Rápido e breve como o vento

0 Flares Twitter 0 Facebook 0 Google+ 0 Pin It Share 0 Filament.io 0 Flares ×

Por: Carlos Eduardo Valesi

lll Série 365: 29 de Novembro – Rápido e breve como o vento – 02ª Temporada: dia 191 de 365 dias.

O Reino Unido tem hoje o maior número de troféus da Fórmula 1. São 18 no total, de 10 pilotos diferentes (a Alemanha, vice, tem 12 títulos e três campeões). Mas a Inglaterra jura que teria muitos mais.

Entre a vitória de James Hunt em 1976 e a de Nigel Mansell em 1992 pilotos geniais como Lauda, Senna e Piquet dominaram a categoria, mas isso poderia ter sido diferente caso a chamada Geração Perdida tivesse chance de mostrar seu potencial.

Entre 73 e 77 quatro jovens promessas britânicas encerraram trágica e prematuramente suas carreiras. Gerry Birrell, Roger Williamson, Tony Brise e Tom Pryce partiram deixando reticências ao invés de pontos finais.

Talvez Pryce tenha sido o melhor piloto entre eles (o seu triste último GP foi contado aqui), mas aquele que tinha mais estilo de campeão era Tony Brise.

Três lendas: James Hunt, Tony Brise e Ronnie Peterson.
Fonte: Motorsport.com

Seu pai, John Brise, era um criador de porcos que gostava de correr de carros. E era bom nisso: foi tricampeão da Stock Car Britânica (56, 59 e 60). Como era de se esperar, seu dois filhos herdaram o gosto do pai pelo automobilismo. O mais velho, Anthony William, ou Tony, nasceu em 28 de março de 1952, e já acompanhava o velho John nas corridas quando ele venceu seus dois últimos campeonatos. Paizão que era, John largou as pistas e dividia seu tempo entre a fazenda em Kent, na Inglaterra, e nas provas de kart em que Tony competia.

Correndo desde os oito anos, aos 17 foi campeão nacional. Em 1971 fez a óbvia transição para os modelos maiores (ele mesmo se tornou uma versão gigante de um piloto: com 1,95m e um jeito espandongado de andar, teve que aprender a ser arrogante para ser levado a sério). Primeiro com um Elden e depois pilotando um Merlyn, foi vice-campeão de Fórmula Ford já no seu ano de estreia. A velocidade e o arrojo chamaram a atenção de um compatriota baixinho e esperto, e em 1972 Tony estava na F3 a bordo de um Brabham BT28 de propriedade de Bernie Ecclestone. O carro era uma desgraça de ruim, então ele pulou rapidamente para um GRD, a tempo de ganhar algumas corridas. No ano seguinte, enquanto estudava na Birmingham University, venceu duas das três pernas do campeonato britânico de Fórmula 3, a Lombard North Central e a John Player. Ao final do ano dividiu com Tom Pryce o Grovewood Award, prêmio da Commonwealth para os destaques no automobilismo, enquanto largava os estudos para se dedicar totalmente às pistas.

Sua intenção era galgar à Fórmula 2, mas ele não tinha dinheiro nem patrocínio para isso. Para não ficar parado, decidiu comprar um March 733 usado e competir na Fórmula Atlantic, uma série B da F3. Venceu a primeira prova mas estourou o carro na seguinte, e ficaria a pé se a equipe Modus não lhe oferecesse um assento para continuar correndo. Seus resultados eram sólidos, mas Brise achava que sua carreira estava empacada.

“Eu tinha decidido que 75 seria meu ano de tudo ou nada. Você não pode ficar patinando nas categorias inferiores para sempre – se não tiver sucesso, vai acabar se tornando um peso morto, pedindo dinheiro aqui e ali para continuar correndo.”, ele disse para o repórter Nigel Roebuck certa vez. “Eu tinha decidido mudar meu modo de encarar as coisas. Por exemplo, não beberia mais 24h antes de uma corrida, nem ficaria nos pubs até tarde nas vésperas das provas”

Para sorte dele essa dieta durou pouco: em abril de 1975 Tony recebeu uma ligação de Frank Williams. Seu piloto titular Jacques Laffite tinha preferido correr a prova da F2 que coincidia com a data da Fórmula 1, e Frank precisava de alguém para pilotar a FW03 vazia no GP da Espanha em Montjuic.

