Schumacher, 50

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| Por: Carlos Eduardo Valesi

lll Série 365: 03 de Janeiro – Schumacher, 50 – 02ª Temporada: dia 226 de 365 dias.

Michael Schumacher nasceu no dia 03 de janeiro de 1969, às 13:43h em uma cidadezinha alemã chamada Hürth, a cerca de 6km de Colônia, a mesma cidade que já havia nos dado Wolfgang Von Trips, 41 anos antes. Como em 69 não tivemos horário de verão no Brasil, isso significa que às 09:43h de hoje o alemão queixudo que bateu todos os recordes do esporte que amamos estará completando exatas 50 translações.

É claro que o Boletim do Paddock não deixaria esta data passar em branco, e como neste 2019 o dia 3 caiu numa quinta-feira, cabe a mim a crônica. Então, como abordar uma efeméride tão importante?

Fonte: Getty Imagens

Eu poderia contar a história dele, mas todo mundo já conhece: infância de classe média baixa, o pai pescando um kart para o menino de 4 anos em um lago ao lado da pista em que era zelador, a vontade de ser jogador de futebol, o encontro com o empresário que mudaria seu destino, aquele passeio de bicicleta em Spa… Isso tudo já foi contado e recontado, tanto em momentos pinçados aqui pelo BP (a última entrevista, um stint impossível, o início da supremacia ou a última vitória, entre muitos outros) quanto numa série especial do Podcast F1 Brasil (a primeira parte você confere aqui, e as outras estão no link). Isso só do conteúdo produzido pelo pessoal aqui de casa. Tem muito mais por aí. Então não, essa não seria uma abordagem legal.

MediaMichael Schumacher winning Ferrari their first driver’s championship in over 20 years | 2000 Japanese Grand Prix (i.redd.it)
Fonte: Reddit

Pensei também em comentar o atual estado de saúde dele: o acidente completou 5 anos alguns dias atrás, e todo mundo está curioso. Mas seria muito click bait, ainda mais porque não existe nada de novo no front – não acreditem nos sites sensacionalistas. Ontem mesmo a esposa do campeão, Corinna, publicou uma nota dizendo que para a celebração do seu cinqüentenário, a Keep Fighting Foundation estará lançando um museu virtual e um aplicativo oficial sobre a carreira do aniversariante. Nesta mesma nota eles pedem que todos entendam que o desejo de Michael quanto à privacidade de sua vida pessoal já vinha desde antes da tragédia, e que este assunto permanecerá privado. Em um episódio recente do Boteco F1 falamos um pouco sobre isso. Então também não, não seremos desleais com você, fiel leitor.

Parece que a melhor opção é sair um pouco da seara oficial e passar à emotiva. Já que tudo o que havia para ser contado sobre Schumacher já foi dito, que tal contar o que Schumacher representa para nós, cabeças de gasolina? Grande idéia, com apenas uma falha estrutural fundamental: este que vos escreve.

Fonte: RaceCarsDirect.com

Não é segredo nenhum o que penso de Michael Schumacher (se alguém ainda não sabe, é só ver a cena pós-créditos biografia que fecha meus posts. Ou seja, se eu já achei hercúlea e acima da minha capacidade contar a história de Bruce McLaren, o que dirá do meu piloto preferido, na minha equipe preferida? Isso rapidamente se transformaria naquelas baboseiras bregas e nem um pouco à altura do homenageado do dia. Mas, e se eu pedisse aos colegas de BP e amigos cabeças de gasolina que me contassem o que Schumacher significou para eles? Teríamos uma pequena mas variada amostra do quanto este cara simples, dedicado e genial influenciou cada um dos que gostam de esporte a motor, e como nós, brasileiros mais ou menos pachecos, nos sentimos quanto à carreira arrebatadora dele. Vamos lá.

Comecemos com o Comandante Gabriel Toledano, de 30 anos, do excelente Aerocast:

Schumacher (ou Dick Vigarista, como gosto de chamá-lo com carinho apesar do contrassenso) fez parte da minha infância e início da adolescência quando aprendi a gostar de Fórmula 1. Tinha um misto de euforia quando o via tirar milésimos de segundo em classificações pra conseguir a pole, tanto quanto raiva quando via que ele iria ganhar de novo, sem dar chance pra outro.

