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SÉRIE CIRCUITOS DA F1: Jarama

Ficha técnica

Nome do circuito: Jarama Race Track

Comprimento da pista: 3,312 km (1981)

Número de voltas: 80

Distância total: 264,690 km

Recorde da pista: 1:17.818, Alan Jones (1981)

Primeira corrida na F1: 1968

Apesar de ter uma longa tradição no automobilismo, a Espanha ainda não tinha um circuito permanente até metade dos anos 1960. Até então, as corridas ocorriam nas ruas espanholas e assim como aconteceu em outros países europeus, se fazia necessário investir em uma pista, para que as montadoras tivessem um lugar para desenvolver seus carros. Pensando nisso, o Real Automóvil Club de España (RACE), clube fundado em 1903, foi atrás de um terreno para construir o primeiro circuito permanente no país. O local escolhido ficava 20 km ao norte da capital Madri, no município de San Sebastián.

O responsável por desenhar a pista foi o holandês Johannes Bernhardus Theodorus Hugenholtz, que também projetou as pistas de Suzuka e de Zolder, além de ter experiência em administrar circuitos, tendo gerenciado Zandvoort. Hugenholtz enfrentou um problema, no entanto. Apenas uma parte das terras compradas foram utilizadas para a construção da pista, com a maior parte sendo utilizada para a construção de um campo de golfe. Com isso, Hugenholtz teve que projetar um circuito menor,  fato que acabou pesando no futuro do circuito.

John Hugenholtz, como era conhecido em inglês, foi diretor do circuito de Zandvoort e o desenhista de várias pistas de F1

As obras começaram em 1965, com Alessandro Rocci supervisionando a construção e os arquitetos Rodríguez Riveiro e Domínguez Aguado ficando responsáveis pelo projeto das demais áreas, como arquibancadas, boxes e torre de controle.

Obras no circuito de Jarama, em 1965, que teve a supervisão do engenheiro Alessandro Rocci – Foto: reprodução
Primeiro traçado usado em Jarama, que só passou por mudanças em 1980. Foto: reprodução

As primeiras corridas em Jarama aconteceram no dia 18 de dezembro de 1966. Acontece que as obras não tinham terminado e o jeito foi improvisar, como na reta principal, onde uma fileira de pneus serviu de divisão entre pista e boxes, que ainda nem estavam prontos. A primeira corrida foi vencida por Juan Fernández, pilotando um Porsche 911. Outras duas corridas aconteceram naquele dia e teve como vencedores, José Márquez, a bordo de um Mini Cooper 1330S e José María Noriega, pilotando um Seat Nardi 1000, sendo que a corrida vencida por Noriega era apenas para carros fabricados na Espanha.

O circuito nem estava pronto quando os pilotos entraram na pista pela primeira vez, com pneus fazendo a divisão dos boxes com a pista. Juan Fernández, no carro branco, foi o vencedor da primeira das três provas disputadas em 1966. Foto: reprodução

Foi apenas em fevereiro de 1967 que as obras terminaram e no dia 02 de julho, o circuito foi oficialmente inaugurado. No final do mês, uma corrida de GT abriu os trabalhos no circuito, que receberia a Formula 2 logo em seguida. A corrida foi vencida por Jim Clark com a Lotus e o piloto escocês também se sagrou vencedor do GP da Espanha, que ainda era uma corrida não-oficial e foi disputada em novembro.

Jim Clark e Jackie Stewart participaram da etapa não-oficial do GP da Espanha, de 1967. Clark não só venceu essa corrida, mas também venceu uma etapa disputada meses antes. Foto: reprodução

Essa corrida foi decisiva para a inclusão da prova espanhola no calendário oficial a partir de 1968, ainda que se revezando com Montjuic, uma pista de rua na cidade de Barcelona.

E assim, no dia 12 de maio de 1968, a F1 desembarcou em Jarama, depois de um hiato de 14 anos sem corridas oficiais da categoria em terras espanholas, quando a pista de Pedralbes, em Barcelona, recebeu a F1 em 1954.

