O Escocês Voador – Dia 287 dos 365 dias mais importantes da história do automobilismo.

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Dominante dentro do carro, relutante fora dele. Os adjetivos, embora opostos, servem bem a um dos maiores pilotos de todos os tempos, conhecido tanto por ser um gênio nas pistas, que corria (e vencia) com qualquer tipo de carro, quanto por ser uma pessoa retraída, humilde e até mesmo tímida no trato pessoal.

Sorriso caipira. Fonte: Daily Record

James Clark Junior nasceu em 04 de março de 1936 em uma vila escocesa chamada Kilmany, não muito longe da fronteira com a Inglaterra. Seus pais eram fazendeiros e tinham quatro filhas quando o caçula veio ao mundo. Ele aprendeu a dirigir (sozinho) com 8 anos de idade, e diz a lenda que como era muito pequeno, os vizinhos da fazenda comumente viam um carro “andando sozinho” pelas estradas rurais da região.

Aos 13, foi matriculado em uma escola privada em Edinburgo, onde teve contato pela primeira vez com uma revista Playboy Motorsport e descobriu que correr de carros era uma profissão. Ficou com aquilo na cabeça por um tempo, mas obviamente a família era contra este tipo de carreira. Com 17 anos, já tendo largado a escola para ajudar na criação de ovelhas da família, comprou um Sunbeam Talbot e participava de provas de rali e uphill na região. Não só sua família achava isso uma estupidez, mas toda a comunidade considerava ser piloto uma loucura. “Eu era considerado o idiota local”, disse numa entrevista em 1964. Essa desaprovação inicial certamente contribuiu para que Clark sempre se sentisse extremamente desconfortável com a atenção da imprensa e da torcida, odiando participar de entrevistas coletivas.

Fonte: F1

Mas se aqueles que tinham o mesmo sangue não gostavam do que viam, sempre havia os amigos. E Jim tinha alguns com bom poder financeiro, que bancavam sua entrada como piloto particular nas provas, até que em uma corrida em Berwickshire ele derrotou Jock McBains, piloto já experiente e dono de uma oficina. Jock viu que o garoto era um prodígio, e resolveu criar uma equipe para tê-lo como piloto. Então, por ter vencido o chefe, Jim Clark foi correr pela Border Reivers. Em 1958 já amealhou 18 vitórias, a bordo de um Jaguar D-Type e de um Porsche.

Na Inglaterra, existe um feriado que acontece um dia após o Natal, o Boxing Day. É tradição preencher este dia com competições esportivas (tanto no futebol quanto no rugby e, é claro, no automobilismo). E foi em 26 de dezembro de 1958 que a vida de Jim Clark mudou. Numa prova comemorativa em Brands Hatch, correndo com um Lotus Elite, Clark terminou em segundo, mas incomodou demais o vencedor, que tinha um carro semelhante. Só que esse cara TINHA MESMO um Lotus, pois era o dono da equipe, Colin Chapman. Ele ficou totalmente impressionado com a velocidade e persistência do garoto, tanto que ofereceu a ele uma vaga na sua equipe em Le Mans no ano seguinte e, na sequência, uma oportunidade de se juntar à equipe na Fórmula Junior.

Clark e Lotus, dois nomes que ficariam ligados para sempre. Fonte: Pinterest

Em março de 1960, estreando na categoria, Clark venceu a prova, à frente da Cooper de John Surtees – e dali partiu para a conquista do campeonato. E menos de seis meses depois já tinha sido promovido para a Fórmula 1, substituindo o próprio Surtees (que preferira correr de moto na Ilha de Man) no GP da Holanda, onde abandonou por problemas na transmissão de seu Lotus-Climax. Mas o batismo de fogo veio na prova seguinte, no tenebroso GP da Bélgica de 1960, em Spa-Francorchamps. Já no início da corrida o inglês Chris Bristow bateu sua Cooper de maneira impressionante, morrendo na hora. Jim de alguma maneira conseguiu desviar do corpo mutilado no meio da pista, mas seu carro ficou banhado com o sangue de Bristow. E, algumas voltas depois, seu companheiro de equipe e amigo Alan Stacey perdeu o controle após ser atingido no rosto por um pássaro e também perdeu a vida. Apenas a insistência de Colin Chapman fez com que Jim Clark não desistisse da carreira já na sua segunda prova, mas o ódio pelo traçado de Spa permaneceu por toda a sua vida, mesmo com as quatro vitórias seguidas que Clark conseguiu lá.

O ano de 61 foi de aprendizado e também marcado a fogo. Em 10 de setembro, no GP da Italia em Monza, uma colisão com a Ferrari de Wolfgang von Trips já na segunda volta mandou o alemão direto sobre os espectadores, matando não só o Barão Vermelho mas também 15 torcedores. Embora logo tenha sido considerado ponto pacífico que Clark não teve culpa no contato entre os carros, o escocês carregou mais esta marca em sua alma.