Sem sequer ter conhecido o carro ou a pista antes, Brise fez um tempo apenas um décimo de segundo mais lento que Jacky Ickx, ficando à frente de Alan Jones e Wilson Fittipaldi. No domingo ele alinhou num grid sem muitos pilotos, que aderiram ao protesto de Emerson Fittipaldi por mais segurança nas pistas. Sem poder se importar com isso, foi escalando o pelotão enquanto outros carros deixavam a pista ou ficavam para trás. Chegou a alcançar a sexta colocação, mas tomou um toque na traseira de Tom Pryce que o obrigou a passar um tempo nos boxes. Quando Rolf Stommelen perdeu o controle de seu Embassy Hill e voou sobre o guard-rail, matando cinco espectadores, a corrida foi suspensa. Tony estava em sétimo, logo atrás de Lella Lombardi, e viu de camarote a única vez até hoje uma mulher pontuando na Fórmula 1.

Tony Brise e seu patrão e mentor, Graham Hill
Fonte: Motorsport.com

Com Laffite de volta na prova seguinte, em Monaco, Brise estava novamente fora. Mas foi justamente no principado onde venceu tantas vezes que o monstro Graham Hill percebeu que tinha que parar. Sem Stommelen, no hospital, o bicampeão não conseguiu tempo para se classificar em um circuito onde tinha vencido por cinco vezes, e anunciou de vez a aposentadoria. Para seu lugar chamou o compatriota que tinha sido tão rápido na Espanha, e Brise estava agora com um assento garantido para o resto do ano.

Sua primeira prova foi na Bélgica, em Zolder, quando levou o carro ao sétimo lugar do grid. Problemas mecânicos o tiraram da prova, mas ele terminou bem nos compromissos seguintes: um sexto lugar e seu primeiro ponto em Anderstop, na Suécia, colocando uma volta na Lotus do astro local Ronnie Peterson. Na corrida seguinte, em Zandvoort, uma novidade: era a primeira vez que guiava um F1 na chuva. Em pouco tempo estava dando sinal para Alan Jones sair do caminho, para que ele pudesse dar uma volta no sul-africano. Quando o carro não quebrava, ele incomodava; antes de abandonar o GP de Silverstone ele jantou Reutemann e Andretti, e estava tirando um segundo por volta do pelotão da frente, composto por nomes como Fittipaldi, Hunt e Lauda.

Fonte: Pinterest

Todos apostavam que Brise seria o nome inglês em 1976. O modelo GH2 da Embassy era bastante promissor, e os testes de fim de ano em Paul Ricard reforçavam essa impressão.

Infelizmente, ao retornar da França no avião particular de seu chefe Graham Hill, junto com outros quatro integrantes da equipe, o fim do sonho: Hill pilotava a aeronave e, ao tentar realizar a aproximação do aeroporto de Elstree em meio ao fog da ilha, chocou-se contra as copas das árvores de um campo de golfe que havia ali perto. No dia 29 de novembro de 1975 Graham Hill, Tony Brise e seus companheiros de equipe entraram para aquele pitlane lá no outro lado, deixando, mais do que saudades, uma sensação de algo muito grande inacabado.

lll FORA DAS PISTAS

Nesta data, em 1877 Thomas Edison mostrou pela primeira vez sua invenção que mudaria os rumos da música: o fonógrafo. Se você levou seu primeiro tapa no traseiro no dia de hoje, compartilha votos de felicidade com o dono de Nárnia C. S. Lewis, o ator Don Cheadle, a jogadora de pôquer dona de dois braceletes do WSOP Jennifer Harman e o mago britânico do blues, Sir John Mayall.

Fiquem com todo o poder de All Your Love.

lll A Série 365 Dias Mais Importantes do Automobilismo, recordaremos corridas inesquecíveis, títulos emocionantes, acidentes trágicos, recordes e feitos inéditos através dos 365 dias mais importantes do automobilismo.

Carlos Eduardo Valesi

Velho demais para ter a pretensão de ser levado a sério, Valesi segue a Fórmula 1 desde 1987, mas sabe que isso não significa p* nenhuma pois desde meados da década de 90 vê as corridas acompanhado pelo seu amigo Jack Daniels. Ferrarista fanático, jura (embora não acredite) que isto não influencia na sua opinião de que Schumacher foi o melhor de todos, o que obviamente já o colocou em confusão. Encontrado facilmente no Setor A de Interlagos e na sua conta no Tweeter @cevalesi, mas não vai aceitar sua solicitação nas outras redes sociais porque também não é assim tão fácil. Paga no máximo 40 mangos numa foto do Button cometendo um crime.