Há circuitos que consagram pilotos; há outros que eternizam marcas. Em Daytona, a relação com a Porsche ultrapassa o êxito esportivo e se transforma em patrimônio do automobilismo. Às vésperas da abertura de mais uma temporada do IMSA WeatherTech SportsCar Championship, a fabricante de Weissach revisita uma galeria de conquistas que a coloca isoladamente como a maior vencedora das 24 Horas de Daytona: são 20 vitórias gerais, quatro triunfos como fornecedora de motores e mais de 40 êxitos em categorias. No dia 24 de janeiro, a equipe Porsche Penske Motorsport volta à pista com a ambição de prolongar essa hegemonia.
O primeiro traço de uma história vencedora
A jornada que desembocaria em Daytona começou em 1951, nas 24 Horas de Le Mans, quando um modesto Porsche 356 SL venceu sua classe. O capítulo floridiano seria escrito poucos anos depois, em 5 de abril de 1959, ainda sob organização do USAC. Naquele traçado híbrido — parte oval, parte misto — o Porsche 718 RSK de Roberto Mieres e Antonio von Döry superou adversários locais. A prova não figura nas estatísticas oficiais da IMSA, mas simboliza o prólogo de um domínio.
A espera curta e o triunfo coletivo dos anos 1960
A era IMSA em Daytona começou em 1962, quando a corrida ainda não tinha 24 horas. A primeira vitória geral da Porsche viria em 1968, com o Porsche 907 LH inscrito pela equipe de fábrica. O feito traz uma das histórias mais singulares do endurance: sob orientação de Huschke von Hanstein, pilotos de diferentes carros dividiram o volante nas voltas finais e todos foram oficialmente declarados vencedores — um pódio ampliado pela estratégia e pelo espírito coletivo.
Os anos 1970 e a estética da velocidade
No início da década seguinte, o Porsche 917 KH, preparado pela John Wyer Engineering e vestido com as cores da Gulf, tornou-se referência técnica e estética ao vencer em 1970 e 1971, em duelos memoráveis com a Ferrari. Em 1973, o Porsche 911 Carrera RSR conduziu Hurley Haywood e Peter Gregg à primeira vitória da lendária Brumos — equipe que redefiniria o padrão competitivo em Daytona e repetiria o feito em 1975 e 1977.
A partir daí, estabeleceu-se uma sequência quase ininterrupta de triunfos até 1987, primeiro com derivados do 935 e depois com o Porsche 962. O próprio Haywood recorda a lógica inovadora da marca: impedida de usar o 956 na América do Norte por questões de segurança, a engenharia alemã reposicionou o assento e alongou o entre-eixos — solução que gerou um dos protótipos mais vitoriosos da história.
O 911 contra os protótipos: o improvável de 2003
Entre 1985 e 1991, o 962 — na especificação IMSA — sustentou a supremacia da Porsche, complementada pelo Kremer K8 com motor da marca. Mas o episódio mais improvável viria em 2003: enfrentando protótipos teoricamente superiores, o Porsche 911 GT3 RS da The Racer’s Group conquistou a vitória geral. O quarteto formado por Michael Schrom, Kevin Buckler, Timo Bernhard e Jörg Bergmeister transformou a incredulidade em estratégia e, ao amanhecer, em triunfo.
A era híbrida e o novo capítulo com o 963
Após anos como fornecedora de motores na fase dos Daytona Prototypes e o interlúdio dos DPi, a Porsche retornou ao protagonismo pleno com o regulamento unificado entre IMSA e WEC. O protótipo híbrido Porsche 963, introduzido em 2023, devolveu à marca o papel de referência: vitórias gerais em 2024 e 2025 e todos os títulos da classe GTP na América do Norte.
Para 2026, a meta é clara: conquistar a terceira vitória consecutiva em Daytona no ano em que a Porsche Motorsport celebra seu aniversário e a Team Penske completa seis décadas. Mais do que estatística, trata-se de preservar uma narrativa em que engenharia, resistência e tradição convergem sob o mesmo emblema.
Em Daytona, o tempo mede voltas; para a Porsche, mede eras.
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