O peso de um showman – Dia 352 dos 365 dias mais importantes da história do automobilismo

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Quando a Ferrari 126C2 alçou voo ao acertar a March do alemão Jochen Mass e se desintegrou com a violência do impacto, a vida e a carreira de Joseph Gilles Henri Villeneuve chegava ao fim naquele 8 de maio de 1982, após o piloto ser ejetado dos destroços do carro vermelho e seu corpo cair do outro lado da pista, num cenário desolador para todos que acompanhavam o circo da Fórmula 1.

A passagem de Gilles pela categoria máxima do automobilismo pode ser classificada como algo totalmente diferente de qualquer padrão existente ao longo da história da modalidade no passado e no futuro. Se, por um lado, as estatísticas e os duelos contra os companheiros de equipe foram pouco expressivos, por outro, o arrojo e as exibições cativantes acabaram construindo uma figura mítica que encanta até hoje boa parte dos cabeças-de-gasolina.

Quatro rodas pra quê? (Grande Prêmio)

Inegavelmente, poucos pilotos tiveram um nível de arrojo minimamente similar tal qual o canadense. A forma como lidava em situações adversas do carro trouxe um lado artístico que a F1 pouco conhecia, dando mais um motivo para se assistir as corridas.

No entanto, o estilo extremamente agressivo trouxe uma incômoda falta de consistência. Apesar do show, o desempenho de Villeneuve no campeonato era marcado por resultados pífios e por pouca chance de brigar por título, devido ao alto índice de abandonos. Bem verdade que a Ferrari fez verdadeiros trambolhos em 1980 e 1981, mas ainda assim, a equação grande desempenho mais vitória não acontecia com frequência.

Os limites só serviam para serem quebrados (FlatOut)

Esse tem sido a principal razão para que Gilles também seja visto como superestimado, afinal como pode um piloto com um recorde tão medíocre ser idolatrado dessa forma? É bem verdade que a morte acaba servindo para enaltecer a imagem de quem se foi, independente de suas obras em vida. Contudo, o caso do canadense é peculiar até nisso.

Villeneuve talvez tenha sido um dos poucos, senão o único, a ser tratado quase como um filho por Enzo Ferrari. Sabemos bem como a escuderia de Maranello não é exatamente a mais complacente com seus empregados, mas o canadense gozava de prestígio, especialmente entre os tifosi. E ter isso dentro da equipe mais importante da história da F1 é um belo argumento.

Outro fato que contribui para esta imagem foi a narrativa em cima do seu desfecho. O episódio da corrida em Ímola em 1982, o último grande prêmio de sua carreira ecoa até hoje como um caso de gerenciamento de crise interna dentro do automobilismo. Uma história cheia de meandros e que acabou formando uma dicotomia de duelo entre o bem e o mal, embora isso não seja a verdade.

Queiram ou não, Pironi mereceu vencer (Globoesporte.com)

Aqui cabe uma ponderação. O senso comum passou a apontar que Didier Pironi tinha tirado a vitória de Gilles, pois o francês não teria obedecido a placa com as inscrições “Slow” que era mostrada para ambos os ferraristas. O canadense ainda acreditava que gozava da posição de primeiro piloto, prometida após o vice-campeonato em 1979. Todavia, a visão dos dirigentes em Maranello era de que não havia como definir quem seria o líder da equipe.

Muitos cabeças de gasolina ainda nutrem a visão da Ferrari da escuderia sem escrúpulos, vide episódios como o “Hoje não, hoje sim” e o “Fernando is faster than you”, mas não era essa a situação que estava clara naquela corrida. Gilles diminuiu demais e Pironi aproveitou a chance.

O ódio que Gilles nutriu com naquele episódio e o desejo de nunca mais falar com o companheiro de equipe foi o estopim para o julgamento da mídia e dos envolvidos com a categoria. A morte de Villeneuve foi o fardo que Pironi carregou pelo resto de sua vida, tal qual Barbosa teve que fazer após a Copa de 1950. Foram desdobramentos trágicos em um duelo que não merecia um final assim.

Pironi fez o que tinha que fazer, pois era sua honra de piloto em jogo, além da chance de vencer numa pista italiana pela Ferrari. Gilles nunca engoliu aquela situação e, na ânsia de superá-lo, foi até às últimas consequências. Mesmo que o acidente fatal tenha sido em volta de desaceleração, a colisão foi uma consequência, principalmente, de um carro extremamente frágil. Tanto que o próprio francês também sofreria as consequências meses depois.

Seja como for, tanto Gilles como Didier tiveram fardos a carregar. Enquanto o francês foi condenado por cumprir suas obrigações, Villeneuve tinha a missão de ser o cara da Fórmula 1, e precisava provar que não era só ousado, mas também tinha a capacidade de ser um campeão do mundo.

Gilles Villeneuve talvez não fosse forjado para ser o campeão, mas foi o cara que veio para ser o showman. Mesmo que não tenha sido eficiente, foi audacioso e viveu o automobilismo intensamente até o fim. A Fórmula 1 teve grandes espetáculos e isso cativou o público ao longo dessas corridas.

Afinal de contas, qualquer piloto de corrida sabe quais os riscos de acelerar em alta velocidade em um carro de competição. Transformar isso num show é uma arte. Gilles foi um artista, mesmo que não seja vencedor, contribuiu muito para a história da categoria.

Eu não penso na morte. Morrer faz parte do trabalho!

Gilles Villeneuve (1950-1982)

Fonte: FlatOut, GPTotal, Projeto Motor, Continental Circus, Torcedores.com e Voando Baixo.

Eduardo Casola

Sou formado em jornalismo pela Uniso, torcedor do Corinthians e adoro esportes, especialmente automobilismo!