Os outsiders que quebraram a banca – Dia 127 dos 365 dias mais importantes da história do automobilismo

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Viva Las Vegas! (Autoracing)

O ano de 1982 foi um dos mais repletos de acontecimentos na história do esporte a motor, em particular na Fórmula 1. A temporada foi marcada por muitas polêmicas, surpresas, reviravoltas e acidentes, inclusive com as tragédias que tiraram as vidas de Gilles Villeneuve e de Riccardo Paletti, assim como interrompeu a carreira de Didier Pironi.

Neste campeonato, muitos nomes tidos como favoritos apanharam bastante com os mais diversos problemas: O campeão do ano anterior, Nelson Piquet, sofreu muito com as quebras do motor BMW turbo, ainda em desenvolvimento. Alain Prost e Rene Arnoux demonstravam velocidade, mas a Renault sempre deixava os gauleses na mão. Niki Lauda retornava da aposentadoria pela McLaren, mas ainda sentia a falta de ritmo de corrida em alguns momentos. A Ferrari até teve o melhor carro do campeonato, mas os infortúnios com Villeneuve e Pironi acabaram com estas pretensões.

Com isso, a disputa pelo título ficou entre dois nomes que as casas de aposta pagariam muito pouco, principalmente por ainda correrem em carros movidos por motores aspirados: de um lado, Keijo Eric Rosberg, ou simplesmente Keke Rosberg, finlandês que tinha sua primeira oportunidade em uma equipe de ponta, a bordo da Williams; de outro, John Marshall Watson, norte-irlandês de carreira experimentada, com longas passagens pela Brabham e pela McLaren, sendo esta a escudeira pela qual competia em 1982.

Keke Rosberg precisava apenas do feijão-com-arroz (Motorsport.com)

Rosberg chegou em situação bastante favorável para a etapa final: o finlandês tinha 42 pontos, contra 33 de Watson (Pironi tinha 39, mas como o francês não correria, estava fora do páreo). Bastava ao piloto da Williams pontuar para ser o campeão. Porém, Watson teria a vantagem do empate por ter mais vitórias na temporada. O resultado ainda poderia ficar sob júdice, pois Frank Williams ainda recorria da desclassificação de Keke no GP do Brasil, ainda no começo do ano. Mesmo assim, as chances para o corredor nórdico eram enormes.

O palco da decisão, assim como no ano anterior, era o insólito circuito do Caesars Palace, localizado no estacionamento do hotel que tem o mesmo nome, na cidade de Las Vegas. Assim, a sorte estava lançada na Terra das Apostas.

A Renault mostrou força na classificação fazendo a primeira fila com Prost e Arnoux. Na sequência, vieram a Tyrrell de Michele Alboreto, a Ligier de Eddie Cheever e a Brabham de Riccardo Patrese. Dos postulantes ao título, Rosberg ficou em vantagem, com o sexto posto, contra o nono tempo de Watson.

No entanto, prejuízo do piloto da McLaren foi minimizado com o forfait de Patrick Tambay, da Ferrari, que sofria fortes dores no pescoço e nem sequer largou. Além do francês, Roberto Guerrero, da Ensign, e Jean-Pierre Jarier, da Osella, não largaram devido a um problema de motor e um acidente, respectivamente.

O cantar do cisne da Fittipaldi Automotive (Grande Prêmio)

Além destes, outros três pilotos inscritos não se classificaram: Teo Fabi, da Toleman; Eliseo Salazar, da ATS; e Chico Serra, da Fittipaldi. Para a equipe brasileira, aquele foi o capítulo da empreitada dos irmãos Emerson e Wilson Jr, já que a escuderia tupiniquim acabou sem recursos financeiros e fechou as portas ao final de 1982.

Enfim, vamos para a prova realizada em 25 de setembro de 1982. A dupla da Renault começou forte, mantendo as duas primeiras posições. Rosberg foi cauteloso, mas se manteve em sétimo, enquanto Watson arrancou mal e caiu para 12º.