Grid de largada para o primeiro GP da Espanha de F1 disputado em Jarama, com Chris Amon (carro nº19) na pole, tendo ao seu lado Pedro Rodriguez (nº9) e Denny Hulme (nº1). Foto: reprodução

Dos 13 pilotos que se alinharam no grid, Graham Hill se deu melhor e saiu da Espanha com o troféu de vencedor, mesmo largando em sexto.

Largando em sexto, Graham Hill (ao centro) venceu a corrida em Jarama, com Denny Hulme (à direita) em 2º e Brian Redman (à esquerda) em 3º. Foto: reprodução

Jarama foi revezando a realização do GP da Espanha com Montjuic até 1975, quando o circuito de rua que ficava em Barcelona foi considerado perigoso demais e Jarama passou a realizar as corridas sozinho. O que era para ser uma história de sucesso, já que agora a atenção estava toda na pista madrilenha, acabou se tornando um pesadelo. O circuito passou a ser considerado perigoso também, já que não tinha muitas áreas de escape. Uma reforma foi feita em 1980, alterando as curvas Bugatti para a construção da área de escape no local. O novo traçado acabou diminuindo o comprimento da pista para 3,314 km e fez sua estreia na corrida de 1980, que por conta da disputa entre FISA e FOCA, acabou se tornando uma corrida não-oficial, já que não contou pontos para o campeonato.

Diferença entre os traçados de Jarama. A parte em preto faz parte da pista original, já a parte em azul foi a área alterada em 1980. Foto: reprodução

A F1 ainda correu no circuito em 1981, mas com a pista sendo considerada curta e estreita demais para acomodar os carros da F1, Jarama foi retirada do calendário. A última corrida foi disputada no dia 21 de junho de 1981 e teve a vitória de Gilles Villeneuve, com a Ferrari, que se aproveitou da pista estreita para segurar seus adversários. Essa seria a última vitória do piloto canadense, que faleceu em uma acidente durante o fim de semana do GP da Bélgica, em 1982.

Gilles Villeneuve, com a Ferrari, foi o vencedor da última corrida de F1 disputada em Jarama. Essa também seria a última vitória do piloto canadense. Foto: reprodução

Sem a F1, o jeito foi continuar com o campeonato Mundial de Motovelocidade, que disputou a etapa espanhola em Jarama até 1988. Outras categorias, como a Sportscar, a F3000 e a World Touring Car também fizeram algumas etapas na pista.

Vendo as categorias abandonando o circuito, Jarama passou por uma reforma em 1990, com o traçado sofrendo alterações na primeira curva, o que aumentou a reta principal. Uma nova seção de curvas também foi acrescentada entre a Ascari e a Portago.

Traçado de Jarama após a reforma, que passou a ter 3,850 km de extensão. A curva Túnel foi renomeada para María de Villota em 2017. Foto: reprodução

Não foi somente o traçado que sofreu alterações, mas o pit lane foi aumentado e uma nova parte de boxes foi adicionada ao local. A reforma deu certo e o circuito passou a receber a World Superbikes em 1991 e 1992, com a World Championship realizando uma única etapa em 1998.

A falta de atualização não foi o único problema de Jarama. Outros circuitos foram surgindo na Espanha e acabaram levando as principais categorias para suas pistas. Restou ao circuito madrilenho ficar com as competições nacionais. Em 2013, foi criado o projeto Jarama 2021, que visava reformar todo o circuito até a data que nomeia o projeto. O primeiro passo foi dado no ano seguinte, com a reforma da torre de controle.

Antiga torre de controle, que foi construída sem um preparo ideal do terreno e foi a primeira parte do circuito a ser reformada. Foto: reprodução
Nova torre de controle, que ficou pronta em 2015. Os três andares agora abrigam salas multiuso para eventos ou coletivas de imprensa, além de um restaurante com vista para a pista. Foto: reprodução

As obras  também iriam modernizar a área dos boxes, além de conseguir a homologação para a pista de kart do circuito. A ideia do circuito é aliar as competições de automobilismo com um centro de eventos, já que muitas montadoras têm suas fábricas perto de Jarama e fazem muitas atividades na pista. Além disso, um projeto prevê a construção de um museu dentro do paddock.

