22 de Outubro, e o tricampeonato de Prost (ou aquele com a batida) – Dia 154 de 365 dias dos mais importantes da história do automobilismo

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Em 1988 a McLaren limpou o chão dos boxes com a concorrência, vencendo 15 das 16 corridas (só não conseguiram bater o fantasma do Comendador Enzo na Itália) e terminando o campeonato com três vezes mais pontos do que a segunda colocada (e apenas dois pontos a menos do que todas as equipes juntas). Senna foi campeão do mundo pela primeira vez, usando a regra dos descartes a seu favor (Ayrton fez 90 pontos contra 87 de Prost, porém se fossem considerados todos os resultados o francês venceria por 105 x 94).

Sempre que há uma dominância tão completa de uma equipe a FIA tenta intervir, e por sorte neste momento a solução já estava pronta. Com o argumento de que seriam muito caros e perigosos, os motores turbo foram banidos do grid ao final de 1988. O McLaren MP4/5 Honda veio então com um motor V10 e, ainda que não tenha sido um monstro como seu antecessor, ainda foi suficiente para deixar a equipe folgada, vencendo 10 dos 16 eventos e somando quase o dobro de pontos da Williams-Renault que terminou na vice-liderança.

Se no campeonato de construtores não houve muita resistência, a disputa interna foi mais do histórica, chegando a limites épicos. Senna e Prost eram cavaleiros medievais que disputavam suas justas pelo mundo, levando consigo seus escudeiros para lhes facilitarem a vida (Ron Dennis e Jean-Marie Balestre, respectivamente). Dizendo que não suportava mais o favorecimento ao rival dentro da equipe, Prost anunciou na corrida da Itália que estava de mudança para Maranello, entregando o troféu da sua vitória naquela etapa para os tifosi. O clima estava muito azedo no paddock, e o campeonato apertado.

Fonte: Autosport

A penúltima corrida do campeonato aconteceria em Suzuka, no Japão, no dia 22 de outubro de 1989, e a situação matemática era esta: Senna tinha 6 vitórias (vinha de uma na corrida anterior, na Espanha) e um segundo lugar na Hungria, mas um 11º no Brasil e 6 abandonos – falamos de um deles, crucial, neste post – enquanto Prost tinha duas vitórias a menos, mas 6 segundos lugares e um terceiro, além de um quarto, um quinto e um abandono. Esta superioridade durante o campeonato colocava Prost 16 pontos à frente de Senna (76 x 60), porém a incompreensível regra dos descartes prejudicava quem era mais regular, pois o francês já havia jogado 5 pontos fora (e já seria campeão na Espanha se o campeonato fosse disputado por pontos corridos). Desta forma, com duas vitórias nas duas últimas corridas Senna somaria 18 pontos e Prost não conseguiria somar mais nenhum, mesmo que terminasse ambas entre os seis colocados. Ainda haveria disputa.

Antes mesmo do final de semana da corrida, Prost já havia dito a Ron Dennis que estava há dois anos tirando o pé para evitar colisões e não prejudicar a equipe quando Senna surgia como um ensandecido, forçando ultrapassagens no melhor estilo “ou eu saio da curva na frente ou nenhum de nós termina a corrida”, mas que esse tempo tinha acabado. “Se ele me forçar, não vou recolher”, tinha dito o francês.

Era uma época gloriosa e também difícil para os cabeças de gasolina: decorar os nomes e os capacetes de 39 pilotos não era fácil. Treze deles ficavam no caminho, não conseguindo tempo no pré-qualifying ou na classificação propriamente dita, o que nos deixava com 26 carros largando no domingo (e, para efeitos práticos, 24 retardatários para serem ultrapassados por Senna e Prost).