GP da Alemanha de 1962. Fonte: Wikipedia.

Em 1962 a estrela de Jim Clark começou a brilhar intensamente, e ele frequentemente só era batido por problemas mecânicos no próprio carro – a Lotus era muito rápida, porém pouco confiável. Sendo o responsável por desenvolver o recém criado Lotus 25 (modelo que se tornaria mítico), Clark abandonou várias corridas, e mesmo assim chegou à última prova dependendo apenas de si mesmo. Bastava uma vitória para tornar-se campeão do mundo, Jim fez a parte dele: saiu na frente e manteve a liderança até que um vazamento de óleo (causado por um parafuso mal apertado) o tirou da corrida e deu o título a Graham Hill.

As coisas foram diferentes no ano seguinte e, com um carro melhor do que os outros e muito, mas muito braço, Clark fez em 10 corridas o que muitos consideravam impossível: foram 07 vitórias (100% dos pontos possíveis, já que apenas os 6 melhores resultados contavam para o campeonato), 7 poles, 6 voltas rápidas e 9 pódios (e o Fernando Campos descreveu maravilhosamente esta conquista aqui). Aos 27 anos, era campeão mundial e tinha batido a maioria dos recordes existentes, muitos dos quais marcados antes por Fangio, ídolo do fazendeiro que voava nas pistas. Clark ganhou o apelido de “Escocês Voador”, e precisou fugir muito da imprensa naquele ano, até porque foi descoberto pela América: participou das 500 Milhas de Indianápolis com um Lotus, o que foi motivo de chacota com o único piloto não nascido nos Estados Unidos a se classificar, porém um segundo lugar ao final das 200 voltas calou os críticos.

Se 1964 não foi tão bom (novamente estreando um modelo novo, o Lotus 33, Jim Clark teve vários abandonos e, como em 62, chegou com chances de vencer o campeonato na última prova quando, na liderança da corrida e garantindo o título, seu motor novamente explodiu – os mecânicos erraram a quantidade de óleo colocado no carro), o final do ano garantiu a Clark a Ordem do Império Britânico recebida das mãos da Rainha Elisabeth II e foi o purgatório necessário para chegar ao paraíso.

O annus mirabilis de nosso herói começou nas Tasman Series, disputadas normalmente em janeiro na Oceania. Competindo pela primeira vez nesse campeonato contra nomes como Bruce McLaren, Jack Brabham e Graham Hill, Clark sagrou-se campeão com quatro vitórias em sete provas. No mundial de Fórmula 1 humilhou novamente a concorrência, conseguindo novamente todos os pontos possíveis, com vitórias na África do Sul, Bélgica, França, Inglaterra, Holanda e Alemanha. Só não foram consecutivas porque Jim preferiu não correr o GP de Mônaco, a fim de participar novamente das 500 Milhas. Nos EUA liderou 190 das 200 voltas e tornou-se o primeiro piloto não americano a vencer a prova desde 1916, o dono da primeira vitória de um motor traseiro no templo da velocidade ianque e até hoje o único homem a unificar os troféus do Brickyard e da categoria-mãe no mesmo ano. Não bastasse isso, foi campeão francês de Fórmula 2 e venceu provas de turismo no BTCC e de outras competições menores. “Jimmy entrava em algumas coisas que eu nunca pensaria em entrar. Num determinado ano houve uma corrida de carros históricos em Rouen e lá estava ele, correndo num ERA de Pat Lindsay e indo mais rápido que o próprio Pat!”, disse Jackie Stewart uma vez.

Clark, HIll, Ginther e Stewart, na largada do GP da Inglaterra de 1965. Fonte: ProjetoMotor

Clark era talento e velocidade puras, então normalmente deixava as questões técnicas de lado. Ele contava com seu chefe e amigo Colin Chapman para traduzir aos mecânicos suas impressões sobre o carro, isso quando o fazia. Uma história clássica conta que durante um teste com a Lotus, ao voltar aos boxes ouviu de Chapman que seu carro estava saindo muito de traseira e que ele pediria aos mecânicos para que corrigissem o ajuste na suspensão. Clark teria dito: “Não os incomode, deixe como está que eu me adapto à maneira como o carro está reagindo”.

Ainda em 1965 Jim Clark foi capa da revista Time como “O Homem Mais Rápido Sobre Rodas”. Apenas dois outros pilotos receberam a honraria: Ayrton Senna e Michael Schumacher.

Jim Clark era um amante das coisas boas da vida: comia bem, adorava um uísque e sempre chegava aos autódromos acompanhado de uma bela garota. Apesar de não ter um namoro fixo, sempre dizia que seu sonho era um dia constituir uma família e voltar à Escócia para criar ovelhas. Durante toda sua carreira fez questão de assinar contratos com apenas um ano de duração, para que pudesse estar livre para parar quando bem entendesse.