As nove corridas de F1 disputadas em Jarama tiveram oito vencedores diferentes. Apenas Mario Andretti conseguiu sair com o troféu de vencedor em duas ocasiões, vencendo em 1977 e 1978, depois de também marcar a pole nas duas provas. Andretti também é o piloto que lidera o ranking em número de pódios, com quatro, sendo que o da corrida de 1970 foi o primeiro pódio na F1 do piloto italiano naturalizado estadunidense. 

Mario Andretti, durante o GP da Espanha de 1977. O piloto foi o único a conseguir mais de uma vitória no circuito, além de ter também o maior número de pódios. Foto: reprodução

Entre os demais pilotos que subiram no degrau mais alto do pódio, a corrida de 1974 foi especial para Niki Lauda. Foi nessa prova em que o piloto austríaco conquistou a primeira de suas 25 vitórias na F1.

Niki Lauda, ao centro, comemora sua primeira vitória na F1, ao vencer em Jarama em 1974. Clay Regazzoni e Emerson Fittipaldi completaram o pódio. Foto: reprodução

Já entre os brasileiros, Emerson Fittipaldi foi o mais bem sucedido, com uma vitória e dois pódios. Também disputaram corrida em Jarama, Carlos Pace, Wilson Fittipaldi, Nelson Piquet e Chico Serra. Ingo Hoffmann tentou se classificar para a corrida de 1976 com a equipe Copersucar, mas não conseguiu, assim como Alex Ribeiro na corrida do ano seguinte, pela March.

Entre os pilotos da casa, Jorge de Bagration foi o primeiro a se aventurar, mas teve sua inscrição recusada para a primeira corrida no circuito, em 1968. Ele ainda tentou em 1974, mas acabou ficando de fora da lista de inscritos, desistindo da F1 e se voltando para o rally. Uma curiosidade sobre o piloto: nascido na Itália, Jorge era filho do Príncipe Irakli Bagration-Mukhrani da Georgia, que se refugiou na Itália durante a revolução bolchevique e também foi enteado da bisneta do Rei Alfonso XII da Espanha, princesa María de las Mercedes de Baviera y Borbón.

Jorge de Bagration, herdeiro do trono da Georgia, que tentou duas vezes participar do GP da Espanha, sem sucesso. Foto: reprodução

Já Alex Soler-Roig não se classificou para a corrida de 1970 e em 1972, não terminou a prova depois de sofrer um acidente. Soler-Roig foi um dos pilotos que participou da primeira corrida no circuito, em 1966, e bateu quando liderava a prova, dando a vitória para Fernández. Emilio de Villota tentou participar em quatro edições da prova, não se classificando em duas e tendo a inscrição negada em outra. Apesar disso, foi o espanhol com a melhor colocação no circuito, terminando em 13º a corrida de 1977. Em março de 2012, sua filha, María de Villota, foi confirmada como pilota de testes da Marussia, porém, ao realizar seu primeiro teste com a equipe, no dia 03 de julho de 2012, sofreu um grave acidente, ao bater em um caminhão estacionado no pit lane improvisado. Maria de Villota faleceu em outubro de 2013, em consequência das lesões neurológicas sofridas no ano anterior.

María de Villota mostra capacete destruído pelo acidente. Pilota faleceu um pouco mais de um ano depois, em decorrência das lesões neurológicas que sofreu. O circuito renomeou a última curva em sua homenagem. Foto: reprodução

Em 2017, nas comemorações de 50 anos do circuito, a curva Túnel foi renomeada para curva de María de Villota, em sua homenagem e desde 2014, acontece no circuito uma corrida beneficente para levantar fundos para o programa “Primeira Estrella”, criado pela pilota em 2013 para financiar o tratamento de crianças com doenças neuromusculares degenerativas da Fundación Ana Carolina Diez Mahou.

Desde 2014, o circuito de Jarama organiza uma corrida beneficente em homenagem à pilota, que tinha criado um projeto para ajudar crianças antes de falecer. Foto: reprodução

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Denise Vilche

Uma revista antiga sobre carros fez nascer uma paixão: a F1. Uma menina curiosa de oito anos queria saber quem eram aqueles tais de Senna, Piquet, Mansell e cia. que a revista mostrava em gráficos coloridos. E mais de 30 anos depois, essa menina, agora jornalista, continua mais apaixonada pela F1 do que nunca.

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