O Fim Trágico de uma Promessa Italiana – Dia 45 dos 365 dias mais importantes da história do automobilismo – Segunda Temporada.

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Mesmo que a Itália seja a casa da equipe mais tradicional da Fórmula 1 e dos fãs mais apaixonados por automobilismo, os títulos de pilotos ainda são um item em escassez no país da bota. Após os triunfos de Ascari em 1952 e 1953, diversos italianos passaram pelo grid, desde Alboreto até Trulli, e infelizmente nenhum deles foi capaz de repetir o feito. Nesse mesmo dia 6 de Julho, talvez o mais promissor deles teve um final trágico enquanto tentava alcançar um de seus maiores rivais.

Luigi Musso nasceu em Roma no dia 28 de Julho de 1924, e tal qual diversos outro personagens que já passaram pela nossa série, recebeu uma forte influência familiar para entrar no mundo do automobilismo. Mesmo com um pai diplomata, Luigi cresceu assistindo seus dois irmãos seguindo carreira na velocidade, o que fez crescer sua paixão pelo esporte. Seu começo não foi dos mais bem-sucedidos e abandonos no Tour da Itália, Mille Miglia e Targa Florio marcaram seu melancólico ano de 1950. Na temporada seguinte, uma vitória no Giro della Calabria e um pódio na Copa Ascoli solidificaram sua entrada no cenário automobilístico italiano. Outra onda de sucesso dois anos depois fez com que Musso fosse contratado pelo programa de jovens pilotos da Maserati juntamente com Sergio Mantovani e Emilio Gilleti. Ainda em 1953 o italiano também se tornou campeão nacional de turismo na classe 2 litros, cimentando ainda mais seu nome dentro do programa da grande montadora e abrindo portas que o levariam ao auge do automobilismo mundial.

Sua estreia na Fórmula 1, ainda que em uma condução compartilhada com Sergio Mantonavi, veio em Setembro da mesma temporada. O palco foi o lendário circuito de Monza, que recebia a última etapa do mundial. A promissora 12ª posição na classificação se converteu em um incrível 7º lugar na corrida, apenas uma colocação fora dos pontos. O ano seguinte foi dedicado a competições de Endurance, como as 24h de Le Mans e a Mille Miglia, mas Luigi voltou ao volante da Maserati para as duas últimas etapas do mundial de Fórmula 1, abandonando na Itália e conquistando um incrível 2º lugar na Espanha, sendo esse seu primeiro pódio na categoria. 1955 trouxe sua primeira temporada completa na categoria, entretanto, apesar do pódio no GP da Holanda, a falta de confiabilidade de seu bólido o incomodava profundamente. Luigi então concluiu o calendário com a Maserati e partiu posteriormente para a Ferrari buscando um equipamento melhor e mais chances de vencer. Musso não sabia, contudo, que essa transferência seria capital para acarretar seu acidente trágico poucos anos depois.

Triunfo logo na primeira etapa de 1956 representou um ótimo começo para o italiano na escuderia. Em solo argentino, Luigi largou em 3º e assumiu a ponta após ver seu companheiro de equipe, Juan Manuel Fangio, abandonar a prova da liderança com problemas mecânicos. Ordens de equipe forçaram Musso a entregar seu carro para o argentino, que venceu a prova. Os dois pilotos dividiram os pontos e Jean Behra, segundo colocado no GP, saiu da primeira etapa da temporada liderando o campeonato de pilotos. Apesar do início avassalador, o resto do ano foi extremamente frustrante e Luigi sequer pontuou novamente, eventualmente encontrando sucesso em outras categorias como um 2º lugar nas 12 horas de Sebring e um 3º na Mille Miglia.

Um carro muito mais competitivo em 1957 representou bons agouros para o italiano, mas a chegada de Mike Hawthorn se provaria problemática em um futuro próximo. Dois segundos lugares e uma volta mais rápida foram cruciais para o italiano, agora estabelecido na Ferrari, garantir a 3ª posição no campeonato de pilotos. Além disso, vitórias nos 1000km de Buenos Aires e em Targa Florio enchiam os corações italianos de esperança por mais um campeão mundial. A posição de Musso na escuderia ganhou ainda mais importância após a morte de Eugenio Castelloti em uma sessão de testes. O acontecimento promoveu Luigi para o trio de pilotos principais da equipe ao lado de Hawthorn e Peter Collins, dois britânicos experientes e muito talentosos. O trio parecia ser um dream team para 1958, mas a parceria geraria sérios problemas.

 

Dois pódios nas duas primeiras etapas elevaram Musso à liderança do campeonato com 4 pontos de vantagem em relação a Stirling Moss, enquanto seus companheiros de equipe amargavam modestas 4ª e 5ª posições. As duas corridas seguintes viram uma reação de Hawthorn, que foi capaz de superar o italiano contando com o suporte de Peter Collins. Segundo relatos, os dois britânicos decidiram se apoiar para que um dos dois conquistasse o título, mas o importante era que Luigi não tivesse chance alguma. O acordo injusto aliado a supostas dívidas na conta do italiano apenas pioravam as condições da corrida seguinte para o piloto.

Chegamos. 6 de Julho de 1958. Remis, França. O GP com o maior prêmio em dinheiro do calendário recebia a 6ª etapa do ano. Luigi alinhou em segundo, atrás justamente de Hawthorn. Sua sede por vitória era triplicada por todo o contexto da corrida e o italiano precisava dessa vitória por inúmeros motivos. Na largada a ordem foi mantida, mas Musso partiu para a caça, vendo a Ferrari de Mike crescer cada vez na sua frente. Eis que na 10ª volta, Luigi passou do limite na curva Muzione, perdeu o controle de seu carro e foi jogado para fora do bólido que capotou diversas vezes. O italiano ainda foi levado com vida para o hospital mas infelizmente não resistiu aos ferimentos.

Luigi Musso foi um dos primeiros feixes de esperança para um povo simplesmente apaixonado por velocidade, que ainda aguarda um piloto da casa sendo campeão vestindo o vermelho Ferrari. Mesmo assim, seu legado no automobilismo italiano e na história da própria Escuderia Ferrari jamais será esquecido.

Fernando Brandão Campos

Brasiliense, podcaster, Team Pepsi, torcedor do Fluminense e de basicamente todos os times de Boston, além de ser dono de um talento sobrenatural para matar equipes de Fórmula 1 (basta perguntar para a Toyota, Lotus e Aston Martin, que sequer entrou mas provou do veneno). Seu habitat natural é o Twitter mas pode ser encontrado falando besteira em outros lugares também. Joga nas 11 com podcasts no Podcast F1 Brasil, vídeos no Boteco F1 e textos aqui no Boletim do Paddock, com direito a uma passadinha no Formula Legend e no Superlicense de vez nunca.

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