Sabendo da superioridade do equipamento, Prost decidiu fazer o classificatório com um acerto mais voltado à corrida. Ele tinha certeza que, mesmo perdendo em velocidade lançada, isso ainda seria suficiente para largar na primeira fila. E estava certo: mais uma pole de Senna com Prost a seu lado, 1,7 segundos mais lento mas ainda quase meio segundo à frente da Ferrari de Berger, na terceira colocação. Alain confiava em seu “jogo pós-flop”, como se diz no poker. E numa ideia que teve: já no grid, pediu a seu mecânico que, na maciota, sem que Senna notasse, retirasse o Gurney flap, aquela aleta reta vertical no final da asa traseira que foi inventada pelo piloto e gênio da aerodinâmica Dan Gurney. Isso diminuiria seu downforce e prejudicaria o desempenho nas curvas de baixa velocidade, mas o daria maior velocidade final nas retas – e como Suzuka era pródiga em retas, sem contar a mítica 130R, e o melhor ponto de ultrapassagem era na entrada da chicane, isso o protegeria caso estivesse na frente. Em tempo: esse ajuste não era proibido pelas regras do campeonato, e foi uma aposta de Prost, torcendo para que em algum momento ele liderasse a corrida.

A ideia funcionou melhor do que se poderia imaginar. Largando mal (e culpando o lado sujo da pista, o que teria consequências importantes no título do ano seguinte), Senna viu Prost sumir à sua frente e quase perdeu a posição também para Berger, mantendo o segundo posto por pouco e tendo que sair à caça ao baguette.

Com um ajuste mais adequado à corrida, Prost rapidamente conseguiu uma vantagem de mais de 5 segundos em relação ao concorrente, e fez uma primeira metade da corrida tranquila. Senna não conseguia alcançá-lo, e como se isso não bastasse perdeu mais dois segundos durante seu pit stop. Mas saiu dos boxes com pneus novos, um carro mais azeitado e muita vontade. Com as duas Ferrari fora da corrida por problemas mecânicos e Alessandro Nannini com sua Williams num muito, muito distante terceiro lugar, Ayrton começou a perseguição ao líder, fazendo uma volta mais rápida após a outra. Ele chegou no francês na volta 40 (Prost tinha deliberadamente diminuído o ritmo, deixando o brasileiro gastar seus pneus ficando muito perto do carro da frente nas curvas e sabendo que tinha vantagem nos retões) e pelas cinco voltas seguintes menos de um segundo separava os dois.

Fonte: Wikipedia

Senna percebeu que precisaria mudar a estratégia. Na volta 46, embutiu seu carro na traseira da McLaren da frente, fazendo a Spoon dentro do arrasto aerodinâmico que Prost deixava atrás de si. Isso impediu que Alain descolasse na reta seguinte e, como a 130R é feita de pé embaixo apesar de ser uma curva, Senna chegou no ponto que precisava logo antes da chicane. E a história aconteceu.

Prost começou a frenagem para fazer as duas pernas lentas da curva, e deixou sim um espaço que poderia ser aproveitado. Vocês sabem como é, não? If you no longer go for a gap, etc, etc. Senna mergulhou e teria a vantagem, porém o narigudo comedor de queijo brie fechou a porta, entrelaçando pneus de McLaren. O resultado foi uma batida pífia, que levou ambos os carros deslizando pateticamente para fora da pista.

Para o líder do campeonato isso servia tão bem quanto vencer a prova, e Prost simplesmente saiu do carro ignorando o arquirrival, enquanto o brasileiro pedia freneticamente para ser empurrado, pois seu motor tinha morrido. Os comissários japoneses poderiam e fizeram isto, uma vez que aquela era uma posição perigosa para deixar um monte de lata parado, e Senna aproveitou para fazer seu Honda pegar no tranco. Ele só tinha um caminho, que era cortando a chicane (fazer uma curva de 90 graus à direita para entrar na pista seria muito perigoso), então lá foi ele ziguezagueando de volta à corrida, com uma asa dianteira toda torta e inútil para o que se queria dela. Seria necessária outra visita aos boxes, que estavam a quase uma volta inteira de distância.