Aprendi a admirar, apesar disso. Admirar a dedicação e a habilidade. Foi um professor de certa maneira, que me fez enxergar como o mundo pode ser injusto para quem está querendo “chegar lá” e existe algo ou alguém que toma pra si todas as oportunidades. Me ensinou claro, a quando estiver “lá”, agir de maneira que possa manter as conquistas com vontade implacável.

Excelente visão, não? Alguém para se admirar e odiar em medidas iguais, pois com sua implacável (e, admitamos, nem todas as vezes irrepreensível) busca pela perfeição nos levou a questionar se Fórmula 1 era mesmo um esporte. Ou ninguém mais teve um tio chato que sempre dizia no almoço de domingo: “nem assisto mais corridas, é só o Schumacher que vence mesmo…”

Fonte: FOCA

Mas vejamos o que a Erika Prado, nossa colunista e especialista em engenharia, de 27 anos, tem a dizer:

O Schumacher, quando eu era criança, eu pensava ser brasileiro, como todos os pilotos de Fórmula 1.

Aos poucos fui entendendo um pouco mais, e pra mim é o melhor piloto que já existiu.

Além de ter muitos campeonatos, no episódio em que entregou o troféu para Rubinho, mostrou que acima de campeão, tinha humildade e empatia, o que pra mim não foi marketing, e sim fibra moral.

Sou grande fã do alemão que foi padrinho de Rosberg na Mercedes.

Vejam que interessante! Um dos momentos mais controversos da carreira do heptacampeão foi visto como uma demonstração de caráter por olhos que não são tão enviesados como os meus. E é bem legal essa lembrança: não só o apadrinhamento de Rosberg (e o retorno à Mercedes, como uma dívida de gratidão), mas a grande amizade com Massa, o carinho com Vettel, o companheirismo com todos os mecânicos, tudo isso mostra que ele não era aquele robô gelado que é pintado por aí por quem gosta de denegri-lo.

FOnte: Ferrari

Cinthia Maria Venâncio, nossa garota elétrica, 30 anos, escreve:

Michael Schumacher foi o início da minha paixão pela Fórmula 1, foi o que me fez entender o que a F-1 era e é pra mim até hoje. Cresci vendo o Michael disputando e vencendo quase tudo, lembro de 4 dos 7 títulos mundiais que ele conquistou, lembro do campeonato perdido pro Hakkinen em 1998, do acidente em 1999, do GP Brasil de 2006 e da aposentadoria. Também lembro do retorno e o quanto isso significou que “você nunca está velho demais para fazer o que gosta”.

Mas se tem algo que aprendi com o heptacampeão, é que nem tudo vale a pena para se conseguir o que quer. Chega um momento na vida em que você precisa se posicionar com mais firmeza sobre o que acha certo e nunca se deve prejudicar os outros para atingir um objetivo. Não vale a pena manchar seu nome. Glórias e fracassos devem ser conquistados com a cabeça erguida, principalmente se você tem talento e os recursos necessários para tanto.

Interessante notar que, para a geração que nasceu no fim dos anos 80 e início dos 90, Schumacher foi a referência em velocidade. E que aquelas “manobras” não passaram despercebidas, mesmo para que aprendeu a amar a velocidade vendo o ápice humano somado à engenharia de alto nível, no que gostamos de chamar aqui como A Tempestade Perfeita.

Fonte: BBC

Agora é a vez dos donos darem seu depoimento. Primeiro nossa querida Débora, 23, afinal primeiro quem manda mais as damas:

Eu não vi Ayrton Senna ou Emerson Fittipaldi correrem, mas em 1995 Michael Schumacher conquistava o seu bicampeonato. Ele foi o primeiro piloto para quem um dia eu torci, ainda que por ser muito nova não conseguisse ter a dimensão de todos os seus feitos. Eu passei a respeitá-lo muito mais quando de fato passei a acompanhar a Fórmula 1 em 2009; ele era meu ponto de referência e eu acreditava que os outros pilotos deveriam ter um pouco da garra que ele tinha nas pistas. Admirava Schumacher por todo o suporte que deu a Sebastian Vettel e por ser o seu tutor. Sim, em casa ele era um ídolo, ainda que meus pais não acompanhassem mais a F1 como antes. Eu chorei muito no dia que ele sofreu acidente e começou a lutar pela vida, chorei como se fosse um parente e de fato pra mim ele é, não consigo conter as lágrimas quando preciso lembrar dele… pra mim quando falam de determinação, força de vontade e de um grande piloto o primeiro nome que me vem à cabeça é o de Michael Schumacher.