Enquanto Arnoux superava Prost na segunda passagem, Watson iniciava uma grande recuperação no pelotão, passando nomes como Piquet, Jacques Laffitte (Ligier) e Mario Andretti (Ferrari). Na volta 15, o norte-irlandês supera Rosberg e abre a possibilidade de manter vivo suas esperanças de título.

A manobra de Watson em cima de Rosberg (F1Network)

Com as quebras de Patrese e de Arnoux, além da ultrapassagem em cima de Cheever, Watson saltou para terceiro ainda na volta 20 das 75 programadas. Contudo, Watson estava a mais de 30 segundos de Alboreto, enquanto o piloto da Tyrrell estava a 15 de Prost.

Porém, a esperança ainda existia. Prost passou a ter problemas com os pneus Michelin, especialmente com os detritos da pista, e foi perdendo rendimento. Tanto Alboreto como Watson começaram a tirar a diferença e foram encostando. O italiano chegou na volta 49 e passou a pressionar o francês.

Prost tentou se defender como pode, mas no giro 52, Alboreto finalmente superou o francês para assumir a ponta. Mais quatro voltas e era a vez de Watson deixar Prost para trás. Entretanto, o consumo elevado dos pneus cobrou seu preço e o piloto da McLaren também apresentou problemas nos seus compostos. Não havia mais como alcançar o italiano.

O triunfo de Alboreto, acabando com o jejum da Tyrrell (GP Expert)

Alboreto apenas administrou a vantagem até o final para conquistar a primeira vitória da carreira e encerrar um jejum de quatro anos sem triunfos da Tyrrell. A escuderia do madeireiro Ken festejou demais a conquista, com saudação ao seu pupilo.

O torcedor estadunidense ainda teve motivos para celebrar: Eddie Cheever conseguiu superar Prost nas voltas finais e conquistou o único pódio da Ligier naquele ano. Um resultado honroso para o piloto ítalo-americano.

O campeão mundial Keke Rosberg, a cantora Diana Ross e Michele Alboreto – Fonte Autosport

Já Watson teve que se resignar com o segundo posto, mesmo com a grande corrida de recuperação, afinal não havia mais como alcançar Rosberg matematicamente. Por sua vez, Keke fez apenas uma corrida para pontuar e foi bem-sucedido, seguindo o rumo da regularidade, marca do seu campeonato.

Comboiado pelo seu companheiro de Williams, o irlandês Derek Daly, o piloto da Finlândia concluiu a prova de Las Vegas na quinta posição. Com isso, Keke Rosberg tornara-se o primeiro piloto finlandês campeão mundial de Fórmula 1.

Um título conquistado com apenas uma vitória (GP da Suíça, no circuito francês de Dijon-Prenois), mas com a consistência em um ano cheio de problemas para muitos pilotos, o finlandês foi o piloto que aproveitou a oportunidade em meio ao caos. E, pelo talento que demonstrou ao longo da carreira, Keke foi agraciado com um título que teve os seus méritos.

Apesar de não pontuar na sua corrida final na F1, Mario Andretti contribuiu para o ´titulo de construtores de 1982 (GPExpert)

Apesar de não ter um representante fixo na briga pelo título, a Ferrari teve um prêmio de consolação: mesmo com a desistência de Tambay antes da largada e do abandono de Andretti (na última corrida da carreira do ítalo americano na F1), a escuderia de Maranello não foi alcançada pela McLaren e fechou o ano como a campeã de construtores. Um prêmio de consolação em um ano tão turbulento.

Corrida na íntegra:

Assim terminou uma das temporadas de Fórmula 1 mais insólitas da história, onde os azarões quebraram a banca.

Fonte: Continental Circus, JCSpeedway e Stats F1

Eduardo Casola

Sou formado em jornalismo pela Uniso, torcedor do Corinthians e adoro esportes, especialmente automobilismo!