Aula de história para cabeças de gasolina. Fonte: Turbos and Tantrums

Quando saiu dos pits, mesmo após ter batido com o companheiro de equipe, seu motor ter morrido, o carro empurrado pelos comissários, dado uma volta com a asa dianteira avariada e trocado a mesma, Senna estava a apenas 5s da Benetton de Alessandro Nannini. Com um equipamento notavelmente superior e dirigindo como um endemoniado, Ayrton tirou esta diferença em duas das cinco voltas que restavam, passou o italiano no mesmo ponto onde tinha se acidentado havia pouco tempo (sem dificuldades, já que Nannini estava se benzendo no carro prometendo atravessar a Praça de São Pedro de joelhos se sobrevivesse à fúria assassina verde-amarela) e venceu a corrida, acreditando que “só” precisava fazer a mesma coisa na última prova para vencer o campeonato.

Os comissários discordavam. Senna foi imediatamente desclassificado por ter cortado a chicane (e não por ter sido empurrado, como muitos ainda acreditam), e o pódio foi realizado com Nannini, em sua única vitória na Fórmula 1, e com Ricardo Patrese e Thierry Boutsen, ambos da Williams. Nelson Piquet, que tinha largado do 11º lugar, herdou a quarta colocação.

Alessandro Nannini, na única vez que venceu, e na legenda com maior número de enes deste site. Fonte: Hupu.com

Muito choro, trevas e ranger de dentes se seguiram; a McLaren entrou com um recurso, o que azedou de vez a relação com Prost, Senna foi rotulado como piloto perigoso e multado em um valor de seis dígitos de Bushes-pai além de tomar um gancho de seis meses (que foi retirado depois que o brasileiro, alla Galileo, publicou um pedido público de desculpas), e a última corrida do ano não valeu nada. Até hoje se discute se Prost bateu deliberadamente e qual foi o papel de Balestre na decisão dos comissários (sim e fundamental, para que não digam que fiquei em cima do muro). O que se sabe é que não há asteriscos neste campeonato, e que o Professor sabiamente preparou todo o caminho para este desfecho, desde antes da corrida, já sabendo que Senna viria com a visão turva e arriscaria tudo e avisando o que poderia acontecer, até a corrida em si, com um melhor ajuste e uma estratégia comprovadamente superior, e isso somado aos resultados no ano inteiro lhe deram um merecido tricampeonato. Brain beated heart.

FORA DAS PISTAS

De acordo com James Ussher hoje é uma data importante, pois é aniversário do mundo (que teria sido criado em 22 de outubro de 4004 AC, por volta das 18h. Em termos um pouco mais científicos, em 1879 Thomas Edison testou a primeira lâmpada elétrica incandescente, que durou 13 horas e meia.

No campo da sétima arte, a data nos trouxe ícones da cultura pop/nerd. Nasceram no dia de hoje Christopher Lloyd (1938), o eterno Emmett “Doc” Brown de De Volta Para o Futuro, Jeff Golblum (1952), que não contente em ser o cético Ian Malcolm em Jurassic Park também fez o papel do cético David Levinson em Independence Day, e do ótimo Jimmy McGill, aka Saul Goodman, Bob Odenkirk (1962).

E, em 1969, a Atlantic Records lançou no Reino Unido um dos maiores e mais influentes álbuns da história do rock and roll, nomeado simplesmente de Led Zeppelin II.

Carlos Eduardo Valesi

Velho demais para ter a pretensão de ser levado a sério, Valesi segue a Fórmula 1 desde 1987, mas sabe que isso não significa p* nenhuma pois desde meados da década de 90 vê as corridas acompanhado pelo seu amigo Jack Daniels. Ferrarista fanático, jura (embora não acredite) que isto não influencia na sua opinião de que Schumacher foi o melhor de todos, o que obviamente já o colocou em confusão. Encontrado facilmente no Setor A de Interlagos e na sua conta no Tweeter @cevalesi, mas não vai aceitar sua solicitação nas outras redes sociais porque também não é assim tão fácil. Paga no máximo 40 mangos numa foto do Button cometendo um crime.

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