Lindo, chefe, e não é puxação de saco. Realmente, tanto faz o que se pense dele, é inegável que o alemão tornou-se a principal referência do que se deve fazer na Fórmula 1. Claro que cada piloto hoje escolhe um ídolo do passado para dizer em entrevistas que é seu modelo, mas todos os que têm talento também passam muito tempo na academia e junto aos mecânicos, como Schumacher mostrou. E todos tentam aquele stint maravilhoso quando estão de cara para o vento logo antes de suas paradas…

Já o Big Boss Rubens, 31 anos, nos conta:

Então, minha maior tristeza na Fórmula 1 foi ter assistido ao Schumacher correr e não ter à época a visão crítica que eu possuo agora, pois somente assim eu conseguiria ver o quão excelente piloto ele foi; hoje eu posso afirmar como ele foi se não o melhor, um dos melhores pilotos de todos os tempos, passando assim a representar a figura do profissional dedicado, engajado e humano, mesmo com toda aquela aura de super piloto e inabalável. Schumacher foi a representação perfeita do homem tolkiano, forte e fraco, apaixonado e repulsivo, amigo e trapaceiro, porém era acima de tudo aquele em quem todos os seus pares poderiam depositar a esperança, sabendo que ele não os desapontaria.

Novamente, não é só para garantir a folha de pagamento, mas o Rubens acertou em um ponto nevrálgico importantíssimo: Schumacher errava, como qualquer ser humano. Mas os seus erros e fraquezas foram soterrados por provas reiteradas de superioridade e eficiência.

GP de Abu Dhabi de 2010: Michae Schumacher da Mercedes bate em Vitantonio Liuzzi da Force India. Fonte: LAT Imagens

Thiago Raposo, um cara que entende mesmo de Fórmula 1 e tem uma idade um pouco mais próxima a minha (38), mandou esse testemunho:

Schumacher significou para mim uma mudança de mindset…. ele surgiu exatamente na transição do olhar de criança para o olhar de adolescente sobre a F1, já que tinha 14 anos em 1994, no primeiro título. Havia ainda um duelo interno da criança que tinha Senna como um herói, e não queria ver seus títulos ameaçados pelo alemão, mas também tinha a visão do adolescente entusiasmado pelo o que aquele cara fazia na pista. O início da fase adulta veio junto com o domínio esmagador dele na Ferrari e aquela vontade de vencer a qualquer custo me serviu bastante de inspiração.

Que bonito isso: não só o uso da palavra mindset, coisa de gente chique, como a visão de Schumacher representando o fim da jornada do herói, a transformação do piloto mítico e idealizado pelo profissional que mostra a vida como ela é, feia, suja e cheia de trabalho para que se vença a mediocridade. Ou o Raposo mandou bem ou eu me empolguei.

Fonte: Reddit

Nosso mestre Casola, o dono dos melhores textos do 365 dias, não se contentou em mandar um depoimento. Eu poderia facilmente somente publicar o que ele escreveu e me mandar:

O garoto que aproveitou as oportunidades como ninguém!

Ah se o Bertrand Gachot não tivesse espirrado o spray de pimenta num taxista britânico… Como aqueles efeitos-borboleta tão dignos de pensamento, os caminhos da história da Fórmula 1 teriam algumas mudanças de rumo fundamental nas décadas de 1990 e 2000.

Afinal de contas, a vaga aberta na Jordan permitiu que um jovem alemão tivesse a chance de provar seu valor. Preparado pela Mercedes, o novato chegou e mostrou ao circo que era um piloto que merecia a oportunidade de mostrar o seu talento.

