dois anos depois. – Foto: reprodução

Mas o circuito também seria o responsável pela morte do piloto francês. Nos treinos para a corrida de 1973, Cevert acertou as barreiras nos “Esses” e morreu na hora. No ano seguinte, mais uma tragédia, com Helmut Koinigg falecendo depois de acertar as barreiras no mesmo lugar. O problema estava nas proteções colocadas, que não aguentavam o impacto e se deformavam, agravando ainda mais o acidente.

A frágil barreira, além de não conseguir segurar o carro de Cevert, ainda decapitou o piloto. No ano seguinte, Helmut Koinigg também morreu degolado no mesmo trecho. – Foto: reprodução

Para evitar mais acidentes naquele trecho, uma chicane foi instalada no local em 1975, o que não fez muito diante dos cada vez mais rápidos carros da F1. O circuito ainda tinha outro problema: o dinheiro. Depois de gastar com a reforma em 1971, o circuito vinha se recuperando financeiramente. Com as taxas da F1 subindo a cada ano, o circuito começou a ficar sem dinheiro para manter a F1. Em 1981, o que todos os organizadores temiam aconteceu. Sem conseguir pagar as taxas, a corrida foi retirada do calendário, já que a F1 já estava disputando outra corrida nos Estados Unidos. E para piorar, o circuito entrou em processo de recuperação judicial.

Por dois anos, Watkins Glen só recebeu algumas corridas organizadas pela SCCA, que eram feitas sem público, até que, em 1983, a Corning Enterprises se juntou com a International Speedway Corporation e compraram o circuito, renomeando para Watkins Glen International. Com novos donos, a pista foi toda renovada. 

Com todas as reformas, o circuito passou a chamar a atenção das categorias, com os carros esportivos sendo os primeiros a voltar pelo campeonato da IMSA. A NASCAR também retornou em 1986, mas usando apenas a pista curta. 

Só tinha uma coisa que não mudou em Watkins Glen, a proximidade das barreiras de proteção. Assim como aconteceu nos anos 1970, os anos 1990 também viram as barreiras cobrarem seu preço. Em 1991, Tommy Kendall disputava uma prova de protótipo da IMSA quando sofreu um grave acidente no “The Loop”, se ferindo gravemente. Sete semanas depois, no mesmo lugar, O piloto da NASCAR, J.D.McDuffie não teve a mesma sorte e faleceu na batida. 

Para a corrida de 1992, uma chicane estilo “bus stop” foi colocada um pouco antes do “Loop”, deixando o traçado com 5,552 km de extensão. 

Traçado usado a partir de 1992, com uma bus stop sendo colocada antes do Loop. – Foto: reprodução

Em 1997, a International Speedway Corporation, já que tinha em seu portfólio circuitos como Daytona, Talladega, Darlington e Phoenix, comprou a parte da Corning Inc. e virou a única dona de Watkins Glen. A mudança para um único proprietário foi boa para o circuito, que passou por mais reformas, que modernizaram algumas estruturas. Toda a modernização deu resultado, com Watkins Glen recebendo a IndyCar em 2005 e ainda mantendo as corridas da NASCAR.

Um pouco antes da temporada de 2014 começar, foi feita uma limpeza em um dos galpões localizados no terreno do circuito. E lá encontraram a ponte Dunlop original, que era usada como área VIP na linha de largada/chegada, até que uma reforma em 2006 a substituiu por outra estrutura. A ponte foi recolocada no circuito, próximo do local original, entre as curvas 1 e 2 e passou a ser novamente usada como área VIP de empresas dispostas a pagar pelo espaço. No ano seguinte, a NASCAR fechou o calendário do circuito com uma rodada tripla em agosto. Depois disso, todo o asfalto da pista foi removido para uma renovação total. 

Antiga ponte Dunlop, que abrigava os convidados VIPs. – Foto: reprodução
A ponte Dunlop foi encontrada em um galpão, reformada e recolocada no circuito, sendo alugada para empresas durante as corridas. – Foto: reprodução

O circuito de Watkins Glen fica nos Estados Unidos, mas quem dominou as pistas foram os britânicos. Das vinte corridas de F1 disputadas no circuito, onze foram vencidas por eles. Além de Innes Ireland, que venceu a primeira corrida, Graham Hill e Jim Clark venceram três cada um, com Jackie Stewart e James Hunt, tendo duas vitórias. Os quatro são os maiores vencedores no circuito, com Hill tendo também o maior número de pódios, com seis. Para se ter uma ideia do domínio britânico, só nos primeiros oito anos, apenas pilotos correndo sob a bandeira da Grã-Bretanha venceram. Foi o austríaco Jochen Rindt que quebrou a sequência, em 1969.

Com seis pódios e três vitórias, Graham Hill é o piloto mais bem sucedido em Watkins Glen. – Foto: reprodução

Entre os pilotos da casa, 26 já correram em Watkins Glen, sendo que sete deles participaram da primeira corrida em 1961. Hap Sharp, Roger Penske e Dan Gurney foram os únicos que terminaram a prova, com Gurney conseguindo um pódio ao terminar em 2º. Nenhum piloto estadunidense conseguiu vencer nessa pista, com Gurney conseguindo dois pódios no total, enquanto que Richie Ginther e Mario Andretti tem um pódio cada. 

Dan Gurney é o piloto da casa que teve mais sucesso na pista, conquistando dois pódios, um deles na primeira corrida, em 1961. – Foto: reprodução

Entre os brasileiros, apenas cinco pilotos correram em Watkins Glen. Os irmãos Emerson e Wilson Fittipaldi, Carlos Pace, Alex Ribeiro e Nelson Piquet. Emerson Fittipaldi saiu com a vitória em 1970, a primeira de um piloto brasileiro na categoria. O piloto ainda subiu ao pódio em 1975, ao terminar em 2º, mesmo resultado que conseguiu Pace no ano anterior. 

Emerson Fittipaldi entrou para a história, conquistando a primeira vitória de um piloto brasileiro em 1970. – Foto: reprodução
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Reims

Paul Ricard

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Baku

 

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Denise Vilche

Uma revista antiga sobre carros fez nascer uma paixão: a F1. Uma menina curiosa de oito anos queria saber quem eram aqueles tais de Senna, Piquet, Mansell e cia. que a revista mostrava em gráficos coloridos. E mais de 30 anos depois, essa menina, agora jornalista, continua mais apaixonada pela F1 do que nunca.

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