Como é comum na Fórmula 1, quando um conjunto piloto-equipe começa a comer a concorrência com farofa, é hora de dar uma chacoalhada nas coisas. Em 1966 estrearam os motores de 3 litros, e a Lotus não conseguiu fazer um carro que permitisse a Clark disputar o título. Não bastasse isso sofreu um acidente durante os treinos do GP da França quando, da mesma maneira que Alan Stacey, foi atingido no rosto por um pássaro – voltou às pistas no GP da Inglaterra duas semanas depois, ainda bastante machucado, e fez uma das melhores apresentações de sua carreira. A pista estava molhada pela famosa chuva leve britânica, o carro era ruim, o motor ultrapassado e na metade da prova Jim ficou sem freios. Ainda assim, conquistou um épico quarto lugar.

A temporada de 67 começou com títulos, novamente nas Tasman Series, com 5 vitórias e três segundos lugares em 8 corridas. Na Fórmula 1 era o início da parceria entre a Ford e a Lotus, que se provaria vitoriosa, e mesmo com cinco abandonos em 11 corridas Clark ainda conseguiu um terceiro lugar, ganhando 04 provas (o mesmo número que Denny Hulme e Jack Brabham, respectivamente 1º e 2º colocados, juntos).

Parecia que 1968 seria novamente um ano de domínio absoluto. Dono de quase todos os recordes da categoria, com o melhor carro e no auge dos seus 32 anos, Clark tinha um futuro próximo brilhante. Porém em 07 de abril a Lotus prevaleceu sobre a Ford sobre onde o astro deveria se apresentar: enquanto a montadora preferia que ele corresse uma prova em Brands Hatch, a equipe preferiu manda-lo para a Fórmula 2, em Hockenheim. Na primeira bateria, não muito à vontade em um circuito onde corria pela primeira vez, sob uma chuva fina e com um acerto do carro não muito favorável, Jim Clark vinha numa modesta oitava posição quando, sozinho, balançou numa curva à direita, dançou na pista a 230 km/h e foi direto para a floresta, arrebentando-se em uma árvore. Sua morte foi instantânea. Ao final da bateria, o sentimento era de descrença absoluta. Ninguém acreditava que o melhor piloto de todos os tempos havia morrido. Em estado de choque, Chris Amon declarou: “Se isto pôde acontecer com ele, que chance temos o resto de nós?”. Graham Hill foi filmado entre os escombros, revirando partes do carro. Disse depois que julgava impossível que um piloto tão fantástico pudesse sair da pista por falha humana. Hoje as hipóteses mais aceitas são de quebra da suspensão traseira e/ou um pneu traseiro estourado.

Colin Chapman ficou desolado, e repetia que havia perdido seu melhor amigo. Jackie Stewart disse, nos anos 80: “Foi o melhor piloto contra o qual eu corri. Se eu tivesse que escolher um modelo de piloto, seria Jim Clark”.  Hill disse que o que ele mais sentiria falta em Jim era do seu sorriso. Em 1990, quando foi fundado o International Motorsports Hall of Fame, o nome de Clark foi automaticamente admitido como membro.

Em sua lápide na Escócia natal estão expostos seus feitos (bicampeão mundial, vencedor de 25 corridas na Fórmula 1, vencedor na Indy 500). Mas antes de tudo isso, seguindo um pedido repetido várias vezes por Jim, está escrito: “Fazendeiro”.

Fonte: TF.com

FORA DAS PISTAS

Também é de 04 de março o holandês Jos Verstappen, hoje conhecido como pai do Max, e o gigante do futebol brasileiro Dadá Maravilha. E se estivess vivo faria aniversário hoje uma das vozes mais poderosas e melódicas do soul e R&B, Robert Dwayne “ Bobby” Womack, que entre outros clássicos escreveu e gravou aquela que seria a primeira música de sucesso dos Rolling Stones, It’s All Over Now.

Carlos Eduardo Valesi

Velho demais para ter a pretensão de ser levado a sério, Valesi segue a Fórmula 1 desde 1987, mas sabe que isso não significa p* nenhuma pois desde meados da década de 90 vê as corridas acompanhado pelo seu amigo Jack Daniels. Ferrarista fanático, jura (embora não acredite) que isto não influencia na sua opinião de que Schumacher foi o melhor de todos, o que obviamente já o colocou em confusão. Encontrado facilmente no Setor A de Interlagos e na sua conta no Tweeter @cevalesi, mas não vai aceitar sua solicitação nas outras redes sociais porque também não é assim tão fácil. Paga no máximo 40 mangos numa foto do Button cometendo um crime.