Assim, Michael Schumacher iniciou a sua trajetória como o piloto mais bem-sucedido estatisticamente na história da Fórmula 1. Após uma era com grandes nomes, Schumi assumiu a responsabilidade de ser o grande nome da categoria, erguendo um império com suas polêmicas, mas com muitas quebras de recordes!

Há quem o admire e há quem não o respeite, mas é inegável que o Schumacher se tornou um dos pilotos mais incríveis da história da categoria. O alemão mostrou desde o começo como aproveitar as oportunidades que a vida lhe deu.

Incrível como sempre, Casola.

Por fim, mas não menos importante, meu sócio de BPBeats Ricardo Soares deixa aqui em nossas mão uma carta, que assina com o singelo pseudônimo de “Schummy por Bunny”. Ele nos conta:

Em duas linhas é dificil brother, mas digo que ele foi um baita topetudo ao entrar na F1, batendo de frente com O Chefe e fazendo escola depois. Ao contrário do que dizem, acho que ele saiu por cima em sua segunda aposentadoria. Onde lembro que fez miséria no GP de Interlagos.

Ele escreveu mais, e eu não deveria publicar tudo, mas para não me chamarem de censor, aí vai:

Assim como Senna fez  no inicio de sua carreira e assim como fizeram Alonso, Hamilton e VerstappenSon posteriormente, chegou peitando tudo e todos. Mas aí podem dizer que ele tinha a tal Benneton fuçada… enfim…

Mas além do tal “Quem ganhou foi o Alemão de novo” durante diversos domingos, do que eu mais me lembro é de sua despedida em Interlagos 2012.

Aquela corrida ganha por Jenson Button nos tempos que a McLaren ainda.

Tinha que estragar minha homenagem com esse tipo de lembrança, né não?

Bom, como se vê, à exceção dos tradicionais dinossauros que não admitem que o tempo passe, e dos neófitos que não conhecem o passado e querem c*gar regra impor sua opinião, vou tentar resumir o que essa turma mais esperta do que eu gentilmente escreveu para me ajudar: Michael Schumacher, que hoje completa 50 anos, foi um ser humano com falhas e defeitos, mas também foi um expoente da nossa raça, o homem mais rápido do mundo, o supra-sumo da simbiose entre homem e máquina e, definitivamente, mudou o que conhecemos como automobilismo.

Fonte: Reddit

 #KeepFighting

lll FORA DAS PISTAS

Se você nasceu no mesmo dia que Schumacher, além de ainda ter farofa do réveillon para aniversário, compartilha o dia com J.R.R. Tolkien, o homem que criou a Terra Média (e vocês pensaram que o Rubens fez aquela referência à toa, não?), George Martin – não o escritor, seria o cúmulo, mas o “quinto Beatle”, o produtor dos álbuns dos garotos de Liverpool – o ator, produtor, diretor e Mad Max Mel Gibson, Dan Harmon, o responsável por Community e co-responsável por Ricky and Morty, o quarterback Eli Manning, de Reginaldo Leme e John Paul Jones, o baixista injustamente relevado para segundo plano do Led Zeppelin.

lll A Série 365 Dias Mais Importantes do Automobilismo, recordaremos corridas inesquecíveis, títulos emocionantes, acidentes trágicos, recordes e feitos inéditos através dos 365 dias mais importantes do automobilismo.

Carlos Eduardo Valesi

Velho demais para ter a pretensão de ser levado a sério, Valesi segue a Fórmula 1 desde 1987, mas sabe que isso não significa p* nenhuma pois desde meados da década de 90 vê as corridas acompanhado pelo seu amigo Jack Daniels. Ferrarista fanático, jura (embora não acredite) que isto não influencia na sua opinião de que Schumacher foi o melhor de todos, o que obviamente já o colocou em confusão. Encontrado facilmente no Setor A de Interlagos e na sua conta no Tweeter @cevalesi, mas não vai aceitar sua solicitação nas outras redes sociais porque também não é assim tão fácil. Paga no máximo 40 mangos numa foto do Button cometendo um crime.