O piloto que venceu por muito pouco

0 Flares Twitter 0 Facebook 0 Google+ 0 Pin It Share 0 Filament.io 0 Flares ×

| Por: Carlos Eduardo Valesi

lll Série 365: 21 de Fevereiro – O piloto que venceu por muito pouco – 02ª Temporada: dia 275 de 365 dias.

Um piloto mediano, que chegou à Fórmula 1 meio que por acaso, colecionou altos e baixos (muitos baixos e alguns médios, melhor dizendo), e que chegou apenas uma vez ao pódio. Mas com vitória. E que vitória histórica.

Peter Gethin Fonte: Wikipedia

Peter Gethin nasceu em 21 de fevereiro de 1940, e estaria completando hoje 79 anos se um câncer de cérebro não o tivesse levado para o pitlane do lado de lá em 2011. Inglês filho de um jóquei bastante conhecido no seu país, o pequeno Peter Kenneth não teve a infância típica dos pilotos de Fórmula 1. Após sair da escola, trabalhou em uma garagem e só começou a se interessar por corridas quando já tinha 23 anos. “Na verdade, só recebi o convite para participar do time de Charles Lucas na F3 porque ele estava de olho na minha namorada”, ele disse. Apesar disso, seu nome começou a ser notado na categoria no final da década de 60, e o britânico acabou fazendo amizade com um neozelandês que queria montar uma equipe de Fórmula 1.

Bruce McLaren o convenceu a pilotar para ele em 1969 em duas categorias que não eram o caminho tradicional para o palco principal: a CanAm no continente americano e a estreante Formula 5000 britânica, em um McLaren M10A da Church Farm Racing gerida por Sid Taylor. Gethin venceu a primeira prova da nova categoria, e foi o primeiro campeão – aliás, bicampeão, pois também levou a temporada de 1970. Mas neste ano seu caminho começou a mudar: Denny Hulme teve queimaduras nas mãos em uma prova em Indianápolis e Bruce McLaren disse a Peter que ele iria substituir o campeão de 1967 no GP da Bélgica. Peter respondeu que a prova iria ser no mesmo dia de uma corrida da F5000, e Bruce retrucou: “Você não acha que nós colocamos você no nosso time só para o benefício de Sid Taylor, acha? Você VAI correr na Bélgica.”

Infelizmente, ninguém da McLaren correu na Bélgica. Algumas semanas antes, em testes mistos em Goodwood, Bruce McLaren perdeu o controle do seu carro, batendo contra um posto de fiscais desativado e morreu. Gethin estava lá. “Eu estava literalmente sentando no cockpit do M14 Formula 1 para sair pela primeira vez quando vimos uma coluna de fumaça.” Ele foi um dos primeiros a chegar no local do acidente.

Fonte: Pinterest

A McLaren só foi alinhar no grid novamente no GP da Holanda, e ao invés substituir o Urso Peter estava no cockpit que seria do próprio Bruce. Ele conseguiu uma boa classificação na sua corrida de estreia em Zandvoort, um 11º lugar a apenas dois segundos da pole, mas um acidente na volta 19 o impediu de terminar a prova. O ano foi bastante irregular, com boas corridas (um sexto lugar e seu primeiro ponto, no Canadá), e outras, digamos, não tão boas (um 9º em Monza e um 14º em Watkins Glen até não pareceriam ruins, se eu não contasse para vocês que ele foi o último a receber a bandeirada e 8 voltas atrás do vencedor em cada uma delas).

Fonte: Continental Circus

Em 1971 a equipe confirmou sua permanência ao lado de Hulme, porém a ausência do criador estava sendo sentida. Teddy Mayer, o advogado americano que gerenciou a McLaren por ser o sócio principal após a morte de Bruce, precisava achar um bode expiatório pelos resultados ruins do ano. Como Denny era praticamente da família, sobrou para Gethin, que foi avisado ainda na metade do ano que após a prova de Monza ele estaria a pé. Acontece que outra tragédia interferiu na sua carreira.

Com a morte de Pedro Rodriguez em Norisring, uma semana antes do GP da Inglaterra, a BRM ficou sem seu principal piloto, e Louis Stanley, o chefe de equipe, resolveu tentar a sorte e ligou para Peter: “ele me perguntou se por acaso eu estaria livre para o GP da Áustria. Eu respondi que se ele quisesse estaria livre o resto do ano, e teria prazer em mandar a McLaren se #@%$#”.

Na Áustria, um modesto décimo lugar, ruim se comparado com a vitória de Jo Siffert no mesmo carro, e uma posição à frente do outro carro da equipe, pilotado pelo austríaco Helmut Marko. Porém a grande corrida da história do inglês estava logo ali. O Grande Prêmio da Itália de 1971, em Monza, era a antepenúltima prova do campeonato, que já estava decidido em favor de Jackie Stewart e da Tyrrell. Com isso, o clima era de festa e competição aberta, sem pressão. Somava-se à diversão o circuito mais rápido da temporada, naquela que seria a última prova disputada lá sem as chicanes. E o V12 da BRM parecia que iria se dar bem por ali. Mas eu vou deixar o próprio Peter contar o que aconteceu:

“Na manhã da corrida, enquanto todos os Stewarts e Hills do mundo chegavam ao autódromo em seus helicópteros, eu tive que dirigir até lá no meu carro alugado. Eu estava puto da cara, pois na noite anterior, durante o jantar da equipe, o convidado de honra era Ronnie Peterson – Louis Stanley estava tentando convencê-lo a vir para a equipe em 72, e fez eu dar meu lugar à mesa para ele. Bom, logo no início da corrida eu já sabia que teria que ter uma estratégia diferente. Saindo da 11ª colocação, eu enfiei o pé no acelerador e briguei muito para chegar ao pelotão da frente. Sinceramente, houve momentos em que eu tive certeza de que o motor não iria aguentar o tranco. Briguei muito com Chris Amon pelo nono lugar, trocamos de posição várias vezes. Mas, na medida em que o favoritos iam caindo, eu me vi na sétima colocação, em um bloco único de liderança. Estávamos todos juntos: Peterson, Cevert, Hailwood, Siffert, Ganley, Amon e eu. Jo Siffert logo ficou pelo caminho, e passávamos então todos juntos pela linha de chegada a cada volta. No giro 48 dos 55, foi a vez de Amon ter problemas, e éramos cinco, todos com exatas zero vitórias na Fórmula 1. Eu aproveitava o vácuo para ir escalando posições: na volta 50 estava em terceiro, e na 52 assumi a liderança, só para perde-la logo em seguida e cair novamente para quarto, que foi a posição em que passei para abrir a última tentativa. Depois da Ascari, já tinha deixado Hailwood para trás, e só faltava a Parabólica – quem tracionasse melhor na saída provavelmente venceria. Ronnie partiu para cima de Cevert e conseguiu a ponta, mas escapou um pouco. Eu já estava contornando a curva em segundo, joguei o carro por dentro, com meu cérebro gritando ‘não deslize! não deslize!’, tracionei e vi que estava na frente, com a bandeira quadriculada logo ali. Peterson estava colado ao meu lado e, se a linha de chegada fosse 10 metros à frente eu não teria vencido. Eu sabia que seria muito apertado, e levantei meu braço em triunfo, mas não para me mostrar, e sim porque pensei que como estávamos na Itália e a cronometragem poderia não ser exatamente britânica, eles poderiam dar a vitória para quem comemorasse primeiro.”

Foi a vitória mais apertada da Fórmula 1. Peter recebeu a bandeirada 0,01s à frente de Ronnie Peterson, 0,09s de François Cevert, 0,18s de Mike Hailwood e 0,61s de Howden Ganley. Cinco pilotos terminando uma prova de uma hora e dezoito minutos no mesmo segundo.

Fonte: Contos da F1

Nunca mais Peter Gethin sentiu o gosto de champagne. Uma sexta posição na mesma Monza em 72 lhe deu o 11º e último ponto de uma carreira que durou três temporadas (ele correu mais duas vezes, uma em 73 e outra em 74, para quebrar galhos, mas não chegou a completar as provas). De volta à F5000, ainda venceu a corrida dos campeões em 73 e a Tasman Series em 74. Em 1976 decidiu se aposentar da boleia, mas nunca largou de vez as pistas, retornando brevemente à Fórmula 1 como chefe da equipe da Toleman em 1984, quando teve em suas mãos um estreante chamado Ayrton.

lll FORA DAS PISTAS

Em 21 de fevereiro de 1984 Saturno e a Terra estavam alinhados, assim como em todos os outros dias, uma vez que eu só estou levando em consideração dois pontos referenciais. Quem também nasceu neste dia: Nina Simone, cantora americana; David Geffen, fundador da Geffen Records e da DreamWorks; o inglês Alan Rickman, que pode ser o Professor Snape para os fãs mais novos, mas vai sempre ser a voz do robô Marvin na adaptação do Guia do Mochileiro das Galáxias e principalmente o terrorista Hans Gruber do primeiro Duro de Matar; Tony Meola, goleirão daquela seleção dos Estados Unidos em 1994; Sophie “Sansa Stark” Turner; Chuck Palahniuk, o cara que escreveu “Clube da Luta”, e Paulo Rink, jogador de futebol e de poker curitibano.

Como ponto final musical, a linda e sofrida voz de outra aniversariante, Nina Simone:

lll A Série 365 Dias Mais Importantes do Automobilismo, recordaremos corridas inesquecíveis, títulos emocionantes, acidentes trágicos, recordes e feitos inéditos através dos 365 dias mais importantes do automobilismo.

Carlos Eduardo Valesi

Velho demais para ter a pretensão de ser levado a sério, Valesi segue a Fórmula 1 desde 1987, mas sabe que isso não significa p* nenhuma pois desde meados da década de 90 vê as corridas acompanhado pelo seu amigo Jack Daniels. Ferrarista fanático, jura (embora não acredite) que isto não influencia na sua opinião de que Schumacher foi o melhor de todos, o que obviamente já o colocou em confusão. Encontrado facilmente no Setor A de Interlagos e na sua conta no Tweeter @cevalesi, mas não vai aceitar sua solicitação nas outras redes sociais porque também não é assim tão fácil. Paga no máximo 40 mangos numa foto do Button cometendo um crime.